Hoje li um livro que a maioria das crianças
escolheu na semana passada, quando usamos os fantoches para contarmos uma
história em que cada um era um personagem (tentativa que não deu muito certo e
ainda estou pensando em como melhorar pra tentar mais uma vez e escrever aqui a
comparação das duas experiências). Elas elegeram outra história de ovelha na
onda da Maria-vai-com-as-outras, “A Ovelha Negra”, escrito por Bernardo Aibê,
pseudônimo de Odair Barnabé, e ilustrado por Mariana Massarani. O livro conta a
história da ovelha Tita, a única negra do rebanho, que aprende a gostar dela
mesma com a ajuda de sua amiga, a dona Dalva e de todas as outras ovelhas
brancas.
Logo na primeira página, um dos meninos mais
observadores apontou pra figura da dona Dalva e disse:
- Olha, no meio de todas as ovelhas tem uma
que é professora! (menino)
- Por que você acha que ela é professora? (eu)
- Porque ela tá de óculos, ué!
- Todo mundo que usa óculos é professora? (eu
perguntando pra todos)
- Não. Ela também pode ser velha. Gente velha
também usa óculos. (menina)
Bingo! A dona Dalva realmente era mais velha,
informação revelada só duas páginas depois. Isso me deu a impressão que as
crianças já perceberam que não precisam falar só quando eu faço as aberturas
programadas. E que isso é bem diferente de me interromper, ou algo parecido.
Algumas se sentem livres para fazer observações sobre as ilustrações e sobre a
leitura em voz alta independente da demanda direta. Lembrando que esse é um dos
princípios da leitura dialógica: seguir o interesse das próprias crianças,
sempre ampliando a idéia e explorando o vocabulário. Essas pausas
não-programadas são, normalmente, mais frutíferas em participação do que por
meio das minhas perguntas. Isso provavelmente acontece porque ao se colocar no
lugar de algum personagem, a criança leva consigo toda sua experiência e seus
colegas compartilham-na e se identificam com ela. Semana que vem, chega de história
de ovelhas.

