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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Diário do Contador por Natália de Oliveira



Hoje li um livro que a maioria das crianças escolheu na semana passada, quando usamos os fantoches para contarmos uma história em que cada um era um personagem (tentativa que não deu muito certo e ainda estou pensando em como melhorar pra tentar mais uma vez e escrever aqui a comparação das duas experiências). Elas elegeram outra história de ovelha na onda da Maria-vai-com-as-outras, “A Ovelha Negra”, escrito por Bernardo Aibê, pseudônimo de Odair Barnabé, e ilustrado por Mariana Massarani. O livro conta a história da ovelha Tita, a única negra do rebanho, que aprende a gostar dela mesma com a ajuda de sua amiga, a dona Dalva e de todas as outras ovelhas brancas.
Logo na primeira página, um dos meninos mais observadores apontou pra figura da dona Dalva e disse:
 - Olha, no meio de todas as ovelhas tem uma que é professora! (menino)
- Por que você acha que ela é professora? (eu)
- Porque ela tá de óculos, ué!
- Todo mundo que usa óculos é professora? (eu perguntando pra todos)
- Não.  Ela também pode ser velha. Gente velha também usa óculos. (menina)
Bingo! A dona Dalva realmente era mais velha, informação revelada só duas páginas depois. Isso me deu a impressão que as crianças já perceberam que não precisam falar só quando eu faço as aberturas programadas. E que isso é bem diferente de me interromper, ou algo parecido. Algumas se sentem livres para fazer observações sobre as ilustrações e sobre a leitura em voz alta independente da demanda direta. Lembrando que esse é um dos princípios da leitura dialógica: seguir o interesse das próprias crianças, sempre ampliando a idéia e explorando o vocabulário. Essas pausas não-programadas são, normalmente, mais frutíferas em participação do que por meio das minhas perguntas. Isso provavelmente acontece porque ao se colocar no lugar de algum personagem, a criança leva consigo toda sua experiência e seus colegas compartilham-na e se identificam com ela. Semana que vem, chega de história de ovelhas.


domingo, 25 de setembro de 2011

Diário do Contador por Natália de Oliveira

               
             A parte que tive mais dificuldade na minha primeira contação foi antes mesmo dela começar.
            Qual livro escolher? Só tinha uma certeza: Queria uma história curta o bastante para terminá-la no primeiro encontro e conhecer todas as crianças e suas preferências. Não podia ser uma história complicada, com muitas palavras novas ou compridas (era só uma aquecimento), mas também não queria que as crianças se sentissem subestimadas contando uma “história se bebezinho”, afinal, trata-se de crianças bem grandinhas dos seus 4 ou 5 anos. Depois de muito pensar, peguei um livro emprestado da coleção de infância de um amigo, “O Esquilo Esquecido”, de Angelo Machado.
            O livro conta a história de um esquilo que, preocupado com o dia de amanhã, esconde uma castanha embaixo de uma árvore grande na floresta. No outro dia, quando vai procurar sua refeição, não acha por nada nesse mundo. Pede ajuda para a libélula, para o macaco, para o jabuti e para o tatu, mas ninguém viu onde o pobre esquilo escondeu sua castanha. Até que o esquilo, esquecido mas não menos esperto, quebra a “quarta parede” e resolve perguntar para os meninos e meninas que estavam prestando atenção na história desde o início: “Ei! Você aí! Pode me dizer onde eu escondi minha castanha?”. Nessa hora as crianças participaram como nunca, todos os grupos tentaram ajudar nosso herói da forma mais atenciosa que puderam. Mesmo assim, ele não encontrou sua castanha, e ainda por cima sofreu muito depois que uns homens cortaram todas as árvores da floresta, o que o obrigou a se mudar de lá junto com os outros bichos. Vários anos depois, de passagem por seu antigo endereço, o esquilo acha a castanha, mas agora na forma de uma grande e frondosa árvore de castanhas. Nem todos entenderam de primeira que o esquilo plantou a árvore sem querer, mas logo alguns de seus amigos encarregaram-se de explicar tim-tim por tim-tim.
         O melhor de tudo foi conhecer cada criança e observar como agiam a cada abertura da história para que contassem junto comigo. Uns gostaram, outros, nem tanto, outros até me mostraram na hora do parquinho que iam plantar uma árvore que nem o esquilo esquecido da história.
A contação dialógica ainda é uma novidade pra mim e acho que o livro me ajudou no sentido de que a própria história, mesmo em uma contação tradicional, demanda das crianças um diálogo com o personagem principal. Recomento a leitura.