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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Um (querido e especial) diário do contador


            O fantástico da vida é saber que você sempre pode se surpreender. E fui surpreendida muitas vezes nesses 8 meses que estou como mediadora no Projeto de Extensão Livros Abertos, da Universidade de Brasília. Quando comecei a ler e ouvir falar sobre o projeto, fiquei encantada. Leitora voraz, não é de se espantar que a ideia de ler para crianças me inspirasse tanto. E não deveria ser nada de outro mundo, afinal, ler livros de crianças para crianças? Nada de novo no front, correto? Errado.
            A vida tem daqueles momentos em que estar errado é completamente deslumbrante. Minha experiência no Livros Abertos é repleta desses momentos. Isso porque me permite pensar em três questões: o tipo de leitura, a importância das ilustrações nos livros e o público-alvo das publicações.
Minha experiência prévia em leitura me ensinou que ler é simples. Você só precisa acompanhar o que está escrito no livro, dar umas entonaçõezinhas diferenciadas para cada personagem e a fórmula está completa. Mas o projeto me apresentou um outro tipo de leitura, a dialógica. Eu poderia falar aqui sobre esse tipo de leitura, seus fundamentos e estratégias, mas não é o meu foco neste momento, embora acredite que algumas coisas devam ser ditas.
A leitura dialógica é um novo fôlego nesse nosso modelo educacional extremamente falho. Permite que a criança saia dessa posição cristalizada de quem não tem nada a oferecer no processo de ensino-aprendizagem. Possibilita momentos de liberdade, criatividade, aprendizagem e autonomia. E isso tudo é extremamente necessário neste nosso mundo conturbado e quadradinho.
Sobre as ilustrações... Ahhh, as ilustrações (insira aqui um olhar apaixonado, que é exatamente como me sinto hoje com relação as ilustrações) têm todo um atrativo à parte. Desde criança eu sempre achei que elas fossem inúteis, puramente uma distração. Quanto menos imagem, melhor eu achava que o livro era... Afinal, bom mesmo é livro de adulto. Com o Livros Abertos eu descobri que as ilustrações podem contar muito mais do que as palavras escritas nas páginas de um livro. Podem dar novos significados a essas palavras, aos eventos, aos personagens. Há todo um universo a ser descoberto nas imagens (o Vira-Lata, de Stephen King, é um claro exemplo sobre a importância das ilustrações para uma história).

(Vira-lata, Stephen Michael King)

Por fim (embora seja, na verdade, o começo de novas possibilidades), acho importante falar sobre a ideia clássica de que literatura infanto-juvenil se trata apenas de livros de crianças. Aprendi com o Livros Abertos (e continuo aprendendo) que os limites de um livro são infinitos. Há uns 2 meses a mediadora Ana Paula me fez um convite inusitado e acabei aceitando. Começamos, então, a fazer mediações de leitura com turmas do Ensino de Jovens e Adultos. Um público adulto e idoso em processo de alfabetização.
Começamos um tanto quanto receosas. E os adultos e idosos também, afinal, leitura de “livros de crianças” para adultos não parecia ser útil. Passei por momentos iniciais de dúvidas achando que talvez os livros escolhidos para mediação fossem infantis demais para aquele público. E a vida me trouxe uma nova surpresa. As pessoas realmente estavam participando, estavam trazendo suas histórias de vida para a roda de leitura. Estavam nos mostrando que aqueles que se dispõem a ensinar também têm muito a aprender.
O conteúdo riquíssimo que cada contação produzia, a receptividade do público quando começaram a entender a proposta, o engajamento... Tudo nos mostrava como a literatura infanto-juvenil é indicada para todas as idades. E então pensamos: "Até onde vai nossa coragem em desbravar a mediação de leitura com outros públicos?". E assim chegamos numa turma de surdos. E foi uma das experiências mais incríveis que eu já tive oportunidade de vivenciar (e que pode ser vista no instagram do projeto, @livros.abertos). Fizemos a mediação com a tradução da professora de libras e percebemos que a leitura não tem limites e que a gente sempre pode aprender com as experiências dos outros.
As contribuições da leitura dialógica PARA PESSOAS DE TODAS AS IDADES estão lá: claras, gritantes. Basta apenas se permitir conhecer novas possibilidades. Proporcionar espaço nos quais as pessoas possam trocar conhecimentos e experiências... Permitir que seja possível não apenas ler uma história, mas ampliá-la, vivenciá-la. E vocês? Já redescobriram um livro hoje?


 (Os livros são conversações, ilustração de José Rosero, 2013)

Escrito por: Raphaella Christine

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Leitura dialógica e temas difíceis

Hoje (06/09/2017), estivemos na Universidade Católica de Brasília, para uma oficina muito especial, no Seminário de Psicologia e sofrimento contemporâneo.

Como conversar com as crianças sobre temas difíceis e sensíveis como morte, luto, adoecimento, violência sexual, preconceito, identidade sexual e de gênero, suicídio?

Pensando em sensibilizar os participantes inscritos a repensar a literatura como um espaço de reflexão e a leitura dialógica como método para conversar sobre temas difíceis, nossa oficina contou com leitura de imagens...



e rodas de contação!






Foi uma manhã rica em afetos, provocações e discussões. Os olhares múltiplos e vivências únicas de cada participante teceram novas percepções e insights, nesta trama de aprendizado e co-construção.

Agradecemos a coordenação do Curso de Psicologia da Universidade Católica de Brasília que nos convidou o projeto Livros Abertos para esta parceria.  

Além disso, agradecemos, especialmente, aos participantes da oficina, que nos enriqueceram com suas histórias e sua entrega!


Aqui tod@s contam!


Ficou curioso?
Confira algumas matérias de nosso blog sobre mediação de leitura com temas difíceis.
1) O acervo indica: Edição Especial Temas Difíceis
http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2016/12/o-acervo-indica-edicao-especial-temas.html
2) Dica de Leitura: Sete minutos depois da meia noite
http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2017/04/dica-de-leitura-sete-minutos-depois-da.html
3) Bolsa Amarela de Lygia Bojunga
http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2015/11/a-bolsa-amarela-de-lygia-bojunga.html

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Intensiva: Não nos calemos!



Após algumas semanas fora do ar, os trabalhos em nossa revista digital foi retomado!
Confira nossa nova intensiva que trata sobre temas difíceis e crianças em situação de vulnerabilidade social.

"Há certas coisas que são inexplicáveis, guerras, brigas, violência, fome, desigualdade social, abandono. Nem sempre, nossa casa é um lar."

https://www.revistalivrosabertos.org/single-post/2017/06/01/Intensiva-N%C3%A3o-nos-calemos











Acompanhe nosso cronograma e participe de nossas matérias, enviando feedback, ideias e sugestões para nosso e-mail: livrosabertos01@gmail.com


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Mergulhando em Aves de María Julia Garrido e David Daniel Hernandéz

https://criacria.files.wordpress.com/2012/12/capa-aves.jpg
O livro Aves chamou minha atenção desde a capa, tanto o estilo de gravura, quanto a escolha de usar preto e branco são muito interessantes, assim como a imagem da capa, um ganso, meio gordinho, voando, mas não da maneira tradicional, numa máquina de voar, solitário.

Abrindo o livro, logo antes da história começar a presença de uma pena meio molhada se destaca; aqui a experiência de participar de uma leitura dialógica finalmente começa, as diversas possibilidades que os participantes levantaram a partir daquela simples pena fizeram com que eu me impressionasse. E essa riqueza de visões se apresentou novamente, quando um guarda-chuva apareceu junto ao título da história Aves. Não foi um pássaro, uma pena, nem mesmo um ninho, mas sim um guarda-chuva, a imagem escolhida para representar o título, isso me deixou muito intrigada, e eu não pude deixar de refletir sobre a ligação desse objeto com a pena caída. 


Com o andamento da leitura começa a se formar um padrão, visível a, eu acredito, todos os presentes na sala. Esse mundo das aves, que geralmente é visto como alegre e colorido, nos é apresentado de uma maneira inédita, nessa versão as aves estão sempre apáticas e abatidas, num mundo cinza e com a atmosfera pesada. Já no começo, outro aspecto do livro se sobressai, a anatomia dos pássaros tem características muito humanas, como asas que mais parecem braços com mãos; patas escondidas dentro de sapatos e até mesmo a barriga de um deles parece muito mais com a de um homem acima do peso, do que a de um pássaro gordinho. Mas, infelizmente, essas não são as únicas semelhanças que encontramos entre as duas espécies. Durante todo o livro vemos um paralelo com a própria história da humanidade, isso fica mais claro a cada página. Encontramos a comparação do sistema solar baseado em ovos, que parece ser uma referência à teoria do geocentrismo, e as invenções deles que se pareciam tanto com várias invenções humanas. Além disso, há brigas e mortes dentro da própria espécie; a tentativa de usar a exploração de outros animais como lazer, e até mesmo a representação do cenário que me lembrou bastante a atmosfera de filmes e fotos que retratam a época da revolução industrial. 

http://3.bp.blogspot.com/-YQeiKplHhzU/UKYy9kJyZOI/AAAAAAAABdg/LD51MFlJvSI/s1600/Bandada2.jpg
Voltando ao guarda-chuva, que causou uma curiosidade muito maior do que eu esperava. Em várias páginas, no meio de muitas discussões lá estava, sempre o misterioso guarda-chuva. E digo misterioso, pois em nenhum momento, há indicativos de chuva, ou mesmo de outras fontes naturais de água! Qual a necessidade de se ter um guarda-chuva sempre por perto? E justamente a partir dessa reflexão me veio a consideração de que talvez o curioso guarda-chuva fosse uma metáfora para o medo que esses pássaros sentem de algo que não sabemos e que talvez ocorrido antes mesmo do começo da história. Lembrei também daquela pena molhada, posicionada estrategicamente antes do título do livro. Imaginei a possibilidade de que uma tempestade muito forte tenha gerado um caos tão grande na vida dessas aves que elas tenham ficado traumatizadas. Talvez com medo de serem acometidos novamente por uma tragédia desse tamanho, elas tenham tentado a todo custo se proteger e tenham se perdido em algum lugar desse “desenvolvimento”, perdendo também sua essência. E essa triste realização se confirmou no final da história, no mesmo momento em que as esperanças, tanto dos pássaros quanto as minhas, são restauradas. Uma pequena filhote, diferente das outras aves, parece ter coragem suficiente para superar esse trauma coletivo e para tentar (re)aprender a voar.

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É claro que minha visão é uma das muitas que vieram ao longo da contação. E, talvez, tenha sido isso que mais se destacou para mim em toda essa experiência, a riqueza de pontos de vistas. Eu tenho certeza que as imagens projetadas no quadro eram as iguais para todo mundo, mas tenho mais certeza ainda que cada um de nós via algo diferente. Não existia certo e errado, existia o diferente, que inclusive, me fez perceber em cada imagem detalhes que eu não tinha visto antes. Lembro que alguém disse que a página onde apareceu um ganso em uma máquina de voar representava para ele uma crítica social. Na página onde vi uma briga de rua, viram guerras e até mesmo uma trágica cena de suicídio. Alguém acreditava que o guarda-chuva era um símbolo de status social e outro achava que era uma metáfora para as asas, agora inutilizadas, dos pássaros. 

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Eu realmente fiquei emocionada com a possibilidade de vivenciar isso junto a todo o grupo, e com a liberdade de poder compartilhar minhas próprias impressões e de, assim como todos os participantes, deixar de lado a posição passiva de ouvinte, para participar da evolução da leitura.

Escrito por: Gabriela Medeiros

Ficha Técnica:
Aves
Autores e Ilustradores: David Daniel Álvarez Hernández e María Julia Díaz Garrido

terça-feira, 4 de abril de 2017

Conversando sobre: Crianças e leitura


Convidamos todos a participarem conosco da palestra da queridíssima Profa. Dra. Eileen Pfeiffer Flores dia 06/04 (quinta) as 09:00 no auditório do bloco M na UCB (Universidade Católica de Brasília). Ela vai debater um pouco sobre nossas duas paixões: crianças e leitura. Não percam, a palestra é gratuita e aberta ao público!

segunda-feira, 27 de março de 2017

Ah! A primeira vez!

A minha primeira vivência da leitura dialógica aconteceu recentemente. Nessa estréia, eu estava como platéia, junto de outros colegas que também ingressavam no projeto. A experiência veio a somar muito, pois pude me pôr no lugar de espectadora, imaginando como as crianças que futuramente me ouvirão e conversarão comigo irão se comportar. Além disso, pude esclarecer algumas duvidas do que seria a leitura dialógica na prática.

Me senti todo o tempo a vontade para opinar e fazer reflexões sobre o que eu via e escutava. Acredito que essa liberdade para a expressão de nossas próprias interpretações seja a maior riqueza do Projeto. Porque, além de alimentar a nossa criatividade e percepção do enredo, ainda somos despertados para perceber outras visões e contextos que são proporcionados pelos colegas.

O livro escolhido foi Aves, um texto riquíssimo, que provocou nossos conceitos de antropocentrismo, por meio de textos pequenos e ilustrações, que ocasionavam várias interpretações. Afinal, a representação dos personagens do texto é feita pela humanização de animais, no caso pássaros. Este ponto que me deixou muito intrigada, pois a todo momento nós - platéia- tentávamos encontrar mais e mais traços humanos na história. 

Eu não conseguia ver a narrativa simplesmente como de pássaros - com roupas - e a descrição de suas próprias vidas, pelo contrário! Não sei se os autores fizeram isso propositalmente, mas em seus pássaros, eu enxergava a representação da humanidade. Humanidade essa marcada pelo egoísmo, pela vaidade, pela busca exacerbada do "progresso", pela busca de facilidades. De modo a chegar até mesmo ao ponto de perder o discernimento do quanto esse contexto de busca insaciável nos faz mal.

O livro se torna complexo no que diz respeito as temáticas, pois cada um dos pontos abordados proporciona grandes interpretações do que é, ou poderá se tornar a humanidade. Senti meu cérebro borbulhar de idéias, foi um momento muito rico e instigante para o início no Projeto.


Escrito por: Ana Paula Laforga
Ficou com também com o cérebro borbulhando de idéias também?
Não perca a postagem da semana que vem sobre o livro Aves!

Ficha técnica
Aves
Autores: María Julia Díaz Garrido e David Daniel Álvarez Hernández 
Editora: Kalandraka

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Revista Digital: Confira nossas novidades!

Olá, leitores!



Vocês tem acompanhando nossas postagens da revista digital? Fica o lembrete para quem está buscando por dicas de leituras e mediações!

Apresentamos a vocês na última quinzena duas obras que podem despertar discussões sobre diversidade, mudanças e imigração!
1) Selvagem de Emily Hughes: http://www.revistalivrosabertos.org/#!Selvagem-Emily-Hughes/cu6k/5741cf9b0cf2d0f13cec4af6
2) Eric de Shaun Tan: http://www.revistalivrosabertos.org/#!Eric-Shaun-Tan/cu6k/5759ae9d0cf2b2ec5182a320

Compartilhem conosco sua experiência de contação e nos deixem sugestões para as próximas postagens!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sobre se sentir mais viva e no lugar certo

Quando é fim de semestre, estresse, nervosismo, muitas coisas pra fazer, em adição à sua vida fora do contexto universitário – obviamente cheia de situações que podem fazer você perder um pouco a cabeça –, o que possivelmente passa pela sua mente é: quero paz!

Mas daí chega o dia da sua contação. Você acha que não terá paciência o suficiente, nem sensibilidade para ouvir e entender as crianças que, somente naquele dia, têm sua intervenção literária. 

Porém, o que acontece é exatamente o contrário: você se sente mais viva e no lugar certo. Pode não ser bem a sua situação, mas foi a minha. Chegar à escola e observar todas aquelas carinhas prontas pra ouvir e discutir o assunto da contação do dia é extremamente reconfortante.



Deixá-las expressar tudo o que tiverem vontade, ouvir suas opiniões e histórias de vida, suas reclamações, seus prazeres, suas ligações entre a história contada e a vida real, são coisas que fazem com que, pelo menos naquela hora, haja um esquecimento das minhas próprias questões, dos meus próprios estresses e insatisfações. Faz  haver um mergulho no momento e a valorização de cada palavrinha dita, cada desejo de se comunicar e expressar tudo o que tiver vontade.

No final das contas, o mergulho no momento é tão importante quanto as intervenções literárias preparadas, o script imaginado, a "moral" da história. Deixar-se levar e criar um ambiente propício à troca de experiências fazem da contação algo significativo não só na vida das crianças,  mas na dos contadores também. 

Raylane


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

4º edição da Oficina Conte Comigo do Livros Abertos: Aqui todos contam!



A 4º edição da Oficina Conte Comigo do "Livros Abertos: Aqui todos contam" fez parte da programação oferecida pela Semana Universitária 2015 da Universidade de Brasília (UnB), que ocorreu do dia 27 a 31 de outubro. Participaram da oficina estudantes da UnB e Educadores, que puderam conhecer a leitura dialógica e discutir diversas temáticas a partir das rodas de contação dialógicas desenvolvidas na oficina.

Aspectos essenciais da leitura dialógica foram comentados, tais como ler a história antes de contar às crianças, saber lidar com as perguntas, compreender se a criança está gostando e entendendo a história contada.
Houve também um embate entre a leitura dialógica e leitura convencional, em que se discutiu qual era mais cansativa ou em qual se gasta mais energia.
Segundo os participantes na leitura dialógica a criança gasta mais energia devido a proposta de participação do que na leitura convencional.


Uma participante comentou que “para a criança [a Leitura dialógica] é mais interessante, pois ela participa, ela tem espaço para falar, para se colocar e ser ouvida.

Assim, chegou-se a conclusão que na Leitura dialógica há mais liberdade para imaginar, refletir para além da história e relacioná-la com acontecimentos do dia-a-dia. O grupo salientou que para além da conclusão que a história do livro chegou, o grupo de crianças pode criar a sua própria conclusão como o mediador Manuel pontuou: “Quando a participação foge do livro, eu fecho o livro e nós criamos a nossa própria história".
Outro aspecto discutido foi “deixar ou não a criança ler a história no lugar do mediador?”. Segundo os participantes, por mais que o grupo disperse, para crianças que estão iniciando o processo de aprendizagem da leitura, esse incentivo é importante.  
Outro tema bastante comentado foi a relação entre leitor e livro. Destacaram que o livro é uma forma de se autoconhecer, de dar forças para vencer os medos e anseios. Os livros não geram só prazer, mas também inquietações. A criança em sua relação com o livro e a leitura dialógica faz com que ela expresse os acontecimentos que ela projeta no livro, seus sentimentos, entre outras coisas. A Leitura dialógica é um espaço das crianças e por isso a escuta atenciosa e respeitosa também se faz necessária.


Enfim, muitas coisas foram compartilhadas, tantas que esse texto poderia ser mais longo.




Assim para finalizar a dinâmica foi perguntado a cada um da roda “em uma palavra, o que é necessário para ser um bom mediador de leitura?”


"Ser criativa(o), leitor(a), engraçada(o)"                  "estar aberta(o), ser ouvinte, colhedor(a)
                                                                                      paciente, entender as crianças, ser 
"amiga(o), entrar no mundo da criança                       (e também mostrar o seu mundo a ela"
despertar, ser um captador de memórias, sensível,      
brincalhão (lhona), deixar de ser a sabichona(ão)",

                                                                      "ser observador, perseverante, alguém que faz a diferença pela relação da criança com a leitura, ser cativador e cativante, ser amoroso(a)".




Ao final foi possível que os participantes fizessem uma breve avaliação, contribuindo com sugestões para oficinas posteriores. Segue-se um exemplo de avaliação feito na oficina:


  • Que Bom: “Muito bom a parte do debate, pois você acaba aprendendo com as experiências de outras pessoas e também a parte da dinâmica de contar historias, pois tem uma vivência real de um mediador de leitura e a visão dos desafios que ele poderá enfrentar
  • Que pena: “Que pena! Poderia ter em mais escolas.”
  • Que tal: “Que tal a oficina ser dois dias? Em um dia seria passado a experiência do projeto. E no segundo dia teriam alunos para que pudéssemos contar historias”.

Agradecemos a todos que contribuíram com a avaliação e que participaram da 4º Edição da Oficina Conte Comigo!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ler é uma viagem (?)

É costume de alguns professores afirmarem, na faculdade, que aprendemos errado no decorrer da vida, que o certo é assim, assado. Aluna da matéria Introdução à Literatura, ouvi que aquela história de que “ler um livro é uma viagem”, é pura balela, com a justificativa de que, na literatura, olhamos para nós mesmos, sendo ela uma imagem nossa, além de trazer reflexões e questões acerca do mundo.


Não discordo da justificativa, que, na minha opinião, pode ser verdade em vários momentos, mas tenho que defender algo que alguns mediadores e amantes das histórias sentem: a viagem que é ler um livro.


Ao sentar e abrir um livro, consigo me sentir na floresta desbravando caminhos obscuros, no apartamento pequeno escondida de quem não me quer por perto, na juventude dos que aproveitam a vida, na história de amor dos que se entregam, no campo de concentração dos que foram injustiçados, no meio do lixão dos que trabalham duro pra ter um canto e o que comer, nas aventuras boêmias dos doce 20 e poucos anos – ou mais, por que não? –, nas façanhas de um mundo imaginário onde se comemora o desaniversário, na infância sofrida ou divertida de um personagem curioso, no cotidiano do interior do país ou em um contexto completamente diferente do que conheço ou sou acostumada.



Ao sentar e abrir um livro com as crianças, não é nada diferente. Sinto-me na mesma fazenda, junto do porquinho procurando o lobo escondido em todos os lugares. Sinto-me na viagem pra casa da vó, na rua apertando a campainha e correndo, colecionando aventuras. Sinto-me debaixo da árvore aproveitando a sua sombra, no meio da mata ouvindo a conversa dos animais, no planeta pequenino de um menino menor ainda, na escola com a professora Maluquinha, no dilema de como pegar uma estrela – do céu, do mar? –, na cabeça das crianças imaginando, afinal, para que serve um livro...


A leitura mexe com nossa sensibilidade, e o livro se releva a partir da experiência do leitor com o que se lê, sendo então algo particular de cada um. Pra mim, ler é sim uma aventura, é sim uma viagem, e se essa é uma visão muito boba do que um livro pode ser, não me importo de continuar - também – com ela.



Raylane

domingo, 20 de setembro de 2015

Crianças, professores e mediadores: possibilidades de um trabalho conjunto.

Entrei no projeto “Livros Abertos – Aqui Todos Contam” esse ano, minha parceira de mediação, Emily Wanzeller, também. Tudo foi novidade, já que fomos designadas para atuar na turma do 1º período (3 e 4 anos). É a turminha mais nova da instituição, entraram esse ano e quando iniciamos as atividades, alguns ainda não estavam 100% adaptados à vida escolar. A professora, Terlúsia Albuquerque, a tia Têtê, apesar de experiente, também não conhecia o projeto, pois depois de muito tempo atuando em coordenação, escolheu retornar à sala de aula, perto de sua aposentadoria.
Apesar desse cenário desconhecido, tivemos uma recepção e espaço de atuação muito abertos (ainda bem, já que temos relatos de professores que dificultam o trabalho de mediação), decidimos fazer algo diferente que também envolvesse diretamente a tia Têtê.
Após conhecermos a obra “Para que serve um livro?”, através da mediação de Sara Meneses em uma de nossas reuniões semanais, decidimos que seria um bom livro para colocarmos em prática nossa ideia.
Nosso planejamento consistiu em fazer uma grande leitura dialógica, dessa vez na sala de aula.
O 1º período conta com 24 crianças, temos consciência de que o número recomendado para esse tipo de leitura é bem inferior, mas por conhecermos a dinâmica da turma e a relação dela com a professora, concluímos que seria possível realizarmos tal atividade.
Com o auxílio do projetor, todos puderam visualizar as páginas da estória no quadro e ao mesmo tempo em que direcionávamos a leitura, também usávamos os livros físicos, caso alguma criança se interessasse em observar mais de pertinho.
A atividade durou certa de 1 hora e apesar do tempo parecer extenso, foi extremamente produtiva. As crianças não se privaram de participar pela presença da professora e se comportaram nesse contexto de modo semelhante ao que acontece quando mediamos em outras condições. É claro que em um ou outro momento, alguns aluninhos ficaram um pouco dispersos e mais agitados (aí contávamos com a ajuda da professora que é mestre em fazer os alunos retomarem o foco, cantando suas musiquinhas adaptadas para qualquer situação).

Ao final do livro (SPOILER) é proposta a seguinte atividade:

  

Nesse momento, a tia Têtê entrou em ação e começou a perguntar às crianças o era necessário para se fazer um livro.
As respostas se aproximaram do mundo concreto e foram: lápis, borracha, tinta, tesoura, cola...  até que uma colega disse “imaginação”.
Finalizamos esse dia com o projeto de fazermos nosso próprio livro, cada criança falou o tema da história que queria, ouvimos sugestões de princesas, super-heróis, carros, entre outros, até que Emily incentivou a criação de um tema que todos gostassem e se aproximassem das experiências cotidianas dos meninos e meninas dessa sala.
E qual é um dos lugares preferidos da escola para essas crianças e para tantas outras de todos os lugares?
O parquinho, é claro!



Já começamos a atividade de criação do livro, mas isso é assunto para uma próxima postagem! (;



Título: Para que serve um livro?
Autora: Chloé Legeay
Ilustradora: Chloé Legeay
Tradutora:Márcia Leite
Editora: Pulo do Gato

Ingrid Ramalho.

domingo, 13 de setembro de 2015

"Trash", de Andy Mulligan: uma experiência de mediação inesquecível


 Em uma das minhas mediações com crianças do 5º ano do Ensino Fundamental - 10 e 11 anos - utilizei o romance infanto-juvenil Trash, escrito por Andy Mulligan, indicado em uma das reuniões do Projeto Livros Abertos.
 Quando apresentei o livro para as crianças, elas não gostaram, pois, segundo elas, “o bom mesmo é história de terror”. Contei o primeiro capítulo, mas as crianças se mostraram apáticas frente à narrativa. Fui pra casa chateada, pois o livro era fantástico. Comecei então a pensar que o problema era eu, talvez não estivesse sabendo conduzir a narrativa. Em meio a esse conflito, decidi que leria novamente o livro, e que desta vez, eles iriam adorar a história.
Traçada a meta, fui atrás de mais informações sobre o livro, e acabei encontrando o filme baseado no livro: Trash: A Esperança vem do Lixo. Ao ler o livro e assistir o filme, tive a plena convicção que as crianças iriam adorar a história. Então, defini que não leria o livro impresso na mediação, mas escutaríamos o áudio da história, narrado e gravado por mim.
Na contação seguinte, levei o trailer do filme e o áudio do prmeiro capítulo lido com minha voz. As crianças logo se assustaram:
- Cadê o livro, tia?
Expliquei que a contação seria um pouco diferente, escutaríamos o áudio da história, e após cada capítulo conversaríamos. Antes de iniciar a mediação, fiz a maior propaganda da obra e mostrei o trailer do filme. Ficaram maravilhados e animados para ouvir a história. Sentamos em círculo bem próximos uns dos outros, e escutamos o áudio. Para a minha surpresa, ficaram todos bem atentos ao desenrolar da história e, ao final de cada capítulo, a participação foi geral.
Por mais estranho que possa parecer, o áudio funcionou esplendorosamente. Eles sabiam que era eu que estava contando, mas num suporte diferente, no caso especifico, o celular.  A cada capítulo, se mostravam mais animados e curiosos. Conhecemos uma realidade cruel, mas também a esperança de dias melhores. Infelizmente, não foi possível contar todo o livro, por causa das férias, mas em nosso último encontro de julho, com o consentimento da professora, levei o filme. E posso afirmar que a meta estipulada foi alcançada com êxito: as crianças adoraram.
O livro Trash despertou o pensamento crítico sobre os governantes corruptos, as diferenças sociais, o abuso de poder etc. As discussões oriundas do livro foram todas bem pertinentes, críticas e emancipadoras.  Crianças que antes apenas manifestavam seu nojo perante quem é obrigado a morar no lixão, que tinham preconceito com os catadores, começaram a perceber a indiferença de grande parte da sociedade mais afluente em relação a pessoas em situação de pobreza e miséria e a compreender questões sociais de forma crítica.
Sobretudo, o que eu senti ao terminar de contar Trash para as crianças foi um sentimento de esperança. Esperança naquelas crianças, que através do livro conheceram e se sensibilizaram perante uma realidade muitas vezes mascarada, ignorada, invisibilizada. Eles se deram conta que essa realidade existe e pode ser mudada por eles. Nessa perspectiva, acredito que esse livro foi uma sementinha na formação de bons cidadãos.

“Eu me pergunto: o que foi que aprendi? O que foi que aprendi no lixão de Behala, e com isso me transformou? Aprendi mais do que seria possível aprender em qualquer faculdade. Aprendi que o mundo gira em torno do dinheiro" . Mulligan (2013, p. 137)




Livro TRASH
Autor: Andy Mulligan
Tradução: Antônio Xerxenesky
Idioma: Português
Editora: Cosac Naify

Ano de edição: 2013

Taíres Sena

terça-feira, 28 de julho de 2015

Somos tudo ao mesmo tempo!

Nova postagem na Revista Livros Abertos!

Muitas vezes, dizemos às crianças coisas como: "Você é tão lento!" ou "Por que você se agita tanto?" ou "Você é mesmo muito levado!" ou "Você é mesmo bravo, heim?" Com isso, não notamos que estamos cristalizando momentos que são muito dinâmicos. Afinal, quem nunca ficou triste como um basset, ou alegre como um passarinho? Quem nunca foi suave como um gatinho, brincalhão como um macaqunho? Quem nunca se sentiu pequeno como uma joaninha ou enorme como um elefante? Somos tudo ao mesmo tempo e mudamos de acordo com as circunstâncias, e esta obra nos lembra essa verdade simples que tantas vezes esquecemos. Na Revista Livros Abertos, trazemos várias dicas para a leitura dialógica deste livro encantador.  A obra faz parte do PNBE 2010, portanto, você poderá achá-la na biblioteca de sua escola! Confira nossa Revista e comente se as dicas de mediação dialógica foram úteis para você. Boa leitura!!


quinta-feira, 9 de julho de 2015

De Animais a Leitores

Olá Leitores! Leitores de blog, leitores de comentários longos do Facebook, leitores de trilogias em uma sentada só, leitores de 6 em 6 meses, leitores de panfleto de rodoviária, etc. Estive nesses últimos dias passeando pelas minhas redes sociais e me deparei com um conjunto de imagens que me fez   pensar em vocês, isso mesmo, vocês.

Esses são os nossos últimos dias de atividade do semestre e queria falar um pouco sobre reações das nossas crianças nas nossas rodinhas de leituras dialógicas. (qualquer semelhança com você, NÃO É, mera coincidência =])

Primeiro nós temos crianças vivazes. Elas quando estão conosco na leitura dialógica são cheias de fulgor e vitalidade. Elas têm energia de vasculhar os quatro cantos da página por qualquer detalhe, qualquer vírgula não percebida. Adoram perguntar mil vezes e cada vez que a gente responde geram-se mais mil perguntas. E em várias da contações se não fosse a falta de tempo, elas falariam por horas sobre todas as coisas incríveis que a história fez ela lembrar e das aventuras que elas mesmas já fizeram. É um entusiasmo contagiante.
Eu gosto como os golfinhos saltam com tanta vivacidade.

Segundo tipo de criança que chega até nossos grupos de contações são mais graciosas. No grupo elas não são sempre as primeiras as falarem, as vezes não falam nada, mas estão lá, e quando acham oportuno sempre tem um comentário sobre a beleza da obra, e de sua opinião refinada sobre um ponto de vista que para todos não era significante, ela viu quão necessária era esses detalhes sobre o conjunto da obra. Grupos com crianças encantadoras cheias de poses, que vão as belas princesas, até os malvados piratas.

Baleias saltam com tanta graça.

Terceiro grupo geralmente estão intitulados como os mais bagunceiros, porque sua leitura é de pura força. Sutilezas passam por cima da cabeça delas, e elas atacam com intensidade e poder, as personagens, os heróis, os vilões, nada está fora do alcance da sua crítica e do seu gosto. São leitores intensos que geralmente fazem a gente sair da contação exaustos e descabelados.

Já os tubarões saltam com poder.

E por último, mas não menos importante, nossas crianças que quando se deparam com o livro, com a história, elas são como foguetes, voam longe, usam todas as forças da imaginação para serem carregadas pela história, como se estivessem sempre buscando o céu, o melhor, o mais alto sentimento. Daí a gente que está do lado de fora vendo a criança, acha que ela está mais perdida do mundo, que nem está prestando atenção, e enquanto a gente que é chato ficou na terra, ela já se foi embora, para um universo muito mais possível, muito melhor.   

E temos as arraias.


E você, como tem se deixado levar pelas histórias? Comenta aí em baixo para a gente saber.



BoscoJoão ;D

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Diário do Livros Abertos: oficina na Regional de Ensino de São Sebastião


Dia 16 de junho de 2015 o Projeto Livros Abertos fez uma oficina com alguns coordenadores de escolas de São Sebastião. Mais uma vez o projeto obteve sucesso e o retorno foi gratificante, não somente pelos mediadores que apresentaram o Livros Abertos de maneira singular, mas também pelos coordenadores que estavam dispostos a ouvir e discutir essa maneira de contar histórias.
A oficina começou com uma dinâmica quebra-gelo, um momento de descontração e conhecimento do outro. Em seguida foi feita uma apresentação do projeto e uma apresentação da leitura dialógica e seus benefícios. Logo após houve um momento de vivência que permitiu pôr em prática um pouco do que é a leitura dialógica e ao fim um debate. Para concluir pediu-se os coordenadores escrevessem suas opiniões, ou seja, um retorno do que foi bom, do foi ruim e do que pode ser melhorado.

 
Obteve-se os seguintes resultados:
Que bom: o projeto ter ido à reunião de coordenadores, poder descobrir novas possibilidades de interação a partir da leitura, o método e a didática utilizados para apresentar o projeto, a abertura ao debate, a dinâmica quebra-gelo e a receptividade do projeto.
Que pena: prazo curto para a vivência da leitura dialógica e pouco tempo de oficina.
Que tal: retornar, ir ao Caic Unesco realizar uma palestra com os professores e expandir/ trabalhar o projeto em São Sebastião.

Por Elioenay Melo