terça-feira, 11 de junho de 2013

Eu quero ler o que eu quiser ler!

Quando entramos na universidade, parece que nada deve ser mais importante e merecedor de nossa atenção, que os conteúdos científicos (cheios de teorias, frutos de longas pesquisas e mil vezes testados para que assim tenham sua credibilidade aceita) das enormes apostilas de textos acadêmicos, que teimam em ocupar o lugar do universo lúdico e ficcional de nossas mochilas, na qual tinha lugar garantido, em outras fases de nossas vidas, principalmente na infância e adolescência.


Sim, sim, mas esse tipo de literatura é importantíssimo e indispensável para a formação de nossos futuros profissionais, não temos que perder tempo com ficção. Pelo ao menos é assim que somos levadas/os a nos portar, mesmo que sem querer, pois somos empurradas/os pela enxurrada de fichamentos, provas, seminários, congressos e outros deveres acadêmicos, que não nos sombra muito tempo para sair por ai lendo o que bem entendermos.  

Pior que nem é preciso ser universitário para desprezar ou esquecer aquilo que nos divertia por longas horas e que poderia muito bem provocar o mesmo efeito hoje em dia, mesmo sendo “gente grande” e cheia/o de coisas mais importantes para fazer, bastasse ter uma chance. 

Muito bem, esta postagem é para declarar minha paixão por literatura infantil e ficção, e posso garantir que não estou sozinha. Dá pra perceber no rabo de olho das pessoas (tem uns que ficam encarando mesmo), quando, no metrô ou no ônibus lotados de pessoas indo ou voltando do trabalho ou mesmo das/os minhas/meus colegas universitárias/os (que intimamente devem se perguntar: como ela pôde???), saco da minha mochila (cheia daquelas apostilas), um "Livro de fadas prensadas de Lady Cottington" (Tery Jones), ou "O homem da Chuva"  (Gianni Rodari) ou “O rei maluco e a rainha mais ainda” de Fernanda Lopes de Almeida ou qualquer outro que esteja fora da "lista de leitura obrigatória, útil e necessária",  e fico lendo e rindo sozinha, felizmente no Livros Abertos estou sempre em contato com este universo que não abro mão e o transporte público acaba sendo um dos lugares para experimentar as histórias que depois serão compartilhadas com a turminha do 2º período da E.C 415 Norte. Pois é, as vezes dá vontade de fazer uma rodada de leitura compartilhada no meio do "coletivo" e destravar todas essas pessoas, será que daria certo? 
Texto de Raíssa Dourado

domingo, 9 de junho de 2013

O coração bate Mais Rápido....





O coração bate mais rápido, você sente um suor escorrendo pela testa, todos os nervos estão tencionados, um tremor percorre pela sua espinha, o seu corpo se contorce de espasmos no qual você não tem domínio nenhum e um misto de emoções jorram pelo seu cérebro  e não existe nada que você possa fazer a respeito.

Todos esses sintomas são típicos de um esporte radical ou mesmo uma doença, mas não aqui, pois acreditem ou não eu já experimentei todas essas emoções em uma pacata atividade. A leitura. Mas isso não vem de graça.

Existem diversos tipos de leitura, e tão vasto quanto os tipos de livros são vastos as pessoas que se interessam por eles. Auto ajuda, Quadrinhos,  Infanto Juvenil, Romances, etc.  e não é o objetivo deste que vos escreve dizer se um gênero é melhor do que eu outro, mas eu os encorajo a buscar aqueles que você gosta.

Ler os livros que você se identifica, e não ler qualquer coisa, pois a vida necessita de critérios e quando você aprende a usa-los na leitura, aquela livraria toda se torna em uma seção e essa seção um livro apenas e toda a sua busca valeu a pena quando você descobre que o livro esta falando a sua língua.

Leitura é algo pessoal e bastante íntimo, diferente de todas as outras, pois é única. Nenhum vídeo game ou realidade virtual pode superar a capacidade imaginativa. Não por que jogos e filmes  não são capazes de nos  transmitir imagens, mas é que a imaginação é uma percepção pessoal e a realidade que construímos na nossa mente depois de uma leitura é única, por isso diferenciada. Então nenhum filme por mais bem feito, e nenhum jogo por mais “high definition”  conseguira transmitir a emoção que um livro é capaz por que é a visão e percepção de outra pessoa.

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Então fica ai o desafio, achar um livro que você se conecte com ele e com a estória dele, leia-o e me diga se eu estou errado quanto ao primeiro paragrafo. ;)

BoscoJoao

sábado, 8 de junho de 2013

Diário do Contador por Ana Carolina Maia

    Na última contação, fui inspirada para fazer um convite à maior participação das crianças na história. Tínhamos discutido na reunião diversas formas de envolvê-las na hora da leitura e senti que precisava de um impulso para que as crianças percebessem como poderia ser interessante se envolverem mais naquele momento.
    
    Escolhi uma história que me agradou muito, e acho que isso também conta para que façamos uma contação mais agradável e divertida. Tinha viajado para a praia no feriado e ainda estava etereamente envolvida com elementos marítimos, de forma que escolhi o livro intitulado de O menino que queria abraçar as baleias. O título já me preenche de vários aspectos fantásticos: imagine só! Abraçar uma baleia! Que coisa maravilhosa que deve ser!    Dessa forma, peguei algumas conchinhas que tinha trazido da viagem e coloquei-as cuidadosamente envolvidas em um tecido dentro de um baú pequenino todo decorado. Esse simples elemento, conseguiu causar uma animação sem tamanho nas crianças. Ao tirar o baú da mochila, todas se aquietaram e abriram os olhos curiosos para ver o que tinha ali dentro. Eu dei umas dicas para que a surpresa de dentro do baú não se revelasse tão rapidamente.  Ao saberem que se tratava de conchas, elas vibraram! Cada um escolheu a que mais lhe agradava sem conflito algum, afinal cada concha tinha algo de especial. Eles agradeceram muito, com abraços e olhos brilhantes. Uma menina colocou a concha no ouvido e se pôs a escutar de olhos fechados o som e me perguntou: -Tia, esse é o mesmo som que está se passando agora no mar? E eu respondi: é sim! Será que o mar está dentro da concha ou dentro de você? E ela respondeu com um  sorriso.    Em seguida, iniciei a contar a história, mas não como usualmente costumava contar. Falei que nessa viagem que fiz, tinha encontrado um moço chamado João, que me contou a sua história. Quando criança, ele tinha um sonho: ele queria abraçar as baleias. E mais, ele havia me dado as conchinhas, pois gostava muito de catar conchas pela praia e acabou me presenteando com algumas.                               Foi o suficiente para muitas bocas se abrirem surpresas ao verem o livro com a história de João e para acompanharem atenciosamente a história, parando alguns momentos apenas para me perguntar: - Tia, ele existe de verdade?    O menino da história, também ensinou muito sobre os cetáceos marinhos para as crianças. Inclusive a  descoberta de que as baleias eram mamíferos, como nós humanos, causou muitas expressões surpresas.    Foi uma experiência incrível que nunca antes havia vivenciado nesse ano de contação de histórias. A sensibilidade que um simples elemento conseguiu trazer às crianças foi surpreendente.
Para quem gostou do livro, o título é: O menino que queria abraçar as baleias, escrito por Fernando A. Pires e ilustrado por Isabel S. Pires, da editora brasiliense.   


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Incrementando a leitura dialógica com um celular.



Istvan Banyai nasceu em Budapeste no ano de 1949. Emigrou para os Estados Unidos em 1985 onde, dez anos depois, produziu seu primeiro livro infantil: Zoom. Zoom é um livro de imagens em que a cada nova página o zoom é reduzido, ou seja, as imagens tornam-se mais amplas no decorrer do livro, ou tornam-se mais focadas, caso se leia de trás para frente. Enfim, meu objetivo nesse post é demonstrar uma maneira simples de levar algo do nosso cotidiano à leitura dialógica com a finalidade de torná-la mais incrementada e atrativa. Será possível utilizar um celular como instrumento de leitura? Bom, é o que fiz na última terça-feira dia 14/5. Fui à escola com o livro Zoom em mãos, já havia feito a leitura desse livro às crianças do 2º período, agora conto para o 1º ano do ensino fundamental. Achei que seria mais uma leitura de Banyai, como sempre, bem divertida, porém, fui surpreendido ao perceber que as crianças não estavam conseguindo entender o que é zoom. Explicava, explicava e nunca tinha a certeza do entendimento por parte delas; daí veio a angustia de terminar a leitura do livro e elas acharem que as imagens estavam ali aleatoriamente, sem qualquer sequência lógica. Ora, lembrei do celular em meu bolso, pronto agora vai! Não é que foi mesmo! Liguei a câmera do aparelho e coloquei o foco nas imagens, pedi para que todas as crianças olhassem apenas para a tela do celular e esperassem pelo que haveria de acontecer. A cena foi fascinante, pois na escola é proibido o uso de aparelhos eletrônicos, elas acharam que se a diretora ou alguma professora nos visse usando o aparelho estaríamos "ferrados". Fizemos um esconderijo para que ninguém mais pudesse ver aquele celular. Quando todos olharam para a tela, apertei o botão do zoom e aí elas puderam sair do plano explicativo para ver na prática como funciona o tal do Zoom. Daí passei a contar a história com o celular em mãos, as crianças se sentiram atraídas a ver as imagens por meio do celular. A cada nova página,  tínhamos duas perspectivas diferentes: o zoom do livro abordado pelo autor como forma de passar uma visão diferente das coisas e o zoom da câmera que era reduzido ou não, conforme elas pediam. A câmera não foi um instrumento apenas de diversão, podemos utilizar de objetos presentes em nosso cotidiano como forma de compreensão das histórias, por isso a necessidade de atividades que estimulem a criatividade dos contadores. Aqui fica a dica de uma maneira simples e eficiente de contar Zoom: utilize o celular.
Lucas Barros

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O primeiro contato


Estar em um projeto de extensão é deparar-se amplamente com a prática e com os encontros e conflitos que podem ser o momento com o outro. E acredito que o estar com o outro só se dá em uma construção mútua onde os limites de todas as partes são respeitados. Percebo que essa construção não é simples e envolve erros e acertos, no qual é necessário tanto olhar-se como olhar o outro.
Na minha primeira contação dialógica pude ver um pouco disso. A primeira vez que estive com as crianças foi uma tentativa de conhecê-las melhor, a fim de que pudesse perceber suas preferências e modos de funcionamento para atendê-los dentro dos meus limites.
Um encontro, de fato, não é suficiente para que esse conhecimento global da situação aconteça. Até mesmo porque se trata de um crescimento conjunto, assim, novos limites são impostos tanto para o contador quanto para a criança. Desse modo, acredito que estar nesse crescimento é empreender-se e comprometer-se com uma sensibilidade e abertura à construção do outro, aos rabiscos que ele também pode dar no processo.
E nesse encontro temos que estar abertos também às frustrações de uma intervenção que pode não ter efeitos imediatos ou não ter a aceitação plena por todas as crianças que podem querer mudar o que será feito. Acredito que estar atento a esses limites sutis ou pelo menos questionar-se quanto a eles já seja um passo aberto para o desenvolvimento de relações mais equilibradas e que favoreçam o crescimento de todos os lados.
Como integrante nova do projeto pretendo fazer o possível para que essa seja a minha postura dentro da extensão, porque também quero que seja essa a minha postura enquanto profissional fora da graduação.


Nathália Oliveira

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sem paredes, sem muros, sem grades




   Num momento de reflexão pós palestra do professor José Pacheco (para quem não sabe, ele é um dos criadores da Escola da Ponte de Portugal), me ponho a pensar...

   Estou na biblioteca de uma escola, na hora do intervalo, pronta para iniciar mais uma contação dialógica para um grupo de crianças. 

   E me ponho a refletir... A questão é que sempre temos alguma imagem em nossas mentes. Algo que já foi construído e que muitas vezes encontra-se dicotomizado. Eu já possuo uma ideia do que seria um grupo "bom" e do que seria um grupo "ruim" para a contação. Como na frase de Wittgenstein "os limites da minha linguagem, denotam os limites do meu mundo", eu não fico contente em ter tais limites dicotomizantes. Não fico contente também em pensar transformar as crianças para que possam compor um grupo "eficiente". Tal linguagem impõe limites de uma maneira que me incomoda.

   É como ler um livro que não nos acrescenta, que não nos surpreende com o enredo. Portanto, o que me conforta dentro desse incômodo é ter a consciência de tais limites. Apenas assim, serei capaz de desconstruí-los. 

  Estou em uma escola que apesar de ter caráter homogeneizante, apesar de estar cheia de limites, formados tanto pelos muros quanto pelo próprio modo de funcionamento, cheia de defeitos, é um local que circulam pessoas. Pessoas como eu, que podem não percebê-la da mesma forma que eu, mas que continuam a ser pessoas! E que possuem um universo de possibilidades em sua existência. Pensar nesse vasto universo fez com que as paredes criadas por mim aos poucos se desmanchassem e aos poucos o que era incômodo tornou-se apenas uma das muitas possibilidades, tornou-se apenas um nome.     

Ver a todos como seres de linguagens ilimitadas me possibilitou abrir mais uma porta para o reencontro com o encantamento. Me possibilitou ver a cada um como um livro novo, cheio de histórias, encantos e possibilidades!

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sugestão de mediação - "Só um minutinho"


Boa noite aos amantes de uma boa leitura!

Hoje vim trazer uma sugestão de mediação que é este livro de Ivan Zigg chamado "Só um minutinho" que foi escolhido por mim porque o personagem principal é um porquinho, e semana passada eu fui questionada pelas crianças sobre a possibilidade de levar um livro de porquinho, lobo ou golfinho. O livro é muito interessante para trabalhar a questão do tempo com as crianças e eu, para dar uma incrementada na leitura, levei um relógio daqueles com despertador para que toda vez que o porquinho quisesse mais um tempo, eles falassem com o relógio na mão: "Só um minutinho" e foi o máximo, eles adoraram!

Faço mediação em uma turma de 2º período, e eles que tem 4/5 anos se divertiram com o livro. Nele é possível questioná-las a respeito do que elas consideram muito tempo e pouco tempo, sobre o que eles acham do quarto do porquinho: bagunçado? organizado? será que ele consegue arrumar em um minutinho? e o quarto de vocês, é assim também?, e se em casa eles também pedem mais tempo pra fazer algo, e várias outras situações que o porquinho vai passando durante a leitura. Em determinada parte do livro, o porquinho vai dar mingau pro neném e acaba deixando ele todo sujo, uma das crianças disse que o porquinho não sabia cuidar de neném, mas que ela sabia e então as outras crianças falaram que também sabiam cuidar de bebês, e eles falam como tem que fazer. Me divirto com eles.

Muitos questionamentos podem ser feitos com as crianças a partir dessa leitura e as ilustrações são ótimas! Elas gostaram bastante do livro, souberam identificar vários detalhes nas ilustrações e compreenderam as imagens como um todo também.

Gostei bastante de trabalhar com esse livro e recomendo!
Até a próxima e boas mediações! :]

quarta-feira, 1 de maio de 2013




Hoje é dia do trabalho, um dia dedicado àqueles que acordam as oito da manha e voltam pra casa as seis da noite . O trabalho dignifica o homem, independente do que faça, um grande executivo e o porteiro do prédio, cada um exerce uma função  importante e que se feita com dedicação o resultado além de útil é gratificante.

É  justamente o que esse contador quer passar. Nós não acordamos cedo para pegar engarrafamento, não temos que aguentar chefes cobrando prazos de projetos atrasados e não temos nosso retrato de empregado do mês. Em geral é bem fácil ser um contador, não trabalhamos todos os dias, apenas um dia mais conveniente para nosso horário que dedicamos ao trabalho na escola, fazemos uma reunião por semana e seguimos a proposta pedagógica do projeto e pronto. 

Mas lembra da palavra chave desse post, gratificação. Pois é, nós não somos pagos para fazer o que fazemos e nosso trabalho nem é tão essencial quanto o de uma secretaria ou professora na escola que frequentamos, mas o que fazemos tem gratificação, mesmo que diferente do senso comum. A gratificação desse trabalho reside, em primeiro lugar, em ser algo voluntário, ninguém foi obrigado a vir. Mesmo assim, estamos lá e mesmo não recebendo um salário no fim do mês o retorno social que temos de ver  aquelas crianças desenvolvendo a leitura e a expressão nos deixa muito felizes e motivados.

Por isso, nesse dia do trabalho, nós queremos parabenizar a todos que exercem uma função útil e gratificante. Gratificante para si próprio ou gratificante para a sociedade. Parabéns trabalhadores, parabéns contadores do Livros Abertos. =D

Joao Bosco Feitosa 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Como a poesia me fez entender as aulas por Andressa Priscilla

Era meu segundo semestre na universidade e tive que fazer aulas de filosofia. Confesso que viajar no mundo filosófico nunca foi muito o meu forte. Sempre fui mais prática!
            Passei o semestre inteiro indo ás aulas e não via sentido em nada do que a professora falava, mas era algo relacionado a “Eu, tu e isso”. A professora falava, falava, falava e eu não entendia o porquê eu tinha que saber de “Eu, tu e isso”. Mas ia sempre e anotava tudo, apesar de nunca fazer sentido para mim.
            Na penúltima aula do semestre ela chegou em frente ao anfiteatro e disse: Vou recitar um poema para vocês! E eu pensei: Lá vem ela com as viagens malucas de “Eu, tu e isso”. Mas não, dessa vez ela recitou algo que verdadeiramente fez todo sentido para mim e ali eu consegui entender um semestre inteiro, tudo aquilo que ela falava, falava e falava.
 Foi aí que conheci o poema “Orfeu Negro”:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

(José Regio)

Logo em seguida todos aplaudiram de pé. Saí de lá com a conclusão de que “Eu, tu e isso”, é a relação com o mundo, em termos de experiência externa e interna. É conhecimento, o pensar, imaginar, onde o mundo é vivenciado, que é utilizado e experimentado. Cabe a nós aceitar ou não essas experiências, ou aceitar tudo que é nos imposto. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Retrospectiva 2012: o ano dos quadrinhos!


Ano passado fiz mediações de leitura com uma turminha do segundo ano do primeiro período do ensino fundamental. Nessa época comecei a me envolver mais com as novelas gráficas e decidi compartilhar este interesse com as crianças. O termo “novela gráfica” vale tanto para as histórias fechadas, com narrativas análogas ao romance e a prosa quanto para edições “encadernadas em formato de livros de histórias seriadas em revista” [1]·.
Escolhi três quadrinhos que ilustram esta linguagem artística tão admirada por pessoas de todas as idades: O chinês americano, de Gene Luen Yang; Batman - crônicas volume 1, de Bob Kane e O surfista prateado volume 1, de Stan Lee & John Buscema.
Cheguei a ter alguns receios... Novelas gráficas juvenis para crianças entre 7 e 8 anos...será possível? Mas a pergunta é ainda maior: É possível apreender tudo de uma só vez em uma história? É necessário?
Pensando na nossa própria experiência, quando saímos do ensino médio e vamos para a universidade um novo mundo literário se revela. Dos livros didáticos a compêndios de literatura, filosofia, história entre outros. E não compreendemos tudo, assim, de uma só vez. É preciso releitura, pesquisa, discussão, reflexão, e, sobretudo, tempo. Como diz Ricardo Azevedo “a leitura, como muitas coisas boas da vida, exige esforço e (...) o chamado prazer da leitura é uma construção que pressupõe treino, capacitação e acumulação” [2].
Não devemos fazer pouco da capacidade de nossos pequenos em (re) inventar significados e interpretações. E se há dúvidas podemos aprender com eles a reler e encontrar novidade na releitura. A repetição para as crianças nunca se dá na mesma forma. Elas conservam a antiga sabedoria “não se entra em um rio duas vezes”. Há sempre algo novo a descobrir.
Ao ler os quadrinhos com eles todos os meus receios se foram e nós nos divertimos muito!
Escolhi começar com O chinês americano enquanto os outros dois quadrinhos seriam os “satélites” das nossas leituras. É que o primeiro é uma única narrativa longa, e os outros, de super-heróis, são formados por várias histórias. Acho que acabei escolhendo esse caminho porque costumo ser assim no dia a dia, leio várias coisas ao mesmo tempo, algumas até o final, outras ficam pela metade. De qualquer maneira, o que importa é que deu certo! Eu costumava  levar os três quadrinhos e perguntar: vamos continuar com O chinês americano ou vamos dar uma pausa e ler alguma história dos nossos super-heróis? Começávamos o processo democrático de levantar o dedinho e escolher conforme a maioria.
O chinês americano (American born chinese)  foi escrito e ilustrado por Gene Luen Yang (Califórnia, 1973). É a primeira graphic novel a ganhar o prêmio Michael L. Printz Award de excelência em literatura para jovens adultos da American Library Association de literatura juvenil. Também foi finalista do National Book Award e indicado ao Eisner de melhor álbum original.
A narrativa é composta por três histórias paralelas: a de Jin Wang, garoto americano, filho de imigrantes chineses, a de Danny, estudante americano que recebe a visita de um primo chinês Chin-Kee, e de outra inspirada na antiga lenda do Rei Macaco que rejeitado pelos deuses decide subjugá-los utilizando as disciplinas mágicas do Kung Fu, para depois renegar a sua própria natureza. As três histórias juntas tratam de identidade, diferença, conflito e preconceito étnico de uma maneira leve, sem dogmas moralizantes. Já os quadrinhos de super-heróis decepcionaram um pouco. A garotada acostumada com os filmes de ação e vídeo-game achou meio sem graça as histórias antigas e inocentes de Batman e do Surfista Prateado. Iam afoitos para os quadros de ação e me perguntavam “cadê o sangue?” (!).
A DC Comics lançou em um único livro as primeiras histórias do Batman em ordem cronológica de maio a dezembro de 1939, e de janeiro a abril de 1940.
A primeira história que escolhemos foi “Blake, o ladrão de jóias Francês” (capa: Fred Guardineer; roteiro: Bill Finger; arte: Bob Kane; p.12), que começa dando o tom da personalidade de nosso herói “Ele é Bruce Wayne, um entediado jovem milionário...”.
Batman, por meio de um informante do departamento de polícia, tem acesso ao mundo do crime. Ele flagra o roubo de jóias e é surpreendido por policiais. Estes acabam tomando Batman por chefe da gangue. Porém, isto fora premeditado por Batman que queria despistar os criminosos e assim prender Blake, o francês.
Entre uma leitura e outra de O chinês americano nós também lemos as histórias de Robin, Coringa e Mulher-Gato.
Alguns grupos escolheram O Surfista Prateado (Silver surfer), de Stan Lee & John Buscema, edição da Biblioteca Histórica Marvel, volume 1. Anunciado como o “novo épico literário Marvel”, essas primeiras histórias contam a origem do “Sentinela das estrelas”. As crianças ficaram empolgadas com esse HQ, muitas só conheciam o herói pelo cinema.
Sobre adaptações, produção industrial e “aventuras ingênuas” indico este artigo do crítico de quadrinhos Ciro Inácio Marcondes http://www.raiolaser.net/2011/04/o-poderoso-thor-ou-stan-lee-enquanto.html. O Ciro é um colaborador anônimo do nosso projeto (agora nem tanto) sempre dando dicas e emprestando quadrinhos do seu acervo.
Nesta crítica ele tem como foco outro herói de Stan Lee, também levado as telas de cinema, “O poderoso Thor”. É interessante como ele chama atenção às ideologias políticas por trás das histórias de super-heróis. Apenas uma ressalva: com um empurrãozinho as crianças chegam a problematizações mil!
Up, up and away!

Suelem Jobim



[2] AZEVEDO, Ricardo. Formação de leitores e razões para a literatura, p.1.