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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Lugares em que contamos por Laís Melo


   






               
                Na minha passagem por Fortaleza, descobri esse lugar lindo em que acontece um projeto muito legal. Não consegui descobrir o nome real do projeto, mas nesse antigo vagão de trem (fabricado em 1938) localizado na praça Luíza Távora no bairro Iracema, fizeram uma biblioteca! Entrei para conhecer e fiquei encantada com o que vi: muitas crianças com acompanhantes fazendo a leitura dialógica! E enquanto estava lá, várias crianças chegavam correndo animadíssimas, entravam no vagão, pegavam um livrinho e sentavam-se para ler. Achei muito interessante pois consegui perceber que todos estavam realmente se divertindo ao ler. As crianças não foram obrigadas a irem lá - na verdade, alguns pais que pareciam terem sido obrigados: iam um pouco desanimados atrás enquanto as crianças chegavam correndo na frente.


               Cheguei até a voltar lá outro dia, para sentar e ler algumas coisas. O ambiente era muito agradável e acolhedor, e por ser um vagão antigo, me passava a sensação de que havia muito conhecimento por ali.
               Fiquei com vontade que tivesse um vagão aqui em Brasília também. Senti que lá era o lugar de uma leitura por diversão e livre, como deve ser.







domingo, 20 de novembro de 2011

Diário do Contador por Laís Melo

                  A última contação trouxe à tona uma boa discussão com as crianças. Como de costume, levei três livros para que cada grupo escolhesse qual deles preferiam. Mas, quando lia com o primeiro grupo eles vieram com tantas idéias que decidi ler nos outros grupos também. Li o livro “O direito das crianças”, que foi escolhido pelos aniversariantes do dia, como decidido pelas próprias crianças. Achei engraçada a reação deles quando mostrei o livro, eles acharam um pouco estranho, fizeram uma cara de “hã, como assim?”. Isso representou bem pra mim a forma como lidamos com as crianças, deixando sempre bem claro os seus deveres, mas deixando de revelá-las também, que como qualquer outra pessoa, elas têm direitos. Dessa forma, podemos também nos questionar sobre como geralmente não trabalhamos de forma correta a autonomia.
                Quando ainda apresentava o livro, perguntando o que eles achavam do tema e se eles sabiam alguns direitos que tinham, eles começaram um brainstorm que até me assustou. Resolvemos, então, fazer uma lista de direitos que eles tinham. Apareceu de tudo, desde “O direito a pedir presentes caros no Natal” até “o direito de mexer no computador do meu pai”.
                 E, então, surgiu outra questão: todas aquelas sugestões eram direitos? Comecei a debater com eles se tudo que gostaríamos de fazer era um direito. Alguns misturaram deveres com direitos também. No fim, não conseguimos chegar a um consenso, mas debater já é um começo.
                 O livro foi importante para direcionar o que eram esses tais direitos. Ao ler, eles tentavam descobrir, ao olhar as figuras, o direito que cada uma representava. Foi muito legal, porque em algumas figuras, eles descobriam outros direitos que não estavam no livro. Para complementar, eles ainda exerceram seus direitos ao escolher o lugar que gostariam de ler. Eles escolheram o parquinho. Tivemos que rever os direitos, porque eles se empolgaram muito com a idéia e esqueceram-se de alguns deveres. Mas, na medida do possível, tudo deu certo no final...
               Nessa contação achei legal a forma como o livro possibilita que nós possamos tratar de temas que às vezes deixamos de lado, mas que são muito importantes. 


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Diário do Contador por Laís Melo



Me senti mais confortável ao saber que não só eu mas, também, as crianças não conheciam a história dos Bogatires. Essa é uma das histórias do livro Vice-versa ao contrário, assim como a história do Peter Pan, que contei umas semanas atrás. Engraçado que diante de tantas histórias conhecidas (e suas respectivas versões inventadas/cômicas que o livro traz) as crianças escolheram essa, com um nome tão, tão... FEIO! (pensei). Enfim, as crianças deram um descanso para os clássicos mais clássicos e, imagino eu, resolveram descobrir o que uma história de nome tão estranho fazia entre outras tão conhecidas.

É uma ótima história. A versão original trata da lenda dos bogatires, que eram seres gigantes nascidos da Mãe-Terra. Essa é uma lenda que fazia parte (não sei se ainda faz) da tradição oral do povo russo, que contava as aventuras desses gigantes em forma de música ou poesia, ressaltando a força deles, bravos guerreiros, que defendiam as terras de invasores.
O texto cita ainda outras lendas que tratam de gigantes, mas que foram inventadas em outros lugares do mundo, em que eles aparecem ora como benfeitores, ora como malfeitores. E daí surge a inquietação do autor (minha e das crianças também): Será que os homens sonham ou imaginam as mesmas coisas em lugares diferentes? Bem... pensamos que talvez isso seja possível, mas não soubemos explicar.


Bem... fim da história original.


A versão inventada/cômica dessa lenda revela uma guerra entre os bogatires e homens. Entretanto, e para a surpresa de  todos, os homens saíram ganhando nessa. E a explicação é ótima: sempre que um bogatir atacava um homem e o dividia ao meio, as partes  que sobravam se transformavam em dois homens! Dessa forma, ao verem que a luta estava perdida, os bogatires desistiram e resolveram se refugiar no fundo das cavernas, e lá, caíram nos abismos  escuros e viraram pedras. Dessa forma, os homens se tornaram os “manda-chuvas” da terra.
Ah sim! Quando um bogatir partia um homem ao meio, dos dois que resultavam, um era destro e o outro canhoto. As crianças gostaram muito dessa parte, pois, realmente, é uma ótima explicação para o fato. Mas, se foi assim, deveria existir no mundo a mesma quantidade de destros e canhotos. Então... porque existem infinitamente mais destros que canhotos? Isso eu deixo pra vocês mesmos descobrirem. E eu, sendo canhota, não sei se gostei muito da explicação...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Diário do Contador por Laís Melo


O dia foi de muitas histórias... Para começar, li com um grupo de crianças uma das histórias do livro “Vice-versa ao contrário”. Esse é um livro que traz a versão original de histórias clássicas e uma outra versão delas, que geralmente não tem nada a ver com a original. Eles escolheram a história do Peter Pan, que na nova versão, se cansa da vida na Terra-do-Nunca e resolve ir para outro lugar. Ele acaba em Londres, e lá busca saber como é a vida nessa cidade . A história é bem diferente da original, então, a reação das crianças foi atenta e um pouco resistente. Mas, por fim, disseram que era uma boa história.


O segundo livro que li foi “O pequeno herói”. Há um bom tempo havia prometido pras meninas que levaria um livro de princesas, e encontrei esse das Princesas do Mar. Gostei desse livro por serem princesas que não seguem muito o perfil “espera pelo príncipe encantado”: são princesas que brincam, brigam e resolvem problemas. A história é bem divertida, com ilustrações bem coloridas e acaba trazendo uma moral de respeito às diferenças. Enquanto ouvia a história, o grupo formulou algumas hipóteses para o final. Eles gostaram muito do desfecho e quiseram rever as figuras. Não só as meninas, como os meninos também.  


Por fim, em dois grupos fiz uma leitura diferente. Havia decidido na semana passada, devido ao fato de uma das crianças sempre demonstrar interesse por enciclopédias, fazer essa leitura. Outras crianças se interessaram também, então fiz o combinado de ler uma enciclopédia essa semana. Logo depois, veio o desespero! Perguntei-me muitas vezes como faria isso, ou mesmo se esse tipo de leitura era o ideal para a proposta do projeto. Enfim, fiz. E foi genial! Na verdade, pelo fato de o texto ter muitos termos complexos, resolvi usar as imagens (que era exatamente o que interessava às crianças) e formular uma história. Formulei uma história até o meio da enciclopédia e pedi a ajuda deles para continuar a história com as figuras das páginas que seguiam. Eu que pensei que a diversão era mais pra eles, me diverti muito mais! Ri muito (de verdade) com os rumos que a história tomava, e concluímos a história juntos.

domingo, 25 de setembro de 2011

Diário do Contador por Laís Melo


Bem, primeiro dia de contação! Mil dúvidas na cabeça... A princípio, pensei em como seria, qual livro escolher... concluí: nada como a escolha! Essa foi minha palavra de ordem. Resolvi escolher três livros que eu gostasse um dia antes na biblioteca (no caso,  “O pequeno polegar”, “O mundo perfeito” e “O homem invisível”), com temáticas diferentes, pra que as próprias crianças pudessem escolher. Foram 5 grupos com 6 crianças, e escolhemos a ordem em que cada  grupo iria participar.
Minha idéia era fazer uma apresentação no começo, para que eu conhecesse meus colegas de leitura. No primeiro grupo, seis meninas. Depois de tanto enfeitarem seus nomes ao escrevê-los, fomos à votação: escolheram “O pequeno polegar”. Elas interagiram muito com a história: caras de espanto e desaprovação quando o pai ia abandonar os filhos na floresta. Mas ao perguntar o que elas achavam que os pais sentiam, elas diziam que eles estavam tristes por terem que abandonar os filhos. No final da história, elas insistiram por outra, e pela impossibilidade de tempo, combinamos em reler em velocidade máxima o livro. Elas morreram de rir.
O outro grupo, também escolheu “O pequeno polegar”. Achei incrível como a fábula realmente tem algo que os prende. Durante a leitura, perguntando sobre o que eles achavam que ia acontecer vendo as figuras, eles (os que se sentiam mais à vontade) prontamente respondiam. No final, perguntei se tinham pensado em um final diferente e eles parecem ter ficado satisfeitos com o final da história.
O terceiro grupo foi o ápice da manhã. Como os outros grupos, escolheram onde iriam fazer a leitura. Escolheram a biblioteca e ao chegarmos lá, o grupo se dispersou. Começo do meu desespero de principiante. Por fim, eles ainda se organizaram para se apresentar, mas depois disso, cada um por si: dois pegaram livros de fósseis; outro, um livro do Machado de Assis, as meninas exploravam a biblioteca, variando entre os livros e alguns objetos na biblioteca. “Como fazer?”, pensei.  Sugeri, como nos outros grupos que escolhêssemos um dos três livros. Os meninos queriam ler os livros que tinham escolhido e as meninas estavam querendo escolher uma das minhas opções, mas a biblioteca estava muito mais interessante.
Tentei conversar com o grupo que precisávamos fazer uma escolha diante de tantos interesses, que todos decidissem para “o bem de todos”. PÉÉÉ! Resposta errada. Ao mesmo tempo em que sugeria uma decisão conjunta, e que as meninas se revoltavam com a “rebeldia” dos meninos de estarem irredutíveis quanto a ler os livros que tinham escolhido, eu pensava... (*ps: pensei, paralelamente, em como somos ensinados desde pequenos a valorizar o obediente e não o que propõe uma outra idéia). Como um insight, que deveria simplesmente ter sido um pensamento natural, pensei: “Muito bem, Laís! (ironicamente)... você está fazendo exatamente o contrário do que se propôs a fazer aqui! ...fazendo os meninos que estão com o interesse em um livro específico terem que deixar o livro deles pra ouvir VOCÊ com um livro que eles não querem ler!Esse é um momento da leitura e não de você protagonizar a leitura!”
Resolvi então combinar com os meninos que eles iam ler o que escolheram e que eu estaria ali lendo o livro com quem quisesse ouvir.  No fim, as meninas elegeram “o homem invisível”, e enfim, comecei a ler... pra mim mesma. Até elas desistiram... então resolvi retomar a conversa pra que nós decidíssemos o que era melhor, um novo livro, quem sabe. Elas disseram que aquele estava bom, então, recomecei-o, mesmo sem nenhuma companhia efetiva. Mas percebi que conforme a história seguia, tanto os meninos com seus livros, quanto as meninas com os objetos da biblioteca, paravam pra dar uma olhadinha no próximo acontecimento do livro. Fiz uma pergunta aqui e outra ali, e eles interagiram aqui e ali. Notei o tanto que é importante também virar o livro totalmente pra eles, pra que pudessem acompanhar as figuras e a história como um todo.
O penúltimo grupo escolheu “O pequeno polegar” depois de uma votação acirrada. Acho que consegui explorar melhor determinadas emoções durante o livro, situações que eles já tinham passado; e eles exploraram bem esse espaço, contaram várias histórias pessoais.
Por fim, o último grupo era formado exclusivamente por meninos. Não sabia se saberia lidar com isso, baseada em todas as histórias de que meninos juntos se transformam em pestinhas. Doce surpresa... após a apresentação deles, eles elegeram “O mundo perfeito” e ao iniciar a contação houve silêncio e atenção absoluta a cada detalhe! Com as perguntas, alguns pareciam até cair da nuvem de imaginação. A participação deles foi ótima e em alguns momentos bem engraçada, com algumas sugestões inusitadas do que viria a seguir.
Foi isso. O contato inicial, apesar de ter- me feito pensar em várias novas questões, me aliviou um pouco a respeito de outras.