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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Frankenstein ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley

https://sheroesofhistory.files.wordpress.com/2015/10/rothwell_-_mary_shelley_enanced_crop.jpg
Sabe quantos anos tinha Mary Shelley quando começou a escrever Frankenstein? Dezoito. Ao redor da fogueira, ela e seus amigos se divertiam contando histórias assustadoras, Num dado momento, surgiu o desafio: que cada um dos amigos escrevesse sua própria história de terror. Dois anos depois, Mary Shelley publicava Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Nenhum dos amigos levou o desafio até o fim.

Numa inversão universalmente conhecida, as pessoas costumam dar o nome de Frankenstein à criatura, quando se trata, na verdade, do nome do criador. Quem não leu, geralmente, custa a aceitar essa informação: "Frankenstein só pode ser o nome do monstro". Talvez seja justo. Afinal, o que criamos é também um pedaço de nós. O tormento da criatura é o tormento de criador, Viktor Frankenstein.  O desejo da criatura de ser aceita reflete, em outro nível, a ambição de Viktor, que deseja ser reconhecido como um cientista brilhante que foi além de todos os limites e tornou-se capaz, como Prometeu, de dar a centelha da vida.

Acontece que esse Adão moderno é imediatamente rechaçado por seu criador. Não é rechaçado por nenhum ato indesejável, nem por uma falha moral ou de caráter, e sim por ser feio, repugnante, assustador.  Frankenstein, covardemente, abandona sua criatura e sente alívio ao imaginar ter se livrado desse filho que o constrangia. Esse filho que não saiu como ele imaginou, que não refletia suficientemente sua grandeza. Esse filho que não recebeu do pai aquilo que é o símbolo de aceitação, de reconhecimento, de responsabilidade: um nome próprio.

O filho sem nome busca, pois,  o amor. Nada mais. Vaga pelo mundo com a esperança de que alguém possa adotá-lo como seu. Quer pertencer. Mas ninguém o quer. Seus gestos de aproximação são interpretados como ameaças, suas tentativas de fazer-se ouvir, recebidas com terror e violência. Desesperado, acaba tornando-se o que o relegaram a ser: um monstro.

Soa familiar? Deu para ver como essa história, longe de ser apenas uma história assustadora, fala com a alma jovem e como toda(o)s nós?


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A obra foi escrita em uma época em que o conceito de adolescência ainda não estava consolidada. Já carrega, no entanto, todos os ecos do Sturm Und Drang que caracterizam nossa concepção de juventude até o dia de hoje.  A paixão da juventude é refletida tanto na ambição e vontade de saber desmesuradas de Viktor Frankenstein, quanto na desolação e no desespero que se instalam no coração do monstro. Não é à toa que um dos livros lidos pelo monstro ao tentar compreender a humanidade é justamente Os Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, ícone fundante da visão romântica da juventude como uma fase de paixão, fogo e tormento.

Por tudo isso e por ser simplesmente uma obra prima de ficção científica, terror e romance (tudo ao mesmo tempo),  Frankenstein ou o Prometeu Moderno, escrito há exatos 199 anos atrás por uma adolescente inquieta e genial, com certeza tocará o coração de jovens deste milênio. O Livros Abertos recomenda!


Escrito por: Eileen Pfeiffer

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Acervo Indica: Clássicos II

Continuamos nossa maratona pelos livros favoritos de nosso Projeto! Ansiosos pelas nossas dicas de leitura?


5) Bolsa Amarela de Lygia Bojunga

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Sabe aquelas três vontades secretas que provavelmente toda criança já teve? Se você não teve vai conhecer e vai se identificar. Em Bolsa Amarela, você conhece uma criança que tem certas vontades, que falam diretamente com você. Algumas você vai inevitavelmente realizar com o tempo, outras apenas se você perseverar. 

O grande dilema é o que fazer quando as vontades vão crescendo devagarinho e tomando todo o espaço a sua volta e te sufocando de tanta ansiedade, que é difícil conter. Do que você precisa para esconder um amigo brigão? Para enfiar aquelas histórias incríveis que não dá pra não contar pra todo mundo? Você precisa de algo grande, você precisa de algo bonito, Você precisa de uma bolsa amarela. Eu queria ter tido uma, ajudaria bastante a aliviar a tensão de ficar escondendo minhas vontades. Pouparia minhas pernas de todas as vezes que tive que sair correndo porque uma vontade estava crescendo e eu não podia deixa-la sair ali onde eu estava. Ah, como eu queria uma bolsa amarela...!

Ficou curioso (a)? Venha conhecer mais sobre essa obra de Lygia É uma das postagens mais populares em nosso blog, diga-se de passagem, acho que no fundo, todos gostaríamos de uma bolsa assim.
http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2015/11/a-bolsa-amarela-de-lygia-bojunga.html

Título: A Bolsa Amarela
Autora: Lygia Bojunga Nunes
Ilustradora: Marie Louise Nery
Edição: 35a (Primeira Edição em 1976)
Editora: Casa Lygia Bojunga (Rio de Janeiro)

6) Pipa Meialonga de Astrid Lindgren




Essa garotinha de tranças ruivas e sardinhas não pode faltar no universo literário das crianças. Criada por Astrid Lindgren em 1945, é considerada uma das personagens-meninas mais empoderadoras da literatura infanto-juvenil. Acontece que Pippi é a menina mais forte do mundo e enfrenta sem temor todo tipo de bullies, desde o bando de valentões que atormenta a vida de um menino, na razão de cinco para um até ladrões que entram em sua casa achando que será crime fácil, pelo fato de Pippi morar sozinha (sua mãe é um anjo no céu e seu pai é capitão dos sete mares). Mas Pippi se vira muito bem, do jeito dela, que é sempre o jeito mais divertido do mundo. Faz panquecas jogando ovos para o alto e, quando um deles cai em sua cabeça e se quebra, explica que há países distantes em que todo mundo faz assim, afinal, por que não? Inventora suprema de brincadeiras, inverte expectativas e cria mil aventuras maravilhosas. Como dizem seus (muito certinhos e tímidos) amigos e vizinhos Tom e Aninha, "Com Pippi, nunca dá para saber". Simplesmente imperdível!

Em breve, teremos uma matéria um pouco mais longa sobre a Pippi, enquanto isso, por que não procurá-la na biblioteca? Não vai se arrepender! :)


Ficha Técnica: 
Título: Pippi Meialonga
Autora: Astrid Lindgren
Ilustrações: Lauren Child
Tradução do sueco: Maria de Macedo
Editora: Astrid Lindgren
Ano: 2008 (publicado pela primeira vez na Suécia em 1945).


7) Frankenstein ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley


https://antiscribe.files.wordpress.com/2012/06/the-house-of-frankenstein.jpg

Essa obra prima simplesmente não pode faltar na prateleira de adolescentes (e nem na dos pais). De uma riqueza estonteante, puxa para mil temas que instigam toda e toda(o) jovem, como os limites ou não da ciência, a paixão por saber sempre mais, a relação pais e filhos, a responsabilidade eterna por aquilo que criamos... Perguntas que jovens irão querer debater fluem muito naturalmente da leitura desta história, como "O que é de nossa natureza e o que é criação?" "Até que ponto a maldade é fruto da incompreensão dos demais?" "Estamos mais próximos de realizar o que Mary Shelley imaginou?". Se, como apontava Jean Piaget, adolescentes são filósofa(o)s apaixonada(o)s, nem por isso deixarão de simplesmente curtir o suspense e a emoção desta história maravilhosa.

Em uma próxima postagem, falaremos um pouco mais das razões pelas quais essa obra tem tanto apelo para jovens e também sobre o assunto da relação criador-criatura/pai-filho e sua centralidade na obra. Abraços monstruosos!


Ficha Técnica
Frankenstein ou o Prometeu Moderno
Autora: Mary Shelley
Foi editado muitas vezes, confira algumas editoras: Hedra, Penguin Companhia, Martin Claret.


8) Meu pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos
http://lounge.obviousmag.org/o_arteiro/2013/06/08/meu%20p%C3%A9%20de%20laranja%20lima.jpg

Para todos que já leram este clássico sabem que ele mexe profundamente, aos que pretendem ainda ler fica o aviso: lembre dos lencinhos!

Uma árvore confidente marca a infância de uma criança que carrega simultaneamente em sua alma diferentes cores. As cores eletrizantes e contagiantes, típicas do mais jovens, se revezam com os tons pastéis e sóbrios, comuns há aqueles que são antigos no espírito.

No inicio dessa semana fizemos uma matéria só para este clássico, se você ainda não leu, confira sem demora! >> http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2017/03/meu-pe-de-laranja-lima-de-jose-mauro-de.html

Ficha técnica
Meu pé de laranja lima
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Editora: Melhoramentos


O Acervo Indica volta semana que vem, 
com a lista de livros que serão os novos clássicos.
Escrito, com carinho, por: Sara, Eileen e Rafaella Christina. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A Filha da Vendedora de Crisântemos (Dica de leitura - Acervo PNBE)


Esta é a cor bonina, de que Beatriz tanto gosta. É também a cor de suas sandálias e da capa do livro.

Autora: Stella Maria Rezende
Ilustrações: Andréia Resende.
Editora: Paulus
Ano: 2008
PNBE 2011

 Beatriz, uma adolescente alegre e cheia de vida, depara-se de repente com o desprezo e o afastamento de amigos da pequena cidade mineira onde vive:
- Beatriz, vê se me esquece, viu?
- Hem...?
- Tira o meu nome do seu caderno de recordação.
- Lélio, você...
- Acha que eu preciso dizer mais coisa?
- Não é possível...
- Me poupa, Beatriz. 
(...)
Desde o amado Lélio, até a amiga Joana, que nunca mais disse "Béa, nossa amizade vale ouro", todo mundo olha para o outro lado quando vê a Beatriz. E, nessa hora, nem suas sandálias boninas* parecem ajudar. A menina alegre, que anuncia à mãe que vai sair para "vesperar"** o passeio festivo do dia seguinte, se vê de repente à véspera... da tristeza. 

Porque a tristeza sempre vem.

Aos poucos, fica claro o que parece estar incomodando a todos:
Sua mãe, que vive de vender crisântemos para um moço que vem de Belo Horizonte.
Sua mãe, que prefere ser feliz.
Isso as pessoas não vão admitir. Onde já se viu? Essazinha aí vive de brisa... Essa, aquela... Ninguém mais chama a mãe pelo nome: Dona Geralda. 
A mãe que não faz questão de marido.
A mãe que namora o moço que vem buscar os crisântemos e que, ainda por cima, é lindo de morrer.
Aí não dá.
 "Onde já se viu uma mulher assim tão aliviada de vicissitude, ara mas tá. Ela pensa que pode plantar o que quiser, o quanto quiser e namorar um homem e ser feliz e para completar o homem é lindo?"

Sinais que Beatriz não notava antes, no meio da alegria e das cores das flores, revelam-se. A música preferida cuja letra a mãe, desolada, não consegue lembrar. A água que derrama perante o olhar vazio. O telhado nunca mais consertado.

E o não dito que rodeia tudo...
Por que o pai de Beatriz foi embora tão de repente, anos atrás? Por que ninguém explica nada?

Mas mesmo na tristeza e na véspera do desespero, Beatriz não vai desistir. Se até a Assombração da Lamparina, na velha casa abandonada, ela enfrentou, não é esse não-dizer  que  vai intimidá-la nem impedí-la de descobrir o que está acontecendo e enfrentar de frente o preconceito.

Uma bela história, repleta de brincadeiras com a palavra e a poesia, que faz pensar sobre  intolerância, coragem e transformação.

Recomendamos!


* Cor de uma flor muito comum em minas, um tom de rosa-violeta muito especial.
** Mistura de véspera e esperar, palavra inventada por Beatriz depois de ouvir a tia sempre repetir que "O melhor da festa é a véspera".