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domingo, 15 de novembro de 2015

A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga.

Vencedora do Hans Christian Andersen em 1982 - um ano após o lançamento de Bolsa Amarela, sua Magnum Opus -, Lygia Bojunga Nunes ganhou o público infantil com suas histórias que respeitam a inteligência das crianças. Ao retratar a visão da infantil de forma não estereotipada, a autora me conquistou com este livro que comentaremos agora.



Narrada em primeira pessoa, a história é contada na a ótica de uma menina de sete a oito anos, a Raquel. Com uma linguagem que parece falar à alma, o texto nos reaproxima da infância e nos faz relembrar como, muitas vezes, os sonhos, anseios e  as opiniões das crianças são ridicularizados. Raquel é criativa, engraçada e cheia de idéias e histórias para contar.Ela pensa muito, mas muito mesmo, sobre a barreira entre adultos e crianças e nos leva questioná-la também, já que nos convence de que adultos e crianças são iguais. Só criança faz pirraça? Só adulto tem deveres e segue regras? Não? Então por que crianças são tratadas como se fossem menos inteligentes e adultos como seres superiores? Lendo o livro, a primeira revelação é ver a vida pelos olhos de uma criança. Infelizmente, em nossa cultura, tratamos crianças como seres com menos inteligência, como se elas não fossem capazes de refletir ou sequer notar o mundo a sua volta. 
Ainda tenho memórias frescas da infância, algumas inclusive em que agi de formas consideradas próprias de crianças "malcriadas",enfrentando adultos e consequentemente sendo chamada de  "menina atrevida", "petulante", "folgada",  "espertinha, dentre outros adjetivos usados por quem se acha superior em um diálogo. Mesmo assim, infelizmente, eu repito esse erro como se fosse natural. A questão faz recordar um viídeo "viral" da internet de uma menina que demonstra bem que crianças sabem sim o que acontece em sua volta, e que elas expressam isso à própria maneira, com muita perspicácia e sensibilidade.




Raquel, muito mais nova que os demais irmãos e sempre sendo silenciada por eles, sente-se só. Descobre então que, por meio da escrita, ela pode ser quem quer, fazer o que bem entender, ter quantos amigos puder, despejando no papel todas as suas vontades, a de ser "grande" , a de ser menino, a de ter amigos. Mas mesmo sua escrita desperta desconfiança nos irmãos mais velhos, cujo primeiro movimento é sempre o de duvidar da palavra da caçula. Assim, até para escrever cartas inventadas de amigos inventados para si mesma, Raquel é obrigada a elaborar intrincados planos para escapar do olhar sempre vigilante dos adultos. É a bolsa amarela, um objeto rejeitado pelos adultos de um pacote enviado por uma tia, que vai permitir que Raquel guarde e viva suas vontades, seus sonhos, suas histórias... 

Uma reflexão que Raquel se faz e que acabamos nos fazendo também ao viver suas aventuras é acerca da obsessão que nossa cultura possui por divisão de gênero. Oras, por que menina não pode soltar pipa, jogar bola, ralar os joelhos? Por que diabos usar rosa ou gostar de boneca é propriedade feminina? É só uma cor, um brinquedo, uma brincadeira. Embora a obra tenha sido escrita na década de 1970, tais questionamentos continuam, infelizmente, muito 
A obra nos mostra ser possível abordar quase qualquer questão com as crianças e nos lembra que fazíamos sim esses tipos de questionamentos, assim como nossos filhos também nos colocam tantas vezes contra a parede com perguntas que nem sempre sabemos como responder. 
Num trecho, Raquel se questiona sobre seu nascimento, que ela sabe, através das irmãs, não ter sido planejado. Isso a faz sentir-se, às vezes, como se estivesse "sobrando" na família. Questiona-se, consequentemente, sobre a escolha de ser mãe:
"Um dia perguntei para elas: Por que é que a mamãe não tinha mais condição de ter filhos? Elas falaram que a minha mãe trabalhava demais, já tava cansada e que também a gente não tinha dinheiro para educar direito três filhos, quanto mais quatro. Fiquei pensando: mas se ela não queria mais filhos porque é que eu nasci? Pensei nisso demais, sabe? E acabei achando que a gente só devia nascer quando a mãe da gente quer ver a gente nascendo."
Já no diálogo abaixo, Raquel questiona o conceito de "chefe da casa" :
"- Quem é que resolve as coisas? Quem é o chefe?
- Chefe?
- É, o chefe da casa. Quem é? Teu pai ou teu avô?
- Mas para que precisa de chefe?
-Para resolver os troços, ué; para resolver o que é que cada um vai estudar.
-Cada um estuda o que gosta mais. Tem livro aí, a gente escolhe o que quer.(...)
- Não tem sempre uma porção de coisas para resolver? Quem é que resolve?
- Nós quatro. (...)
- Mas pode?
- Por que é que não pode?"
Diversas outras reflexões na perspectiva de Raquel nos fazem pensar:  As opiniões dos pequenos precisam ser reprimidas, constantemente negadas ou moldadas? Tentar coagir ou censurá-las para que suas opiniões coincidam com as nossas funciona? Penso que tratar crianças como se elas não pensassem ou como se nós adultos fôssemos "a fonte de conhecimento" é apenas uma armadilha para nós mesmos.

Espero que tenham gostado da resenha. Se tiverem indicações de algum outro livro da autora de que tenham gostado ou de outras obras relacionadas, ou se já leram Bolsa Amarela e gostaram ou não, escrevam nos comentários! O feedback de vocês é muito importante para os resenhistas e mediadores do blog.


Autora: Amanda Barros

Considerações finais:
Agradeço ao blog Leitura no Varal  por  divulgar uma de nossas postagens. Continuem nos acompanhando e esperamos continuar agradando. A literatura infantil precisa de visibilidade.

Ficha Técnica:

Título: A Bolsa Amarela
Autora: Lygia Bojunga Nunes

Ilustradora: Marie Louise Nery

Edição: 35a (Primeira Edição em 1976).
Editora: Casa Lygia Bojunga (Rio de Janeiro).


Referências: 
WIKIPÉDIA BRASIL. Artigo Lygia Bojunga. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lygia_Bojunga> 31/10/2015; 11h18.(acesso)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O incrível mundo da leitura

Olá pra você que acredita que, com um livro, podemos sonhar alto, ir para um mundo incrível onde monstros existem, animais falam, e coisas imaginárias se tornam reais. Que sabe da importância da leitura e dos diversos benefícios que ela traz, não só pra vida acadêmica, mas pra vida, principalmente de uma criança.
Bom.. vou falar um pouquinho da experiência que tive com essa nova família que me acolheu, o "Livros Abertos: Aqui Todos Contam!". Pra começar, nas minhas primeiras contações eu fiquei bem receosa em relação aos pequenos, não sabia se iriam me receber bem ou se iriam gostar das minhas histórias. Mas não custava nada tentar, né? Além do mais, crianças são crianças, pequenos seres iluminados curiosos para descobrir o mundo. Besteira da minha parte pensar que não iria dar certo, fui calorosamente acolhida e sempre sou recebida por muitos beijos e abraços deliciosos!! Quanto amor.. fico até boba.
Ah!! Esqueci de contar que, coincidentemente, eu arranjei um emprego de monitora em um cursinho no mesmo período, no qual eu também faço mediações dialógicas. E o mais incrível é que todos ficam super empolgados e até incentivados, com sede de mais e mais histórias, não só onde eu trabalho mas na escola onde eu faço a contação também. Eu fico encantada de como realmente um bom livro, com uma intervenção saudável, consegue captar a atenção de uma criança. Elas ficam imergidas em uma outra dimensão e acabam te intrigando com a espontaneidade delas. É  uma atividade lúdica, que consiste em ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias tecidas com materiais simbólicos. São vivencias que se distinguem dos prazeres estereotipados, das ações dadas ou prontas, tendo em vista que expressam a singularidade dos indivíduos que as experimentam.
O mais legal é que, com as histórias que vou contando, as crianças vão me relatando alguns acontecimentos da vida delas, comparando com os personagens principais dos livros ou  compartilhando sentimentos que elas tiveram com a narrativa. E esses são alguns dos motivos que me incentivam a querer fazer parte, cada vez mais, dessa família.
Finalizo então contando um pouco da minha experiência e dos frutos que uma simples contação de histórias pode gerar. Espero que tenham gostado e até a próxima aventura!


Com carinho, Jessica Tsai

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ler é uma viagem (?)

É costume de alguns professores afirmarem, na faculdade, que aprendemos errado no decorrer da vida, que o certo é assim, assado. Aluna da matéria Introdução à Literatura, ouvi que aquela história de que “ler um livro é uma viagem”, é pura balela, com a justificativa de que, na literatura, olhamos para nós mesmos, sendo ela uma imagem nossa, além de trazer reflexões e questões acerca do mundo.


Não discordo da justificativa, que, na minha opinião, pode ser verdade em vários momentos, mas tenho que defender algo que alguns mediadores e amantes das histórias sentem: a viagem que é ler um livro.


Ao sentar e abrir um livro, consigo me sentir na floresta desbravando caminhos obscuros, no apartamento pequeno escondida de quem não me quer por perto, na juventude dos que aproveitam a vida, na história de amor dos que se entregam, no campo de concentração dos que foram injustiçados, no meio do lixão dos que trabalham duro pra ter um canto e o que comer, nas aventuras boêmias dos doce 20 e poucos anos – ou mais, por que não? –, nas façanhas de um mundo imaginário onde se comemora o desaniversário, na infância sofrida ou divertida de um personagem curioso, no cotidiano do interior do país ou em um contexto completamente diferente do que conheço ou sou acostumada.



Ao sentar e abrir um livro com as crianças, não é nada diferente. Sinto-me na mesma fazenda, junto do porquinho procurando o lobo escondido em todos os lugares. Sinto-me na viagem pra casa da vó, na rua apertando a campainha e correndo, colecionando aventuras. Sinto-me debaixo da árvore aproveitando a sua sombra, no meio da mata ouvindo a conversa dos animais, no planeta pequenino de um menino menor ainda, na escola com a professora Maluquinha, no dilema de como pegar uma estrela – do céu, do mar? –, na cabeça das crianças imaginando, afinal, para que serve um livro...


A leitura mexe com nossa sensibilidade, e o livro se releva a partir da experiência do leitor com o que se lê, sendo então algo particular de cada um. Pra mim, ler é sim uma aventura, é sim uma viagem, e se essa é uma visão muito boba do que um livro pode ser, não me importo de continuar - também – com ela.



Raylane

segunda-feira, 29 de junho de 2015

E se objetos inanimados pudessem falar? Conversando com minha bicicleta


Desde de criança essa pergunta me assombra. E se nossos objetos pudessem falar? O que eles diriam?!

Eis que foi com surpresa que me vi em um extenso diálogo com minha bicicleta hoje. Parece loucura, mas acreditem, ela, dona Olívia, disse e desdisse hoje tudo que ela sempre quis. Antes de dizer o teor da nossa conversa, eu devo dizer algumas coisas importantes.

Primeiro é que Olívia é muito diferente de mim, ela tem a pele escura e os cabelos claros, eu tenho a pele clara e os cabelos escuros; ela é magrelinha e elegante; eu sou eu (isso basta para os entendedores). Nossa relação é moderna, ela me carrega nos dias de seca para a UnB e nos dias de chuva e férias fica com seus parentes no bicicletário.

Bem, a seca começou, tirei Olívia do pó e enchi seus pneus. Passeamos um bocado nessas duas semanas, indo e voltando para a UnB. Hoje, ao pegá-la, sua corrente estava fora da engrenagem! =O Obra da minha mãe que usou Olívia para ir ao eixão e voltou reclamando do seu banco duro.

Coloquei a corrente na engrenagem e vi se ela estava apta para o caminho de sempre. Até então era um dia normal, e Olívia continuava sem palavras (como sempre). Ao chegar na UnB prendi Olívia junto a escada, isso eram 8h da manhã. Vocês não imaginam o tamanho da minha surpresa quando achei ela soltinha, soltinha, com o cadeado quase caindo para o subsolo, era próximo das 11h30. Ela deve ter passado horas desprotegida! Que lástima! Voltei a prendê-la e segui para meus compromissos, com medo de não encontrá-la na volta.

Fonte da imagem: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/d0/8e/03/d08e03ebd2530fc2b93ab1c69c78c649.jpg

Mas encontrei, contudo Olívia estava num mal humor do cão. E ela ladrou para mim:
"Você não me valoriza!"e "Nada de me peladar hoje!".
Eu fiquei sem entender, mas ela desatou a falar que hoje não era um bom dia para ser pedalada e que ela não estava gostando de mim naquele momento. Ora, não sei se você já passou por isso, de uma bicicleta falar com você, mas eu aconselho a concordar com o que ela sugere e tocar a vida. Assim, eu falei que a levaria para casa, que não subiria ela e que andaríamos lado a lado.
"Eu quero isso mesmo, e nada de se apoiar como um peso morto em mim!". Ela reclamou.
E assim nós fomos, ladeira acima, lado a lado. Eu mostrei para ela que a textura a grama verde é diferente da grama seca, mostrei como fazemos para atravessar a faixa de pedestres de modo seguro e a andar sem se arrastar nas paredes (pois além de machucar, nos suja). Ela era uma companheira exigente, queria seguir pela calçada, queria usar as rampas e claro queria um caminho novo (e não o caminho de sempre).
Às vezes, quando me distraia, eu deixava meu peso sobre ela e  eu logo era despertada por um grito "Não se apoie em mim!". Foi mal, foi mal, Olívia! Ela chutou meu joelho com seu pedal em retaliação.

Foi muito díficil convencer Olívia a me perdoar, precisei utilizar de toda a minha lábia para convencê-la que sou uma boa dona.
Ela ganhou confiança em mim de novo, e eu não a deixei na mão em nenhum momento...
Pelo menos até chegar ao bicicletário, em que encontrei um vizinho (que surpresa!). E de repente, o momento de exclusividade e intimidade entre mim e Olívia se evaparou. Sem querer deixei ela cair no chão, mas antes bati nela com a porta do bicicletário. Céus!

"Desculpa, Olívia!" Eu disse, morrendo de vergonha de mim (pelo vizinho) e sentindo o coração partido por deixá-la no bicicletário sem me despedir de modo cortês.

Amanhã, ela terá todas as oportunidades de me derrubar, e com direito. Melhor eu já ir preparando um pedido de desculpas.

Fonte da imagem: http://happyciclistas.cl/wp-content/uploads/2014/04/570-bici-peces.jpg

O que sua bicicleta diria, se pudesse falar? E seu celular pudesse conversar por alguns minutos com você? Te chamaria de preguiçoso por adiar o despertador? Suas chaves te chamariam a atenção por você jogá-las na bolsa e depois reclamar que elas arranharam tudo ali? Seu caderno o elogiaria pela organização?


Escrito por: Júlia, a menina que conduz Olívia.

Uma curiosidade, eu sempre me referi a ela como Hermes, mas hoje ela me corrigiu, dizendo que seu nome era Olívia, vai entender.


domingo, 4 de maio de 2014

Como não acreditar?
Estava eu em meio as minhas leituras de livros do best-seller, que sempre adorei e receio adorar até o fim, bom, estava eu lendo minhas coleções intermináveis de livros de vampiros, anjos, demônios, mais vampiros e mais anjos... Até que em certo momento comecei a pensar se toda aquela imaginação na verdade não poderia ser real, mas claro que todo adulto de respeito, mesmo aqueles que ainda gostam de livros infanto-juvenis, chega à conclusão que isso é apenas confusão mental, ou estresse do dia-a-dia como os adultos adoram falar.
Enfim, em meio a tantos pensamentos fui me preparar para mais uma contação, que essa semana foi regada a “Estela, fada da Floresta” com ursos, coelhos e porco-espinho.  Comecei a ler, ainda em casa.
Comecei...
Estela! Chamou Marcos. – Estela! Onde você está?
Aqui – sussurrou Estela.
Onde? – perguntou Marcos. – não posso ver você!
Isso é porque estou praticando para ficar invisível!
Bom, após ler isso pensei, será que as crianças vão gostar dessa história?  É tão fantasiosa.
Continuei...
Agora estou vendo você! – exclamou Marcos.  Como você fez isso?
Pensei em coisas invisíveis – respondeu Estela , como o vento ou a música...
Após terminar o livro disse para mim mesma que era sim uma boa escolha, embora fosse fantasiosa.
Fui...
Ao começar a ler, as crianças começaram a contar sobre as fadas que já tinham visto, fecharam os olhos e ficaram invisíveis, contaram histórias com ursos, com arco-íris, fada do dente, tartarugas gigantes...
Ao terminar a contação, que foi bem legal, voltei para a casa pensando em tudo que tinha acontecido.
Fiquei sorrindo me lembrando de todas as crianças contando sobre coisas que não existem e me lembrei dos meus amados livros e da minha arte.
Gente, logo eu, artista de formação e coração, defensora da importância da imaginação, leio livros de coisas que não existem, questionando crianças sobre o que é real ou não?!
Onde ficou minha imaginação dessa vez?
Gente, como não acreditar em vampiros, anjos e fadas se nas histórias eles são tão reais?
Como e por que não acreditar se eles são tão divertidos e legais?
Desse dia em diante os livros ficaram ainda mais doces.
Viva a imaginação e a fantasia e viva as crianças que ainda não perderam essa doce capacidade!!!  

Voltei...

– Vamos procurar as fadas – explicou Estela. –E se virmos uma, poderemos fazer um pedido.

– Estou vendo uma! – exclamou Marcos.

– Onde? Onde? – Perguntou Estela.
– Tarde demais! Já sumiu – Respondeu Marcos.
– Tá bom – conformou-se Estela. – O que você pediu?
– Que eu queria ficar aqui para sempre! – Exclamou Marcos.
– Eu também – Concordou Estela.
E terminei...
Kayla Maihery.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Espiar... Pra dentro!



Na tentativa de relembrar como eu era e de entender o universo das crianças, eu levei para a leitura dialógica o livro “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado. Conta a história do Lucas, um menino que espiava... Só que para dentro. Mas o que é espiar para dentro? Ahhhh, isso daí a gente foi conversando para saber o que era.
O importante é que o Lucas tinha uma facilidade muito grande de sonhar, de imaginar. Acho eu, que na infância é onde mais sonhamos, onde tudo parece ser mais sincero, real, acessível e surpreendente.  Assim como o personagem da história, quando pequenos prestávamos muita atenção em tudo, mas tudo é também um motivo pra se distrair e com a imaginação, criar um mundo melhor com mais liberdade.
Lucas inventa um amigo imaginário, Talento ou Tamanco ou Tatá, enfrenta o mar agitado, tem uma cabana na floresta, mergulha até o fundo do mar, viaja numa nave espacial, come a maçã do sono profundo... Uma leitura muito boa, com imagens que rendem enormes conversas, com espaço para as crianças contarem suas viagens para outros mundos e falar de seus amigos imaginários.

“Não dava para espiar mais nada, para ver nada, nem na frente nem atrás. Só aquele breu profundo. Ele, de um lado. Do outro, o mundo.”

Lara Melo


domingo, 23 de dezembro de 2012

Diário do Contador: Barbara Araujo


                                                    "Tia, ela é mágica!"

Com as festas finais nós começamos a dar adeus ao ano que está acabando e estendemos os braços para outro período de 365 dias. O mês de dezembro é o mês não só das festividades, mas também das reflexões pessoais sobre o ano que está se esvaindo, e dentre uma divagação e outra consequentemente nos perguntamos: será que fiz a diferença esse ano?
Fiz essa pergunta hoje de manhã, entre um pão com manteiga e café quente, me preparando para meu último encontro com as crianças da escola em que sou mediadora de leitura pelo Projeto.
Pensei nisso em todo o caminho até meu destino e encontrei várias respostas, positivas e negativas, mas só quando me deparei de frente para o portão da escola eu percebi uma coisa e em seguida auto questionei-me: Será que fiz a diferença para essas crianças nesse ano?
O barulho e a empolgação das crianças para a festinha de encerramento da contação em minha turma abafou os meus pensamentos e os esqueci. Enquanto todos estavam em suas mesas já servidos com seus bolos e copinhos com pipoca e fui conversar com duas alunas que estavam pintadas com maquiagem rosa. “ Nossa que bonitas estão com essa maquiagem! – eu disse” , uma das alunas voltou seus olhos para mim e disse “ a maquiagem é minha tia! – e de repente com olhos arregalados e dando um sinal com a mão para que eu chegasse mais perto ela falou – Ela é mágica tia! Shhhhhhhhh é segredo, não pode contar pra ninguém ! ”
Naquele momento minhas reflexões vieram à tona como um grande clarão em minha mente e percebi que aquelas palavras eram a minha resposta. Aquela aluna me mostrou com a sua sinceridade, inocência e fé, que ela acredita no irreal, acredita que aquela maquiagem fará coisas que esse mundo não fará por ela. Ela me mostrou um dos maiores dons do ser humano, o dom da imaginação. E qual mediador de leitura não quer que a criança acredite no fantástico?
Depois dessas palavras uma crise de riso brotou em mim seguidamente de uma sensação de orgulho  por pensar que eu contribui por meio das histórias que eu contei durante o ano para que aquela criança continuasse a ser criança. Pode ter sido muito pouco mas a diferença é exatamente criada quando há mudanças, mesmo não sendo perceptíveis.
 E agora eu te pergunto leitor, será que você fez, mesmo que pouco, a diferença nesse ano? Se sim, parabéns e continue crescendo ainda mais. Se não.... Bom, o ano ainda não acabou! Pegue um pouco de determinação e vontade, junte os dois e você se surpreenderá com os resultados!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Diário do Contador por Raquel Coêlho

As conversas que tenho tido com as crianças durante as contações têm sido ótimas! Elas se mostram interessadas, todas têm algum comentário a fazer sobre a história. Sempre tem os que acabam fugindo do assunto, mas logo depois conseguimos voltar.
Contudo esse post é justamente sobre os comentários que não fogem nem um pouco da história e que, no começo, me deixaram com certa dúvida. Vou colocar um exemplo para ficar mais claro:
Historia: Rumpelstiltskin (coleção figurama)


Raquel: "Desta vez o rei levou a moça para uma sala ainda maior, e prometeu que se ela transformasse toda aquela palha em ouro, nunca mais ele pediria isso e ela seria a rainha.
Quando o homenzinho voltou, a moca não tinha mais nada para lhe dar: - Você me promete o seu primeiro filho quando for rainha?- perguntou ele."
Garotinha: "Ah! Isso aconteceu com minha mãe!!!" E depois ela foi explicando toda a história de como um rei tinha trancado a mãe dela e pedido que ela transformasse palha em ouro e do homenzinho que apareceu e fez ela prometer que daria a filha dela em troca de seu serviço... Mas a mãe falava que amava a filha e nunca poderia fazer isso.
Raquel: "Nossa! Que legal! Muito parecido com a historia..." Ou algo parecido; a verdade é que eu não sabia muito bem o que falar. Nos encontros seguintes ele fez a mesma coisa, como quando:
Historia: O Ursinho Azul – Maria Dinorah (Bem legal e as ilustrações são lindas)


A história fala sobre um garoto que vai ao circo com seu pai e no espetáculo tem um lindo urso azul. O menino fica pedindo para seu pai que lhe dê um igual, mas ele diz que ursos são ferozes e perigosos. Então eu perguntei para eles se eles concordavam com isso...
Garotinha: "Eles são sim, tia! O meu primo foi no circo e tinha um urso azul lindo, bem fofinho! E ele pediu um para meu tio, só que o urso era muito perigoso e comeu meu primo!"
E no começo o que era dúvida virou admiração, porque aqueles 20 minutos que nos encontramos na biblioteca são mágicos e o que essa garotinha faz é vivenciar toda a fantasia das historias e ajudar todos os outros a fazer o mesmo! Porque ninguém diz que e mentira, ninguém fala que isso não podia acontecer nem a interrompem. O que as outras crianças fazem? Elas se encantam com suas historias e começam a conversar sobre.Ela também me ajuda a tornar as historias mais reais, por mais surreais que sejam. Então esse post é para agradecer à contadora mirim que tem encantado as contações.
"A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro." Albert Einstein

domingo, 25 de setembro de 2011

Diário do Contador por Larissa Araújo


Li “Peter Pan” para as crianças e tive uma grande surpresa. Imaginei que por ser uma história conhecida a leitura fosse seguir um fluxo constante sem muitas alterações, foi então que percebi mais uma faceta da leitura dialógica.
Pedi para as crianças fecharem os olhos e imaginarem a “Terra do Nunca”. A princípio ficaram bastante resistentes dizendo que e estavam vendo tudo preto. Por isso resolvi fazer um pequeno comentário, disse que na minha “Terra do Nunca” existe um rio de chocolate e “voilá”: desencadeou-se uma enxurrada de idéias e sugestões incríveis, de montanha russa encantada a barcos de banana caramelada.
Cada criança percebeu que a “Terra do Nunca” não precisa ser exatamente como a que aparece no filme “Peter Pan”, cada um é capaz de elaborar uma.
Assim, vivenciamos uma experiência única e muito rica desvendando o misterioso mundo da imaginação.