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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Até logo..


Caros leitores, 
Como a Carol já mencionou, já fizemos nossa despedida com as crianças. Nesse clima de final de ano, férias, expectativas e novos planos, resolvi postar mais uma reflexão.  Acho que cai muito bem nesse momento! Espero que gostem!

Essa é a segunda vez que leio o livro “Corda Bamba”, de Lygia Bojunga. Posso dizer que minhas impressões foram bem diferentes das que tive na minha primeira leitura, quando ele me foi recomendado pela escola. Na época eu também o li por completo – afinal, eu encarava qualquer tipo de livro como parte do meu dever de casa. Nunca cheguei a odiá-los, mas não lia por iniciativa própria até próximo dos meu 12 anos. Nossa relação era pura e simplesmente profissional, rompida assim que eu cumpria a minha obrigação. “Corda Bamba,  em especial, marcou-me de uma maneira diferente dos demais livros: eu o odiei de tal forma que nem sequer meu nome consta em suas primeiras páginas. Ele nunca mais foi aberto, a não ser naquela época do colégio. 
Após relê-lo, pude perceber alguns dos motivos que me levaram a colocá-lo na minha “lista negra”. Afinal, uma das características mais marcantes e típicas de Lygia Bojunga é a construção da história por meio de metáforas, repleta de simbologias e significados que fogem do usual. Eu não poderia capturar o seu estilo de escrever e muito menos compreender o que estava por trás das linhas e do seu jogo de palavras. A história narrada de fato segue uma linha cronológica de eventos (plano horizontal), mas também há o plano vertical, em que os olhos do autor e do leitor se voltam para os conflitos internos das personagens. Esse tipo de habilidade eu não possuía, o que dificultava bastante entender o que acontecia no mundo de Maria, o interno e o externo.
A riqueza do livro tem início do título “Corda Bamba”, o que não se refere apenas a uma atividade artística circense. Viver na corda bamba significa literalmente a busca por um equilíbrio, seja ele emocional, profissional, financeiro. No caso de Maria, a metáfora se refere à tentativa de equilibrar os dois mundos por ela vividos: a casa da avó e o apartamento com o corredor de seis portas, localizado de frente para a janela de seu quarto. Morar com a avó se refere ao racional, às regras, ao presente, ao mundo projetado para ela. Atravessar a corda e ir para o apartamento – e de lá desfrutar do “outro mundo” – alude à imaginação, ao lúdico, a permitir-se, ao passado já vivido e à construção do futuro, ao mundo dela.
Para mim, andar na corda bamba tem vários significados. É uma busca constante por um equilíbrio, por algo que me cause um misto de tranqüilidade, realização. Na verdade, identifiquei-me com o processo que estava acontecendo com Maria. Agora nos meus19 anos percebi que muito do que sou hoje está relacionado com o meu passado – com o meu histórico de coisas boas e ruins. Da mesma forma como Maria desenha seu futuro na parede, vivo uma sensação de tentar sempre investir no meu futuro, tudo em busca de uma estabilidade. Isso por um lado é bom, melhor de si. O problema é focar demais no futuro e se esquecer do presente. Porque venhamos e convenhamos, é bem menos sofrido planejar, lidar com possibilidades (algo que ainda podem ser mudado), já que o incerto pode não ter a certeza de algo bom, mas pelo menos não é a concretização de algo ruim. Às vezes, é melhor olhar para o futuro do que sofrer no presente. O engraçado é que finais incertos também me inquietam, exatamente porque não posso ter requisitos para enfrentá-los.
“Corda Bamba” abre um mundo de interpretações possíveis para cada trecho que Lygia Bojunga prepara cuidadosamente para seu leitor. São inúmeras as simbologias que a autora cria de forma muito rica e única. Creio que uma das muitas reflexões que a leitura possibilita é o fato de que todos nós vivemos em uma constante corda bamba, em busca de identidade, aceitação, realização. Cada um tem uma Maria dentro de si, que passa por diversas etapas a fim de que se liberte das amarras que prendiam em um mundo que simplesmente não é o dela, ao qual ela não pertence. O difícil de ser Maria é que muitas vezes é preciso seguir sozinho, e ver que as pessoas chegam e vão embora das nossas vidas, como uma viagem de barco em alto mar
E pra você, qual é o equilíbrio da  sua corda?
Boas Férias a todos! 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Diário do Contador por Katsumi Takaki




Poxa vida..já estamos em Dezembro! Já entrando em clima de final de ano. Carol e eu já estamos nos preparando para o dia de fechamento com as crianças, inclusive fazendo uma dinâmica com o último livro que estamos lendo com eles. Mas isso é assunto para um próximo post!
Hoje falarei do livro Natureza Morta de Gonzalo Cárcamo um livro excelente, em todos os seus aspectos. A primeira coisa para que chamo a atenção é o fato de o livro ser composto apenas por figuras! Mas engana-se você que acha que ele é medíocre e “simples”.  E já digo de antemão: é praticamente impossível não se encantar com os traços do ilustrador chileno. A princípio as crianças estranharam muito o fato de o livro não ter texto. Pensaram, inclusive, que “era preciso criar” uma história. Em parte elas estão certas, mas ao final viram que há uma sequência lógica de fatos, construída por meio das ilustrações – e é por isso que devem estar ainda mais atentos a elas. Entretanto, não acredito que a mensagem teria o mesmo impacto caso Cárcamo se utilizasse de textos na estória. Neste caso, é muito melhor narrar os acontecimentos por meio de figuras do que ler de fato as palavras.

Foi a minha segunda experiência de leitura dialógica por meio de livros que tinham apenas ilustrações. Recomendo a todos! As crianças ficam ainda mais motivadas a falar e a prestar atenção, porque a estória é bem visual. Nem é preciso um esforço tremendo para fazer com que participem mais da contação, elas contribuem de forma muito espontânea e entusiástica. Cada virar de página é um arregalhar de olhos, um misto de expressões de descoberta e encantamento.
 Foi muito divertido vê-los conduzindo a contação com tanta naturalidade, de tal forma que conversamos sobre vários assuntos – relacionados à estória – à medida que eles iam compartilhando. É certo que um livro apenas com figuras requer mais do que uma boa leitura; ele é uma obra de arte, e como tal, merece profunda contemplação.


sábado, 19 de novembro de 2011

Diário do contador por Katsumi Takaki

Confesso que hoje (18/11), a contação com as crianças não foi das melhores. O livro se chama Toupi Toca, de David McPhail. Conta a história de uma toupeira que morava sozinha embaixo da terra, mas que começou  sentir um vazio dentro de si. Toupi vê um violinista pela televisão e o belo som que o instrumento produz, e resolve encomendar um violino e aprender a tocá-lo sozinho. 


A estória vai caminhando, mostrando as suas habilidades serem aprimoradas ao longo do tempo e embaixo da terra, em sua toca, Toupi começa a produzir um som tão bom quanto o do violinista da TV. Ele foi preenchendo com a arte aquele vazio que sentia .
As figuras do livro são lindas! Foi o que mais me chamou a atenção. Não mostra apenas a personagem e o seu violino, no seu mundinho. Quem está no mundo de cima, começa a sentir os efeitos da música de Toupi. Ele imaginava que seus sons alcançavam reinos distantes e acabava com a guerra entre eles, por exemplo. Mas o que ele não sabia que fato  é que essas mudanças ocorreram mesmo, e que a música pode ter esse poder.


Mas como falei, as crianças não gostaram muito. No primeiro grupo elas estavam muito agitadas, e tudo virava  motivo para dispersarem. O livro não tinha muita coisa escrita, mas as imagens são muito bonitas e complementam o texto de tal forma que sem elas a leitura seria incompleta e pobre. As crianças ficavam impacientes quando íamos para as imagens, querendo logo mudar de página. Entretanto, não via neles uma ansiedade para ver o que ia acontecer depois,era simplesmente para que o livro acabasse de uma vez. O segundo grupo já participou um pouco mais, mas não consegui captar a atenção deles por muito tempo, mesmo depois de muitas tentativas de fazer uma conexão entre o que eles falavam com aspectos da estória. É um pouco desanimador quando você escolhe um livro que não os prende, mas fazer o que..gosto é gosto!



domingo, 6 de novembro de 2011

Diário do contador por Katsumi Takaki

Na contação de hoje (04/11) levei dois livros para as crianças escolherem qual iríamos ler. Nós, do Livros Abertos, fomos avisados que as crianças poderiam estar mais dispersas durante a contação ou não demonstrassem muito interesse em participar.  No final da semana passada (27/10) faleceu uma funcionária da escola, que tinha muito contato com os alunos. Então poderia ser que eles trouxessem o assunto da morte para a roda de leitura, estivessem tristes ou um sentimento de saudade. E por isso levei Contos de enganar a morte, de Ricardo Azevedo e Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, de Ruth Rocha. Em todos os grupos as crianças se interessaram pelos dois livros, em especial o que tratava da morte. A capa de Contos de enganar a morte chamou muito a atenção das crianças, por ser preto e branco e ter um esqueleto na frente – além do fato do tema do livro. Surpreendi-me com as risadinhas que surgiram quando eu mostrei a capa e o título do livro. Lemos dois contos, O homem que enxergava a morte e A quase morte de Zé Malandro.
Apesar de ser um tema um pouco evitado, as crianças gostaram muito das estórias. Em nenhum momento me pediram para parar ou expressaram algum sentimento contrário ao que estava sendo lido. Um dos muitos pontos positivos do livro é o fato de se permitir ver a morte com outros olhos, de escutar a sua versão sobre o que ela faz com as pessoas. “Já estou acostumada a ser maltratada. Em todos os lugares por onde ando as pessoas fogem de mim, falam mal de mim, me xingam, me amaldiçoam. Essa gente não entende que não faço mais do que cumprir minha obrigação. Já pensou se ninguém mais morresse no mundo? Não ia sobrar lugar para as crianças que iam nascer!”.

Creio que a leitura do livro permitiu às crianças verem a morte interagindo com suas “futuras vítimas” e não uma entidade que vem e leva um ente querido embora. Além disso, o tema é tratado de forma mais lúdica, em que as personagens enganam a morte diversas vezes e de diversas formas. Outro diferencial é a fala de uma das personagens quando a morte se oferece para ser a madrinha do seu filho. “O homem não pensou duas vezes: ‘Aceito. Você sempre foi justa e honesta, pois leva para o cemitério todas as pessoas, sejam elas ricas ou pobres.’” Houve um momento em que discutimos sobre a morte ser boa ou má. Ouvi um "Ai, tia, é claro que ela é má. Ela tira você de perto de quem você gosta, te leva embora". Acredito que muitas vezes os adultos projetam esse medo nas crianças porque a morte é uma incógnita, um mistério para muitos. E não saber o que acontece depois é algo inquietante, muito inquietante.

domingo, 16 de outubro de 2011

Reflexão sobre a infância

Por Katsumi Takaki
O desaparecimento da infância, de Neil Postman, caminha com o leitor por vários cenários e datas – da Grécia Antiga aos dias atuais – mostrando como a noção de infância foi e é retratada. O fato é que esse tem sido um tema muito discutido e estudado, e nunca se mostra arcaico, desatualizado. É importante ressaltar que Postman não aponta “culpados absolutos” e únicos do desaparecimento da infância, além de não oferecer soluções para o problema abordado. O autor mostra possíveis causas e evidências de que a infância está em vias de desaparecer, mas em momento algum cria uma nova receita a ser seguida para que isso não ocorra.
Na primeira parte do livro, Postman se atém à Invenção da Infância, partindo dos gregos e indo até o final do século XIX. Na Grécia, a infância não era considerada uma etapa especial, e por isso se prestava pouca atenção às crianças. Isso se reflete nas palavras que se utilizava para designar uma criança ou um jovem: pode-se dizer que elas são ambíguas, usadas para se referir a qualquer um que esteja entre a infância e a velhice. Entretanto, a educação era extremamente valorizada entre eles – apesar de a noção de escola tida pelos gregos ser diferente da que se tem nos dias atuais. O fato é que a infância não foi inventada na Grécia, mas essa cultura nos possibilitou um presságio do que ela viria a ser quando os romanos a criassem.
Os romanos, por sua vez, tiveram um olhar um pouco diferente em relação à infância. Foi quando se estabeleceu uma conexão entre o crescimento da criança e a noção de vergonha; momento esse em que os romanos acharam necessário proteger a criança, por exemplo, dos segredos do mundo dos adultos. Tais ideias viriam a se perder na Idade Média juntamente com o conceito de infância, em que a criança – aos sete anos de idade – passava a ser um adulto por já conseguir ler, ter acesso a esse conteúdo. Esse fato é muito importante, pois um mundo novo de possibilidades é aberto por meio da leitura.
Segundo Postman, o início do desaparecimento da infância ocorreu com o advento do telégrafo, em que parte do mundo dos adultos – antes segregado – ficou disponível em apenas um clique. Como o próprio autor diz “o telégrafo iniciou o processo de tornar a informação incontrolável”. Assim, as crianças passaram a ter acesso a um tipo especial de informação, antes apenas acessível aos adultos.  Essa tendência se consolidou com o surgimento da televisão e a democratização ao seu acesso: “a hierarquia da informação desmorona” (Postman, 2005, p. 92).
É inegável o fato de a televisão ser um dos meios de comunicação mais utilizados pela população – não apenas como fonte de notícia, como também de entretenimento. Postman não contrapõe a essa verdade. O problema em relação à “telinha” são os excessos cometidos pelos seus usuários, que frequentemente a elegem como melhor forma de diversão – seja em família, seja sozinho. Os anos que se decorrem entre o final do século XX até os dias atuais, são marcados por uma infância em companhia fiel da televisão. A impressão que se tem é que, em muitos lares, os pais passaram a ter papel secundário na educação, no lazer e na formação de seus filhos. A televisão eliminou a exclusividade do conteúdo do mundo dos adultos – o que rompe o limite entre a infância e a idade adulta, suas principais diferenças que a caracterizam como sendo uma ou outra.
Essa revelação rápida e igualitária também surge com a internet. As crianças são constantemente sobrecarregadas com o excesso de informação vindo dos meios de comunicação e de outros eletrônicos (vídeo-games; bonecos de ação; bonecas que falam, andam). O excesso de estímulos visuais e sonoros não é de todo acompanhado por um progresso no desenvolvimento infantil. Isso pode ser visto no contexto da leitura dialógica, em que a criança é convidada todo momento a pensar sobre a estória. Certa vez durante a leitura de Peter Pan, um contador pediu para que as crianças fechassem os olhos e imaginassem a sua própria Terra do Nunca, o lar da personagem. Quando perguntadas sobre o que estavam vendo, muitas verbalizaram um “Não sei, tia! Tá tudo escuro!”.
Os recursos disponíveis para uma “infância feliz” são bem mais do que antigamente. Entretanto, a impressão que fica é a de que as crianças estão sendo cada vez mais modeladas, tendo o padrão de comportamento dito por uma “indústria infantil”. Não há espaço para que possam criar, imaginar, serem elas mesmas – serem autênticas.  As portas do mundo estão abertas para o público infantil. Fato. Com a condição de estarem devidamente vestidos segundo a moda; não correrem, rirem ou falarem alto em seus corredores; sentarem corretamente diante da mesa; não sujarem a roupa nova que a mãe comprou; não passarem o tempo “brincando”, porque é preciso amadurecer logo; lidar com uma rotina cheia de atividades, que se dividem entre a escola/balé/inglês/natação/espanhol/ violino/aula particular/esgrima; acostumar-se a ter os pais muito ausentes, porque afinal eles querem te dar uma vida confortável. Bom, é isso crianças! Sejam bem- vindas, mas não se esqueçam de limpar os pés antes de entrarem.  Seus pais só chegam mais tarde. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Desvendando "O Fantástico Mistério de Feiurinha" , de Pedro Bandeira

Por Katsumi Takaki
O fantástico mistério de Feiurinha de Pedro Bandeira é o típico livro que vai além do “e viveram felizes para sempre” recorrente nos finais dos contos de fadas. O autor explora essa máxima, em que geralmente a heroína se casa com o príncipe e eles são felizes para sempre. E pronto. A estória não continua, a criatividade fica por conta do leitor depois de terminar o conto. “Mas o que significa ‘viver felizes para sempre’?” pergunta Pedro Bandeira. O que chamou a minha atenção na primeira vez em que li este livro (na minha longínqua 5ª série) foi a possibilidade de acabar com esse ponto final dos contos, de participar mais um pouco da estória das princesas que me fizeram companhia por tanto tempo. Como diria o autor “É preciso saber o que acontece depois do fim”.
Outro ponto interessante do livro é que ele não é centrado na estória de uma heroína em especial. Trata-se da vida de todas elas sem diminuir ou aumentar a credibilidade de nenhuma – as desavenças ocasionalmente ocorrem entre as princesas, mas o autor não toma partido na causa. O fantástico mistério de Feiurinha se passa 25 anos após o esperado “felizes para sempre”, em que, durante uma visita de sua amiga solteirona Chapéuzinho Vermelho, Branca de Neve tem a notícia do estranho desaparecimento de Feiurinha. Nesse momento, todas as heroínas – com exceção de Chapéuzinho Vermelho – estão devidamente casadas, prestes a completar bodas de prata e esperando um herdeiro. As heroínas se preocupam com o paradeiro dela, mas também com a possibilidade do seu“felizes para sempre” estar ameaçado.
É divertido ver uma postura mais ativa das personagens neste livro, sem esperar pela vinda do príncipe encantado que as resgatará de todo o mal, selando a união com um beijo do amor verdadeiro. O autor inclusive chega a “ridicularizar” e “diminuir” o papel do príncipe na estória. O máximo que se sabe dos Príncipes Encantados é quando as princesas mencionam no diálogo umas com as outras. Quando Chapéuzinho Vermelho propõe chamá-los para ajudar na busca por Feiurinha, a própria Branca de neve diz: “Os Príncipes não adianta chamar. Estão todos gordos e passam a vida caçando. Além disso, príncipe de história de fada não serve pra nada. A gente tem de se virar sozinha a história inteira, passar por mil perigos, enquanto eles só aparecem no final para o casamento”. Creio que seja por isso que, no geral, os príncipes dos contos não têm nome próprio. Eles são apenas Príncipes Encantados, não há uma individualidade. Uma exceção é o Príncipe Felipe, o par romântico da Bela Adormecida. Mas o fato de ele ter um nome se deve – uma inferência minha – a uma participação mais ativa dele na estória. Além de não aparecer apenas em pequenos trechos (no início e no fim), também se sabe um pouco mais sobre a família do Príncipe Felipe, que inclusive participa bastante da estória – levando-se em consideração os outros contos.
 Quando Pedro Bandeira é convidado – para não dizer intimado – a ajudar a solucionar o mistério do desaparecimento de Feiurinha, aparece a figura de Caio, o Lacaio de Branca de Neve. Acredito que essa falta de individualidade dos príncipes também se estende a ele em alguns pontos, a começar pelo nome – que me perdoe o autor se eu estiver me precipitando. Parece que o nome é escolhido de acordo com a “função”, “participação” do personagem masculino na estória: Príncipe Encantado X príncipe e Caio X Lacaio.
Pedro Bandeira não conhece a estória de Feiurinha e o mesmo ocorre com seus amigos escritores. O mistério do desaparecimento da heroína parece não ter fim. É aí que está mais um diferencial do livro. Jerusa, a empregada do autor, é a única que conhece esse conto e que pode salvá-lo do esquecimento. Sua avó costumava contar estórias para ela quando criança – mais um fato que corrobora a importância da tradição oral para a literatura. Jerusa é a heroína do livro de Pedro Bandeira porque sem ela, não haveria o que ser narrado. É por meio de sua contação que o autor fica sabendo como é a estória de Feiurinha, para depois escrevê-la e permitir que os leitores tenham acesso a ela.
Durante a contação em roda que Jerusa faz com as princesas e com o autor, é possível fazer algumas relações com a leitura dialógica, a chamada leitura compartilhada. Pode-se fazer uma analogia entre as princesas sentadas em roda no chão e as crianças. Há aí uma inversão de papéis, em que as heroínas –supostamente adultas – se colocam numa postura mais infantil diante da contação de Jerusa. A todo momento elas fazem comentários sobre o que está acontecendo na estória, algumas vezes relacionado a sua própria estória, algo “tipicamente” de crianças – quando se colocam no lugar das personagens e fazem conexões com eventos do dia-a-dia.
Outro ponto interessante é a relação mais próxima, o contato mais direto entre Feiurinha e seu príncipe. Seus encontros não são ocasionais ou raros, a se intensificando apenas perto do final da estória. Eles passam anos juntos em companhia um do outro, sendo ele o melhor amigo dela e vice-versa – quando ele estava enfeitiçado, em formato de bode. Além disso, é a beleza de Feiurinha quem o liberta da maldição. Há na verdade uma espécie de “troca de favores” entre eles, já que ele deixa de ser bode por causa da beleza dela e ele – em contrapartida – a liberta das garras das três bruxas, também quebrando um feitiço que elas haviam colocado em sua amada.

O fantástico mistério de Feiurinha é um excelente exemplo de que os contos de fadas simplesmente não têm fim, não acabam no “e viverem felizes para sempre”. Eles podem e são contados e recontados ao longo dos tempos para um público que não precisa ser, necessariamente, o infantil. Após a leitura do livro, uma reflexão pode ser proposta: no mundo de hoje qual é o lugar das estórias? Serão elas esquecidas como a de Feiuriunha?Ainda haverá as “antigas contadoras de história”, como se refere Pedro Bandeira ?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Diário do contador por Katsumi Takaki


           Nessa sexta-feira, Carol e eu fizemos uma atividade diferente com as crianças. Nos meus grupos dei uma folha pra cada um e pedi para que desenhassem uma estória, que depois poderia ser lida ao final se a criança quisesse. Foi a primeira vez que fiz uma proposta de desenhar uma estória e posso dizer que elas gostaram muito da ideia! 
          Juntei-me às crianças e também fiz meu próprio desenho - coisa que há anos eu não fazia. Os desenhos foram muito variados, tiveram estórias criadas por elas mesmas, readaptações da original  e reproduções fidedignas. Alguns meninos desenharam o Frankenstein, personagem do livro que compatilhamos na semana anterior. Inclusive, pediram-me o livro para "desenhar direitinho". Falei que cada um podia criar a sua própria versão do Frankenstein, mas me disseram que o desenho do livro seria mais legal do que o deles. Foi meio triste ouvir isso, ainda mais com as constantes falas "ai, tia, meu desenho tá horrível", "eu não sei desenhar bonito" e "minha estória tá ridícula". Notei que esse medo do "feio" e do "errado" também apareceu quando eles viram o meu desenho. Ele não tinha nada demais nem podia ser considerado mais bonito do que o deles, mas pra eles era o mais legal do grupo -tanto que uma das meninas começou a imitar o meu desenho. 
Apesar de tudo isso, também houve aspectos legais. Uma menina desenhou a estória da Chapéuzinho Vermelho. O detalhe foi que ela sabia o conto todo - de cor e salteado - dando entonações diferentes na hora das falas das personagens. A sua versão possuía algumas diferenças em relação a original, as quais eu ainda não tinha ouvido. Na estória dela, a vovózinha se casa com o caçador e todos vivem felizes para sempre! 

        
       Outro aspecto legal dessa atividade foi que outra menina criava a estória enquanto desenhava. Ela já tinha desenhado o essencial, mas ia acrescentando outros detalhes aos poucos, enquanto nos contava a estória. Foi divertido ver as crianças acompanhando e comentando o que ela estava acrescentando, às vezes dizendo coisas do tipo "ei, como ela pode tá no hospital se você acabou de dizer que ela tava em casa?". Aí a menina se justificava e desenhava "o que faltava" no desenho. Também tivemos a estória do "Segredo das Irmãs Amigas", contado com muita vontade e criatividade, e a dos "Corações apaixonados" que possuía não apenas com desenho, mas também a estória escrita acima dele.
Acho que a atividade de hoje fez com que as crianças se permitissem imaginar mais, ousar mais. Foi muito divertido e gratificante vê-las tão empolgadas em criar algo seu, algo que querem fazer. Como diria Odilon Moraes: "desenhar é conversa íntima".

domingo, 25 de setembro de 2011

Diário do Contador por Katsumi Takaki


Desde o dia 16 de setembro, tenho uma companheira para contar estórias e por isso Carol e eu fizemos uma espécie de dinâmica com as crianças. Assim, ela os conheceria melhor e vice-versa. Cada um se apresentou e disse que tipo de estória gostava de ouvir – inclusive a própria Carol, que levou um livro que gostava na infância e apresentou aos meninos e meninas. Logo começaram a se soltar e a contar casos do dia-a-dia.
            Na primeira semana de contação deste semestre, muitas crianças estavam me pedindo estórias de terror/aventura – enquanto que outras queriam de princesa. Então, prometi que leria Frankenstein, de Mary Shelley. Perguntei se sabiam do que se tratava o livro e aproveitei pra contar um pouco sobre a autora e de como ela a escreveu. Eles ficaram encantados pelo fato de ela ter escrito Frankenstein durante uma noite chuvosa que passou em um castelo.
Conversamos um pouco sobre isso, sobre estar em um castelo durante uma noite de tempestade e o quê fazer enquanto isso. Um começou dizendo que seria corajoso e não teria medo de coisa alguma e incrivelmente – a maioria se juntou à opinião do outro. Algumas crianças se mostraram desconfortáveis com o tema e com as figuras do livro e, por isso, não participaram muito da nossa discussão. Mas contribuíram muito com suas caretas de espanto e nojo, seus dizeres “Eca!!”, “Ai credo, TIA!”. Enquanto eu passava as páginas, elas olhavam admiradas (algumas com receio) e comentavam muito as imagens. Aos poucos, elas mesmas estavam criando a própria estória em conjunto, às vezes concordando e outras discordando da continuação do colega.
            Logo depois, Carol e eu fomos criando uma espécie de “o que é preciso para uma boa estória de terror?”. Nós duas tínhamos dois potinhos coloridos em que colocávamos os papeizinhos com as dicas das crianças. Aqui vão algumas: gritos, caveiras, morcegos, pessoa malvada, velas que acendem e apagam, relógio que bate à meia-noite, noite escura, sangue, terror, barulhos, fantasmas, aranhas, portas que abrem sozinha, armaduras, espadas, morte, tragédia, cadáveres, livros que voam, paredes que se mexem, noite apavorante, lua cheia, cicatrizes, trovão, chuva.
            Em um grupo, foi um pouco diferente. Depois de já termos todas as palavras no pote, fomos construir a estória de terror juntos. Estipulamos a sequência que seria seguida para tirar o papel do pote, cada um ia tirando um papel por vez e ia dando continuidade à estória contada de acordo com a palavra que tinha saído. As crianças se divertiram muito e estavam mais participativas do que nunca!
            Já nessa última sexta-feira (23/09), Carol e eu pegamos grupos diferentes: eu com os que queriam Frankenstein e ela com outros. As crianças do meu grupo estavam muito ansiosas para ouvir a estória, chegando ao ponto de chamar a atenção dos colegas que estavam “atrapalhando” e não deixavam prestar atenção direito. Percebi que a maioria se interessou muito pela estória, talvez por ser um livro que eles mesmos escolheram. Mas acho que a dinâmica também ajudou muito, acho que se sentiram mais “por dentro” do assunto. Espero terminar a outra metade do livro nessa semana. Logo conto como foi! Ate lá!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Diário do Contador por Katsumi Takaki


       Acabaram as contações deste semestre. Li a última parte de “A árvore que fugiu do quintal” de Álvaro Ottoni, e como algumas crianças haviam faltado na semana anterior, sugeri que as outras fossem contando a primeira parte para elas enquanto eu mostrava as ilustrações. Fluiu muito bem! A maioria participou bastante. Notei que as crianças usaram muitas palavras do livro  - como “recostar” - algumas chegaram a reproduzir trechos inteiros.
Ao longo da leitura elas se identificaram muito com a situação da árvore! Falaram de como se sentiriam caso elas mesmas tivessem que fugir do lugar a qual pertencem.
Em uma parte da história a personagem reencontra na serraria a árvore da sua infância: fica com lágrimas nos olhos e com as mãos trêmulas. Perguntei a elas o porquê disso e muitas me disseram que ele poderia estar com frio e triste por ver a árvore daquele jeito. Perguntei se poderia ser por algum outro motivo, se elas já sentiram aquela sensação em outro momento.  Foi um pouco difícil para notarem que aquilo também remetia a um sentimento de saudade, de emoção por reconhecer uma amiga especial. 
Durante o percurso sala de aula-biblioteca e o final da contação de cada grupo conversamos um pouco sobre os planos delas para as férias: se iriam viajar, visitar os parentes, brincar.
Aproveitei para perguntar se elas iriam ler alguma coisa legal durante esse período, e se brincariam de subir em árvores. A resposta de um menino surpreendeu-me! Ele é quieto, e costumava falar pouco durante as contações. De uns tempos para cá ele tem participado bastante, talvez porque esteja se sentindo mais confortável. Animado, disse que leria muitos gibis, que não gostava muito de ler livros, mas que tem uma porção de gibis em casa.
Agora, férias! As contações retornarão em agosto. Nesse meio tempo, vou aproveitar para me dedicar às minhas leituras. Fica a sugestão pra você também, caro leitor!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Diário do Contador por Katsumi Takaki

         
         Li a segunda (e última) parte do livro "A Bruxinha Curiosa" Lia Baeten para as crianças. Notei que, a cada semana, elas falam mais sobre a estória, sobre as figuras e procuram antecipar o que irá acontecer na próxima página. Incrível como eles se afeiçoam a gente e nós a eles! Como gostam de te beijar, abraçar e não se cansam de dizer: "Tia, vou ficar com saudade!". 
      Durante a leitura eles estavam mais ativos do que nunca! O livro favorecia por ter muitas figuras legais. 
        As crianças e eu trocamos de lugar algumas vezes; elas na posição de contadores e eu no lugar delas, pensando como elas. Deixei minha imaginação me conduzir da mesma forma que elas faziam. Foi uma troca muito bacana! As crianças também se sentiram mais à vontade pra falar o que quisessem e como quisessem. 
        Bom, fica a dica! Próxima contação “A árvore que fugiu do quintal", de Álvaro Ottoni. Aguardem!