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domingo, 22 de setembro de 2013

Eu, a leitura e a biblioteca

Alguns livros marcaram a minha “carreira” de leitora. Com meus seis anos eu ia semanalmente à biblioteca pegar livros emprestados e sempre escolhia os da Mary França.


    
Já com meus nove anos eu me lembro de ler muito os livros “O Bichinho da maçã” e outros do Ziraldo. Periodicamente as turmas  eram levadas para a biblioteca para ouvir alguma história contada pela tia Berê (que era muito divertida!!!) e depois pegar alguns livros emprestados. Nessa época eu também gostava muito de ler gibis. Quase todo recreio do colégio, ou mesmo quando eu estava livre no colégio no turno contrário ao das aulas,  eu ia para a biblioteca ler os gibis da Turma da Mônica sentada em um dos pufes que tinha lá. 




Lá pela minha 5ª série (6º ano), todos da minha série estavam lendo os livros da coleção “Os Karas” do Pedro Bandeira. Assim, lá fui eu para a biblioteca atrás desse livro. Só que tudo era um mundo novo! A biblioteca agora era outra!! Agora era a biblioteca dos “grandes”, a outra era a “infantil”. 
Depois de ler todos os livros dessa coleção, conheci a coleção “O diário da Princesa” da Meg Cabot e aí a leitura me pegou de jeito e de vez. Comecei a ler os livros dessa coleção e outros dessa autora. E aí ao invés de pedir brinquedos ou roupa no Natal e aniversário eu pedia livros!! Foi aí que minha coleção de livros começou e hoje tenho mais de 50 livros. Livros que já li e fora os que li que eram da biblioteca ou emprestados. E sempre tive muito amor e cuidado com meus livros... e ciúmes também!


Hoje digo que a biblioteca teve uma grande influência na minha carreira de leitora. Ela sempre esteve aberta para receber os alunos, incentivando a ver os livros, pega-los emprestados e tendo um lugar aconchegante para ler. E assim acho que as bibliotecas têm que ser: com fácil acesso e incentivando às crianças a conhecerem, cuidarem e lerem os livros. Tenho uma lembrança afetiva muito com esses livros, toda vez que vejo um livro desse por aí lembro dessa época gostosa e penso: ah, a minha infância!... .Eu passava tanto tempo na biblioteca que até já conhecia bem as bibliotecárias!!! Hoje eu digo: eu fui uma rata de biblioteca!!!

Alice Rosetti M. Resende

sábado, 13 de julho de 2013

Revisitando a infância através dos livros

Com a aproximação das férias consigo ter um tempo mais livre para aproveitar as leituras que de fato me dão prazer. Acontece que nesses últimos semestres a Universidade não permitiu esses momentos de descontração de forma plena. Vinha fazendo leituras que me agradavam em filas, na hora do almoço, 30 minutos antes de dormir, ao aguardar o atendimento em uma consulta. Era o que dava para fazer.
Ontem, no entanto, pensando no que ia escrever para o blog, virei para a estante de livros aqui de casa e comecei a redescobrir as obras que tenho há muitos anos. Para meu espanto, encontrei livros que li na quinta série e que pensava não estarem mais na minha estante. Felizmente, ficaram livros que eu gosto muito e que já reli inúmeras vezes: “O grande desafio” de Pedro Bandeira, “Os ratos” de Dyonelio Machado, “Um país chamado infância” de Moacyr Scliar e “A máquina” de Adriana Falcão.
No mesmo momento em que achei essas relíquias, mil lembranças vieram à minha cabeça, assim como a memória de outros livros lidos na minha infância como “Confissões de um vira-lata” de Orígenes Lessa. Impossível descrever o espaço que a literatura ocupa e ocupou na minha vida. Acredito que fazer contação dialógica é também estar um pouco mais próxima da minha infância, embora com outro olhar e trazendo novas reflexões.
Da minha infância, só tinha guardado deliberadamente um livro chamado “Passagem para Ravena” de José Ricardo Moreira. Um dos melhores livros que li, visto que o autor mistura com mestria aspectos da Idade Média com a contemporaneidade, trazendo elementos da Música Popular Brasileira como formas de comunicação, envolvendo o leitor com romances, mitos, suspense e ação. Por tudo isso, escolhi iniciar a contação dialógica desse livro no próximo semestre. A apresentação dele para as crianças foi maravilhosa e eles gostaram muito da introdução que fiz da história. Espero que consiga fazer uma boa mediação tendo este livro como instrumento. Será um desafio, mas acredito que bastante prazeroso.
E quanto aos livros: “O grande desafio”, “Os ratos”, “Um país chamado infância” e “A máquina” pretendo dar um “destino mais nobre a eles” (http://www.leituraalimenta.com.br/doe.html)*

 *Quem não mora perto de um dos pontos de doação pode enviá-los através da CAIXA POSTAL 73007 / CEP 08341-420

Nathália Oliveira

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Desvendando "O Fantástico Mistério de Feiurinha" , de Pedro Bandeira

Por Katsumi Takaki
O fantástico mistério de Feiurinha de Pedro Bandeira é o típico livro que vai além do “e viveram felizes para sempre” recorrente nos finais dos contos de fadas. O autor explora essa máxima, em que geralmente a heroína se casa com o príncipe e eles são felizes para sempre. E pronto. A estória não continua, a criatividade fica por conta do leitor depois de terminar o conto. “Mas o que significa ‘viver felizes para sempre’?” pergunta Pedro Bandeira. O que chamou a minha atenção na primeira vez em que li este livro (na minha longínqua 5ª série) foi a possibilidade de acabar com esse ponto final dos contos, de participar mais um pouco da estória das princesas que me fizeram companhia por tanto tempo. Como diria o autor “É preciso saber o que acontece depois do fim”.
Outro ponto interessante do livro é que ele não é centrado na estória de uma heroína em especial. Trata-se da vida de todas elas sem diminuir ou aumentar a credibilidade de nenhuma – as desavenças ocasionalmente ocorrem entre as princesas, mas o autor não toma partido na causa. O fantástico mistério de Feiurinha se passa 25 anos após o esperado “felizes para sempre”, em que, durante uma visita de sua amiga solteirona Chapéuzinho Vermelho, Branca de Neve tem a notícia do estranho desaparecimento de Feiurinha. Nesse momento, todas as heroínas – com exceção de Chapéuzinho Vermelho – estão devidamente casadas, prestes a completar bodas de prata e esperando um herdeiro. As heroínas se preocupam com o paradeiro dela, mas também com a possibilidade do seu“felizes para sempre” estar ameaçado.
É divertido ver uma postura mais ativa das personagens neste livro, sem esperar pela vinda do príncipe encantado que as resgatará de todo o mal, selando a união com um beijo do amor verdadeiro. O autor inclusive chega a “ridicularizar” e “diminuir” o papel do príncipe na estória. O máximo que se sabe dos Príncipes Encantados é quando as princesas mencionam no diálogo umas com as outras. Quando Chapéuzinho Vermelho propõe chamá-los para ajudar na busca por Feiurinha, a própria Branca de neve diz: “Os Príncipes não adianta chamar. Estão todos gordos e passam a vida caçando. Além disso, príncipe de história de fada não serve pra nada. A gente tem de se virar sozinha a história inteira, passar por mil perigos, enquanto eles só aparecem no final para o casamento”. Creio que seja por isso que, no geral, os príncipes dos contos não têm nome próprio. Eles são apenas Príncipes Encantados, não há uma individualidade. Uma exceção é o Príncipe Felipe, o par romântico da Bela Adormecida. Mas o fato de ele ter um nome se deve – uma inferência minha – a uma participação mais ativa dele na estória. Além de não aparecer apenas em pequenos trechos (no início e no fim), também se sabe um pouco mais sobre a família do Príncipe Felipe, que inclusive participa bastante da estória – levando-se em consideração os outros contos.
 Quando Pedro Bandeira é convidado – para não dizer intimado – a ajudar a solucionar o mistério do desaparecimento de Feiurinha, aparece a figura de Caio, o Lacaio de Branca de Neve. Acredito que essa falta de individualidade dos príncipes também se estende a ele em alguns pontos, a começar pelo nome – que me perdoe o autor se eu estiver me precipitando. Parece que o nome é escolhido de acordo com a “função”, “participação” do personagem masculino na estória: Príncipe Encantado X príncipe e Caio X Lacaio.
Pedro Bandeira não conhece a estória de Feiurinha e o mesmo ocorre com seus amigos escritores. O mistério do desaparecimento da heroína parece não ter fim. É aí que está mais um diferencial do livro. Jerusa, a empregada do autor, é a única que conhece esse conto e que pode salvá-lo do esquecimento. Sua avó costumava contar estórias para ela quando criança – mais um fato que corrobora a importância da tradição oral para a literatura. Jerusa é a heroína do livro de Pedro Bandeira porque sem ela, não haveria o que ser narrado. É por meio de sua contação que o autor fica sabendo como é a estória de Feiurinha, para depois escrevê-la e permitir que os leitores tenham acesso a ela.
Durante a contação em roda que Jerusa faz com as princesas e com o autor, é possível fazer algumas relações com a leitura dialógica, a chamada leitura compartilhada. Pode-se fazer uma analogia entre as princesas sentadas em roda no chão e as crianças. Há aí uma inversão de papéis, em que as heroínas –supostamente adultas – se colocam numa postura mais infantil diante da contação de Jerusa. A todo momento elas fazem comentários sobre o que está acontecendo na estória, algumas vezes relacionado a sua própria estória, algo “tipicamente” de crianças – quando se colocam no lugar das personagens e fazem conexões com eventos do dia-a-dia.
Outro ponto interessante é a relação mais próxima, o contato mais direto entre Feiurinha e seu príncipe. Seus encontros não são ocasionais ou raros, a se intensificando apenas perto do final da estória. Eles passam anos juntos em companhia um do outro, sendo ele o melhor amigo dela e vice-versa – quando ele estava enfeitiçado, em formato de bode. Além disso, é a beleza de Feiurinha quem o liberta da maldição. Há na verdade uma espécie de “troca de favores” entre eles, já que ele deixa de ser bode por causa da beleza dela e ele – em contrapartida – a liberta das garras das três bruxas, também quebrando um feitiço que elas haviam colocado em sua amada.

O fantástico mistério de Feiurinha é um excelente exemplo de que os contos de fadas simplesmente não têm fim, não acabam no “e viverem felizes para sempre”. Eles podem e são contados e recontados ao longo dos tempos para um público que não precisa ser, necessariamente, o infantil. Após a leitura do livro, uma reflexão pode ser proposta: no mundo de hoje qual é o lugar das estórias? Serão elas esquecidas como a de Feiuriunha?Ainda haverá as “antigas contadoras de história”, como se refere Pedro Bandeira ?