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terça-feira, 4 de abril de 2017

Conversando sobre: Crianças e leitura


Convidamos todos a participarem conosco da palestra da queridíssima Profa. Dra. Eileen Pfeiffer Flores dia 06/04 (quinta) as 09:00 no auditório do bloco M na UCB (Universidade Católica de Brasília). Ela vai debater um pouco sobre nossas duas paixões: crianças e leitura. Não percam, a palestra é gratuita e aberta ao público!

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Revista Digital: Confira nossas novidades!

Olá, leitores!



Vocês tem acompanhando nossas postagens da revista digital? Fica o lembrete para quem está buscando por dicas de leituras e mediações!

Apresentamos a vocês na última quinzena duas obras que podem despertar discussões sobre diversidade, mudanças e imigração!
1) Selvagem de Emily Hughes: http://www.revistalivrosabertos.org/#!Selvagem-Emily-Hughes/cu6k/5741cf9b0cf2d0f13cec4af6
2) Eric de Shaun Tan: http://www.revistalivrosabertos.org/#!Eric-Shaun-Tan/cu6k/5759ae9d0cf2b2ec5182a320

Compartilhem conosco sua experiência de contação e nos deixem sugestões para as próximas postagens!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O incrível mundo da leitura

Olá pra você que acredita que, com um livro, podemos sonhar alto, ir para um mundo incrível onde monstros existem, animais falam, e coisas imaginárias se tornam reais. Que sabe da importância da leitura e dos diversos benefícios que ela traz, não só pra vida acadêmica, mas pra vida, principalmente de uma criança.
Bom.. vou falar um pouquinho da experiência que tive com essa nova família que me acolheu, o "Livros Abertos: Aqui Todos Contam!". Pra começar, nas minhas primeiras contações eu fiquei bem receosa em relação aos pequenos, não sabia se iriam me receber bem ou se iriam gostar das minhas histórias. Mas não custava nada tentar, né? Além do mais, crianças são crianças, pequenos seres iluminados curiosos para descobrir o mundo. Besteira da minha parte pensar que não iria dar certo, fui calorosamente acolhida e sempre sou recebida por muitos beijos e abraços deliciosos!! Quanto amor.. fico até boba.
Ah!! Esqueci de contar que, coincidentemente, eu arranjei um emprego de monitora em um cursinho no mesmo período, no qual eu também faço mediações dialógicas. E o mais incrível é que todos ficam super empolgados e até incentivados, com sede de mais e mais histórias, não só onde eu trabalho mas na escola onde eu faço a contação também. Eu fico encantada de como realmente um bom livro, com uma intervenção saudável, consegue captar a atenção de uma criança. Elas ficam imergidas em uma outra dimensão e acabam te intrigando com a espontaneidade delas. É  uma atividade lúdica, que consiste em ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias tecidas com materiais simbólicos. São vivencias que se distinguem dos prazeres estereotipados, das ações dadas ou prontas, tendo em vista que expressam a singularidade dos indivíduos que as experimentam.
O mais legal é que, com as histórias que vou contando, as crianças vão me relatando alguns acontecimentos da vida delas, comparando com os personagens principais dos livros ou  compartilhando sentimentos que elas tiveram com a narrativa. E esses são alguns dos motivos que me incentivam a querer fazer parte, cada vez mais, dessa família.
Finalizo então contando um pouco da minha experiência e dos frutos que uma simples contação de histórias pode gerar. Espero que tenham gostado e até a próxima aventura!


Com carinho, Jessica Tsai

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A História de Alguém

Recentemente, aqui no blog, o nosso amigo João Bosco trouxe uma reflexão que quero usar como base para a experiência que vou compartilhar com vocês. Experiência que será, sem sombra de dúvidas, o divisor de águas para o momento em que eu percebi não ser apenas parte do projeto, mas sim a expressão dele na vida dos meninos e meninas que todas as terças-feiras passam, em média, trinta minutos dialogando e vivendo as histórias que contamos juntos. Bom, em seu texto publicado no dia 26 de maio, no último parágrafo, João diz a seguinte frase: nós contamos histórias que são conectadas com vidas, vidas de pessoas que a gente pode conhecer ou não. Que são sempre reais porque a gente não sabe se a história do livro pode ser a história de alguém, mesmo que cercada de fantasia.”.
Bom, eu estou concluindo a minha graduação em Serviço Social e sempre quis levar algo do que eu estudo para as nossas contações, mas antes de fazer isso eu tentei primeiro fortalecer um vínculo de confiança com eles e conhecê-los um pouco melhor. Assim seria mais fácil pensar sobre o que poderia ser tratado em um primeiro momento, para que a mensagem passasse de forma leve e determinante, sem criar nenhum choque nas gigantescas mentes desses pequeninos. Pois bem, no período de observação percebi que falar sobre “raça” com eles com certeza seria algo interessante, visto que por algumas vezes eles comentaram de maneira aleatória sobre o caso do goleiro Aranha, que quando ainda jogava pelo time do Santos, foi vítima de racismo por parte da torcida gremista em uma partida de futebol.
Inspirada por uma apresentação da Amanda Barros sobre personagens negros na literatura brasileira, levei o livro do Caio Riter, o Pedro Noite, da editora Biruta. Eu separei uma peruca, algumas faixas coloridas, óculos, papéis com desenhos feitos a mão por mim para que eles fizessem observações e muita disposição e alegria para mais um dia de encontro. Eles chegaram embalados pelo ânimo e o alvoroço, é impressionante como o momento de compartilharmos com eles uma história é realmente apreciado. Sentamos na biblioteca e eu fiz a apresentação do livro, perguntei a eles se havia algum palpite sobre o que seria a história. Eufóricos, eles foram logo falando sobre racismo e bullying e começamos a dialogar sobre isso. Escutei as opiniões e as respostas firmes, como: “todos somos iguais” “ninguém é melhor ou pior por conta da cor”, “racismo é algo muito feio”, “eu detesto o racismo”, como sabemos, a criança não nasce racista ou com qualquer outro preconceito, em alguns casos isso acaba acontecendo por outras influências, mas que não irei abordar aqui. Enfim, ouvi-los é realmente satisfatório e ouvir coisas boas das crianças faz com que a chama de esperança de dias melhores realmente reacenda em nossos corações.
Mas o que especialmente mexeu comigo neste dia foi que em dois momentos diferentes da história, meninos diferentes, choraram. E choraram mesmo. No primeiro momento eu não sabia o que fazer, porém ao perceber que as outras crianças estavam percebendo o que estava acontecendo eu resolvi perguntar se estava tudo bem e se eu deveria continuar com a história, com a resposta afirmativa eu prossegui e esperei uma “deixa” na situação para saber como ele se sentia sobre o que estávamos conversando. Ele logo tomou a voz e disse que se sentia como Pedro, que não era por conta da sua cor, mas de outras características físicas que ele possuía. Comecei uma brincadeira que era basicamente falarmos uns para os outros como víamos o colega ao lado, com brincadeiras, mas sem agressões - afinal, durante toda a leitura falamos sobre respeitar os nossos amigos e aceitarmos as pessoas como elas são - falamos da aparência interna e externa uns dos outros. Confesso que fiquei temerosa, até porque a capacidade da sinceridade infantil, por vezes, não tem limites. Mas eles foram gentis uns com os outros, riam do que falavam, mas falaram com muito respeito e amizade, algumas vezes com esforço para não magoar, contudo, ainda assim agiram de maneira muito simples. No final, já estava na ponta da língua toda a mensagem da nossa manhã. O nosso amiguinho que estava emocionado já estava gargalhando e se divertindo muito. Com pesar, terminamos o primeiro tempo e eles foram para a sala falando sobre o Pedro Noite.
O segundo grupo chegou com mais ânimo do que o anterior e em um número um pouco maior. Fizemos a introdução ao livro, como sempre fazemos, e juntos desbravamos as intempéries de uma vida marcada pelo preconceito e a intolerância. Daí, para a minha surpresa, um dos meninos do segundo grupo, também se emociona com o tema. Resolvi utilizar a mesma abordagem anterior, tentando explorar ao máximo a aceitação e o afeto entre eles. O melhor disso é que sempre somos surpreendidos com a imaginação infantil e o quanto os estímulos podem nos trazer respostas primorosas. Enfim, por conta das particularidades dessas duas contações, não tive tempo de trabalhar com um terceiro grupo, entretanto, essa experiência me motivou para explorar o mesmo tema com as outras crianças na próxima semana, ou talvez algo que se aproxime disso, mas ainda estou preparando.

Outro detalhe desse dia, como citei acima, é que levei alguns utensílios pessoais e coloridos para a contação. Todos eles quiseram usar alguma das coisas, alguns meninos usaram a peruca loira, outros colocaram faixas na cabeça, as meninas brincaram com os óculos, em suma, todos ficaram extremamente confortáveis e em nenhum momento eu escutei algo que fosse, ao menos, semelhante a frases como: “isso eu não uso, é de mulher” ou “isso é coisa de menino”. Eles estavam entre eles, falando sobre como se sentiam e sobre o que aprovavam e desaprovavam, inventando finais para a história do Pedro Noite, sorrindo muito e com lenços na cabeça, em alguns momentos sensibilizados, mas, sobretudo, eles estavam livres para ser e assumirem quem eles eram e o quem eles viam. E isso foi algo muito profundo, muito especial. A leitura é a janela da imaginação para uma nova jornada, mesmo que ela envolva uma trilha que nos leva a nós mesmos.

Escrito por: Deliane Rodrigues
Ilustração: Filipe Alencar

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Desafios e Delícias da Mediação de Leitura

Reflexões dos participantes da Oficina Conte Comigo, ocorrida durante a Semana Universitária 2014 na Universidade de Brasília.

   
     A Oficina Conte Comigo, realizada durante a Semana Universitária da Universidade de Brasília, foi um sucesso. Participaram membros da comunidade universitária e externa que queriam saber um pouco mais sobre o projeto e debater os desafios e as delícias da mediação de leitura.


     Depois da dinâmica quebra-gelo, apresentação do projeto e experiência dos convidados com a leitura dialógica, tivemos um debate, afim de sabermos o que os participantes acharam da leitura dialógica que conheceram e que fazemos com as crianças.

     No debate, surgiram muitas questões. Colocamos aqui as que mais suscitaram discussão. Os pontos aqui refletem o que foi discutido e a variedade de opiniões que surgiram. 
     

O diálogo ao redor da obra de literatura: é possível? É importante?

     Foi dito pelos participantes que é fundamental  interagir com a criança e que, mais que isso, ela deve ser protagonista. Uma participante relatou que faz algo semelhante em sala de aula, com experimentos, e as crianças se sentem cientistas, descobrindo coisas novas.É importante incentivar, pois a curiosidade das crianças é instigada com situações – e palavras – diferentes. 
     A leitura dialógica possibilita essa conversa entre mediador e criança, e os participantes acharam que é possível sim colocar em prática, mesmo não sendo fácil.
     Uma participante faz Pedagogia, e o que ela pode observar na escola onde trabalha é que muitas vezes a leitura é colocada como uma obrigação, o que desmotiva grande parte das crianças.
     Quando esse diálogo existe, damos o poder de a criança falar e exprimir o que sente, experiências que teve. Aprendem a compartilhar o que pensam, exercício que deveria ser feito diariamente com as crianças, para que desde pequenas aprendessem a se expressar com essa ajuda de diálogo tão importante.


Que dificuldades são enfrentadas pelo mediador de leitura? 


     Na dinâmica para a realização da leitura dialógica na oficina, os mediadores das histórias tiveram certo receio de contá-las. Alguns dos motivos citados foram timidez e insegurança.
     Foram também citadas dificuldades em realizar a leitura dialógica, como explicar palavras que desconheciam, realizar o exercício com livro composto somente com imagens, grande quantidade de perguntas feitas pelos que escutavam as histórias, dúvidas em quais perguntas fazer sobre a história contada.
     Mas eles chegaram a conclusões como ser legal devolver o questionamento para as crianças, fazê-las pensar; improvisar, conduzir para a criatividade dos pequenos, e ser sincero sobre o que desconhece, além de explorar bem o livro antes de realizar a contação, de maneira a se preparar para possíveis questionamentos.

O mediador deve se colocar, deve opinar? 

     A dúvida “é necessário concordar com o livro?” surgiu. Algumas respostas foram as seguintes:
1 - A fantasia pode fazer parte da contação: sinta-se livre!
2 - Não dizer somente “não é assim que acontece”. Devolver o questionamento para a criança, perguntar a opinião deles sobre os fatos do livro. 
3 - Ninguém é dono da verdade, é necessário questionar, nem sempre chegar a um consenso.  Inclusive nem sempre concordar com o autor.
4 - Cada um com uma opinião, respeitar a opinião do outro é fundamental, e ensinar isso para as crianças é essencial.
5 - Mediador não deve colocar impor suas crenças para as crianças, por isso muitas vezes é legal deixar em aberto certas dúvidas surgidas.
6 - Não se impor não significa não opinar. O mediador deve ser um modelo de leitor reflexivo e, para tanto, deve compartilhar sim suas impressões e suas interações com a obra e o que a rodeia.

Leitura é entretenimento? 

     Alguém comentou que livro não é entretenimento, é questionamento, é ação de formação, com senso crítico.
     Mas surgiram também opiniões como a leitura ser um entretenimento ativo, há o prazer de ler e se envolver com a história, mas sem ser o mero "passar o tempo", sem ler apenas por ler, porque um livro exige mais. Sentir-se parte da história, se entreter e manter uma postura ativa e crítica são coisas que podem andar juntas. 
    


O que não pode faltar ao ler com as crianças? 


- Bom humor;
- Disposição;
- Imaginação;
- Paciência;
- Alimentar as questões;
- Ter cabeça aberta;
- Escutar a opinião e respeitar o que a criança acha sem impor sua crença;
- Emoção na leitura para despertar interesse.

     Além disso, realizar a leitura com prazer é fundamental. Mediadores compartilham que ler para as crianças o que gostamos, compartilhar um momento importante, estar dedicado em algo espontâneo e sincero é mais especial que fazer da leitura um espetáculo. Então sinceridade, espontaneidade e prazer em ler fazem do nosso projeto o que ele é.
     


A equipe Livros Abertos: Aqui Todos Contam! se sentiu extremamente honrada com a presença de cada um@, e deseja que quem sentiu afinidade com o projeto não deixe de fazer parte, pois esperamos a tod@s com os braços abertos!







Texto de Raylane Marina
Revisão de Eileen Pfeiffer Flores


domingo, 23 de dezembro de 2012

Diário do Contador: Barbara Araujo


                                                    "Tia, ela é mágica!"

Com as festas finais nós começamos a dar adeus ao ano que está acabando e estendemos os braços para outro período de 365 dias. O mês de dezembro é o mês não só das festividades, mas também das reflexões pessoais sobre o ano que está se esvaindo, e dentre uma divagação e outra consequentemente nos perguntamos: será que fiz a diferença esse ano?
Fiz essa pergunta hoje de manhã, entre um pão com manteiga e café quente, me preparando para meu último encontro com as crianças da escola em que sou mediadora de leitura pelo Projeto.
Pensei nisso em todo o caminho até meu destino e encontrei várias respostas, positivas e negativas, mas só quando me deparei de frente para o portão da escola eu percebi uma coisa e em seguida auto questionei-me: Será que fiz a diferença para essas crianças nesse ano?
O barulho e a empolgação das crianças para a festinha de encerramento da contação em minha turma abafou os meus pensamentos e os esqueci. Enquanto todos estavam em suas mesas já servidos com seus bolos e copinhos com pipoca e fui conversar com duas alunas que estavam pintadas com maquiagem rosa. “ Nossa que bonitas estão com essa maquiagem! – eu disse” , uma das alunas voltou seus olhos para mim e disse “ a maquiagem é minha tia! – e de repente com olhos arregalados e dando um sinal com a mão para que eu chegasse mais perto ela falou – Ela é mágica tia! Shhhhhhhhh é segredo, não pode contar pra ninguém ! ”
Naquele momento minhas reflexões vieram à tona como um grande clarão em minha mente e percebi que aquelas palavras eram a minha resposta. Aquela aluna me mostrou com a sua sinceridade, inocência e fé, que ela acredita no irreal, acredita que aquela maquiagem fará coisas que esse mundo não fará por ela. Ela me mostrou um dos maiores dons do ser humano, o dom da imaginação. E qual mediador de leitura não quer que a criança acredite no fantástico?
Depois dessas palavras uma crise de riso brotou em mim seguidamente de uma sensação de orgulho  por pensar que eu contribui por meio das histórias que eu contei durante o ano para que aquela criança continuasse a ser criança. Pode ter sido muito pouco mas a diferença é exatamente criada quando há mudanças, mesmo não sendo perceptíveis.
 E agora eu te pergunto leitor, será que você fez, mesmo que pouco, a diferença nesse ano? Se sim, parabéns e continue crescendo ainda mais. Se não.... Bom, o ano ainda não acabou! Pegue um pouco de determinação e vontade, junte os dois e você se surpreenderá com os resultados!

terça-feira, 1 de maio de 2012

A leitura proibida





Vocês sabiam que, nas fábricas de charutos cubanos, em meados do Sec. XIX, por algum (curto) tempo foi comum que os charuteiros contratassem um dos operários para ler para eles? Os trabalhadores escolhiam juntos as leituras do dia e ouviam, na voz do “Lector”, cujo serviço pagavam do próprio bolso, as notícias e reportagens do dia. Depois se deliciavam com obras históricas, poemas, contos e romances, como as aventuras do Conde Monte Cristo, de Alexandre Dumas (um dos favoritos dos trabalhadores, que levou inclusive à homenagem do personagem na marca de charutos Monte Cristo). Mas a prática teve vida curta, pois foi logo considerada "subversiva" e terminantemente banida. Impressiona a ênfase do decreto governamental e a caracterização criminosa dessa prática de leitura coletiva:
"1. É proibido distrair os trabalhadores das fábricas de tabaco, oficinas e fábricas de todo tipo com a leitura de livros e jornais, ou com discussões estranhas ao trabalho em que estão empenhados. 2. A polícia deve exercer vigilância constante para fazer cumprir este decreto e colocar à disposição de minha autoridade os donos de fábricas, representantes ou gerentes que desobedeçam a esta ordem, de modo que possam ser julgados pela lei, segundo a gravidade do caso."[1]



Dá o que pensar...

[1] Decreto de 1866 do governo cubano. Citado em:
Manguel, A. (1999). Uma História da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras. Aproveito para recomendar a todos este belíssimo conjunto de ensaios sobre a leitura e sua(s) história(s).




quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um presente para o ano que se inicia


Hoje, gostaria de falar sobre um belo filme de Jean Becker, “Minhas Tardes com Margueritte”,  que celebra a vida, o amor e a amizade a partir do tema  da leitura em voz alta, do “dar-se a ler”,  que é, afinal, o coração de nosso projeto. O filme é sensível, poético e emocionante, sem cair na pieguice ou obviedade, enfim, uma dica para começar bem o ano. Gérard Depardieu, em atuação admirável,  representa Germain, um agricultor de bom coração e praticamente analfabeto, desde criança rotulado  de “lento” e “burro” pela mãe e por professores,  amigos e colegas, tendo por isso se afastado de tudo que tivesse a ver com livros. Germain leva uma vida simples, plantando, cuidando da mãe que a vida toda o tratou com bastante agressividade. Muitas vezes é motivo de gozação dos amigos, por seus modos um tanto brutos. No geral, pode-se dizer que Germain tem uma postura um pouco “pesada” (literal e metaforicamente) perante a vida, insistindo inclusive em pichar repetidamente seu nome na lista de “crianças falecidas” de um monumento municipal, para desespero do prefeito da pequena cidade. Tudo começa a mudar quando Germain, em sua pausa habitual para o lanche no parque, conhece Margueritte,  uma adorável senhora de 95 anos vivida pela brilhante atriz Gisèle Casadejesus. Com muito humor e doçura, os dois começam uma amizade. Margueritte, sem pretensões, começa a ler em voz alta para Germain trechos de obras que ela mesma leva ao parque para ler, como “O Estrangeiro”, de Albert Camus. Lembrei bastante de um dos “direitos do leitor” citados por Pennac quando Margueritte, atenta às primeiras reações do amigo perante sua leitura, resolve pular páginas e ‘passar logo para a ação”. Mediadora de leitura nata, Margueritte mostra-se sensível ao tempo e às emoções de Germain, seduzindo-o com muita delicadeza para os prazeres da leitura. Não é a quantidade que conta, e os dois amigos às vezes discutem longamente um único trecho do livro, às vezes uma frase, encontrando nela formas de expressar suas emoções, suas vidas e suas histórias tão diferentes e que se entrecruzam nessa maravilhosa amizade.  Em certo momento, Germain comenta que não sabe ler e Margueritte responde com uma definição perfeita da leitura dialógica, quando diz que ele é um leitor sim, e um leitor excelente, porque sabe ouvir, sentir e pensar sobre o que ouve:.  “Ler é, sobretudo, saber ouvir!”.  De certa forma, Germain, desprezado pela mãe amargurada, encontra em Margueritte uma mãe que lhe oferece a dádiva das palavras para  recontar sua história e finalmente expressar sua sensibilidade e percepção aguçada do mundo. Quando Margueritte começa a a perder a visão, é Germain quem irá ler para ela. Uma bela imagem da dádiva da leitura. Pois, como diz Jim Trelease,  o maior presente que podemos dar aos que amamos resulta ser também o mais simples: as palavras. Um feliz 2012!
                                     


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Diário do Contador por Katsumi Takaki




Poxa vida..já estamos em Dezembro! Já entrando em clima de final de ano. Carol e eu já estamos nos preparando para o dia de fechamento com as crianças, inclusive fazendo uma dinâmica com o último livro que estamos lendo com eles. Mas isso é assunto para um próximo post!
Hoje falarei do livro Natureza Morta de Gonzalo Cárcamo um livro excelente, em todos os seus aspectos. A primeira coisa para que chamo a atenção é o fato de o livro ser composto apenas por figuras! Mas engana-se você que acha que ele é medíocre e “simples”.  E já digo de antemão: é praticamente impossível não se encantar com os traços do ilustrador chileno. A princípio as crianças estranharam muito o fato de o livro não ter texto. Pensaram, inclusive, que “era preciso criar” uma história. Em parte elas estão certas, mas ao final viram que há uma sequência lógica de fatos, construída por meio das ilustrações – e é por isso que devem estar ainda mais atentos a elas. Entretanto, não acredito que a mensagem teria o mesmo impacto caso Cárcamo se utilizasse de textos na estória. Neste caso, é muito melhor narrar os acontecimentos por meio de figuras do que ler de fato as palavras.

Foi a minha segunda experiência de leitura dialógica por meio de livros que tinham apenas ilustrações. Recomendo a todos! As crianças ficam ainda mais motivadas a falar e a prestar atenção, porque a estória é bem visual. Nem é preciso um esforço tremendo para fazer com que participem mais da contação, elas contribuem de forma muito espontânea e entusiástica. Cada virar de página é um arregalhar de olhos, um misto de expressões de descoberta e encantamento.
 Foi muito divertido vê-los conduzindo a contação com tanta naturalidade, de tal forma que conversamos sobre vários assuntos – relacionados à estória – à medida que eles iam compartilhando. É certo que um livro apenas com figuras requer mais do que uma boa leitura; ele é uma obra de arte, e como tal, merece profunda contemplação.


domingo, 6 de novembro de 2011

Diário do contador por Katsumi Takaki

Na contação de hoje (04/11) levei dois livros para as crianças escolherem qual iríamos ler. Nós, do Livros Abertos, fomos avisados que as crianças poderiam estar mais dispersas durante a contação ou não demonstrassem muito interesse em participar.  No final da semana passada (27/10) faleceu uma funcionária da escola, que tinha muito contato com os alunos. Então poderia ser que eles trouxessem o assunto da morte para a roda de leitura, estivessem tristes ou um sentimento de saudade. E por isso levei Contos de enganar a morte, de Ricardo Azevedo e Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, de Ruth Rocha. Em todos os grupos as crianças se interessaram pelos dois livros, em especial o que tratava da morte. A capa de Contos de enganar a morte chamou muito a atenção das crianças, por ser preto e branco e ter um esqueleto na frente – além do fato do tema do livro. Surpreendi-me com as risadinhas que surgiram quando eu mostrei a capa e o título do livro. Lemos dois contos, O homem que enxergava a morte e A quase morte de Zé Malandro.
Apesar de ser um tema um pouco evitado, as crianças gostaram muito das estórias. Em nenhum momento me pediram para parar ou expressaram algum sentimento contrário ao que estava sendo lido. Um dos muitos pontos positivos do livro é o fato de se permitir ver a morte com outros olhos, de escutar a sua versão sobre o que ela faz com as pessoas. “Já estou acostumada a ser maltratada. Em todos os lugares por onde ando as pessoas fogem de mim, falam mal de mim, me xingam, me amaldiçoam. Essa gente não entende que não faço mais do que cumprir minha obrigação. Já pensou se ninguém mais morresse no mundo? Não ia sobrar lugar para as crianças que iam nascer!”.

Creio que a leitura do livro permitiu às crianças verem a morte interagindo com suas “futuras vítimas” e não uma entidade que vem e leva um ente querido embora. Além disso, o tema é tratado de forma mais lúdica, em que as personagens enganam a morte diversas vezes e de diversas formas. Outro diferencial é a fala de uma das personagens quando a morte se oferece para ser a madrinha do seu filho. “O homem não pensou duas vezes: ‘Aceito. Você sempre foi justa e honesta, pois leva para o cemitério todas as pessoas, sejam elas ricas ou pobres.’” Houve um momento em que discutimos sobre a morte ser boa ou má. Ouvi um "Ai, tia, é claro que ela é má. Ela tira você de perto de quem você gosta, te leva embora". Acredito que muitas vezes os adultos projetam esse medo nas crianças porque a morte é uma incógnita, um mistério para muitos. E não saber o que acontece depois é algo inquietante, muito inquietante.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Diário do contador por Ana Beatriz Novelli



         Hoje, dia 3 de novembro, decidi fazer um pacto com as crianças. Após a turbulenta sessão da semana passada, falei com a professora e ela me ajudou a separar os grupos novamente.
        Queria explicar às crianças o que tinha acontecido na contação passada, obviamente desagradável a todos. Propus a todos (assim que sentavam para a leitura do livro) um pacto: quem não quiser prestar atenção na história não é obrigado. Quem não tivesse a fim de ler podia ficar no cantinho fazendo outra coisa desde que não atrapalhasse quem quisesse ouvir as histórias. O pacto foi bem recebido e selamos com um "sim" coletivo. Assim voltei a ler  o livro "Vinda com a neve" com o primeiro grupo. Recomeçaram as reclamações e aquilo pra mim foi a gota d'água. Exclamei bem alto: "vamos todos a biblioteca! Vamos achar um livro bem legal pra lermos". E esse foi o fim do meu sonho de ler "Vinda com a neve" para as crianças. Ninguém pode dizer que não insisti!
          O primeiro grupo escolheu após uma votação um livro ritmado muito interessante chamado "A moça e a mosca", de Angela Leite, cheia de versinhos e trava-línguas. Descobri com esse livro a melhor dica de todos os tempos: leitura compartilhada! Com a ajuda de todas as crianças, cada uma lendo um versinho, conseguimos terminar o livro todo com muitas risadas. O conteúdo da história em si não oferecia muito de enriquecedor às crianças, mas os trava-línguas... Esses sim apresentavam um desafio gigantesco!
           Ainda deu tempo de ler outro livro, também de forma compartilhada, chamado de "Mamãe nunca me contou", de Babette Cole. Esse livro não possuía história - todas as frases eram compostas de perguntas como "por que alguns adultos têm cabelo nas orelhas e no nariz, mas nem um fiozinho na cabeça?" e "por que algumas mulheres preferem se apaixonar por mulheres e homens namoram outros homens?". Senti que esse livro oferece um potencial de debate fantástico, mas não conseguimos explorar todas as ideias que ele trás por falta de tempo. Vale a dica de leitura!
           O segundo grupo, também levado à biblioteca atrás do exemplar perfeito, quis ler apenas o livro de Babette Cole. Dessa vez conseguimos aprofundar um pouco mais no livro e muitas crianças trouxeram suas experiências pessoas para o debate.
     O terceiro grupo escolheu um livro diferente quando levado à biblioteca: "Murucututu, a coruja grande da noite", de Marcos Bagno. O livro é bem legal, mas o que atraiu mesmo a atenção de todos foi o nome Murucututu. Ficamos um bom tempo tentando falar várias vezes esse nome sem errar. Foi difícil. Dessa vez eu li sozinha, mas recebi a atenção de quase todos os presentes. No final também lemos o livro de Babette Cole.
         O quarto grupo não queria saber de leitura. Quando eu comentei sobre o pacto uma menina perguntou se ele já estava valendo. Quando eu disse que sim houve uma debandada geral pro lado dos fantoches e não sobrou ninguém para a contação. Não quis me deixar abater e criamos na hora uma história com dois tucanos fantoches (Gabi e Tomás) que fugiam dos caçadores e ganhavam a disputa pela liberdade.
       O quinto grupo preferiu ler Murucututu também. Eu li sozinha e nós foliamos rapidamente o livro de Babette Cole por falta de tempo.
        Percebi uma grande melhora na atenção de todos com essa nova estratégia da leitura compartilhada. Os alunos ficam ansiosos para ler sua parte e prestam mais atenção no que o colega lê. Por enquanto vou continuar utilizando essa técnica que se mostrou bem sucedida. Espero que meu relato tenha encorajado àqueles que pensam em desistir por causa do caos criado pelas crianças às vezes. Na maioria dos casos vale a pena insistir. O abraço de agradecimento após uma boa contação consegue ser melhor do que todos os estresses juntos e potencializados em um milhão. :)

Final feliz!