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sábado, 4 de outubro de 2014

Sobre se sentir um bicho estranho

Eloísa e os Bichos: 7 dicas de mediação de leitura

Para bibliotecários, educadores, psicólogos, familiares e quem mais quiser compartilhar um momento maravilhoso de leitura.


Eloísa e os bichos
texto: Jairo Buitrago
ilustrações: Rafael Yockteng
tradução: Márcia Leite

Editora: Pulo do Gato


Quem nunca se sentiu um bicho estranho?
Quem nunca se sentiu o perfeito "bicho estranho" ao conviver com um novo grupo, uma nova escola, um novo bairro, cidade ou país? Quem nunca se sentiu esquisito(a), desajeitado(a), exótico(a)? Literal e figurativamente perdido(a)?

Pense numa história que, por meio de uma sinergia perfeita entre texto e imagem, capta, sem nunca dizer isso diretamente e com grande beleza, essa experiência. Essa história é a premiada Eloisa e os Bichos. O resumo está disponível aqui, se quiser saber um pouco mais da história. Mas nós gostaríamos de lhe dar algumas dicas de mediação:


1) Curta o livro antes, sozinho(a).  Tome nota (mental ou no papel, mesmo) de suas reações. Você gostou? Do que gostou? Por que gostou? (Isso pode ser difícil dizer, mas é importante. Precisamos saber dizer por que as obras nos agradam ou não se quisermos ser bons mediadores.

2)  Todo mundo já foi um bicho estranho alguma vez em sua vida!  Ainda em sua leitura prévia, pergunte-se: que experiências minhas isso me lembra? (Algumas podem ter sido muito recentes!) Leia sobre os autores e pense também sobre as experiências deles que podem ter contribuído para sua grande sensibilidade perante o tema da imigração, da alteridade e da adaptação a mundos diferentes.

3) Observe bem as imagens e faça sua leitura. Anote o que lhe chama a atenção. Por exemplo, a mim, pessoalmente, estas foram três das coisas que me impressionaram:
      a) Compare as fotos ilustradas no início e no final. Você notou as diferenças?
      b) Quem está arrumando as fotos? Que momentos cada uma retrata? Como elas completam a história, por um lado, mas criam novas perguntas, por outro? 



As imagens não só respondem, mas também lançam novas perguntas..
      c) Há um urso caído no asfalto que aparece na primeira página... Compare com a página seguinte - o que está acontecendo? E ao final, como aparece a cena? Como isso se relaciona com o processo todo que ocorre com Eloisa e seu pai?

Isso me chamou muito a atenção e me remeteu a várias coisas, inclusive a simbologia do urso de pelúcia como objeto de transição, que nos dá segurança em momentos de separação e crescimento.


Obs. A idéia NÃO é que você leve  suas impressões prontas para expô-las durante a leitura ou impô-las crianças. A idéia é que se deter e refletir durante sua leitura prévia ajudará a responder aos questionamentos e comentários das crianças de modo muito mais rico e instigante.

4) As frases são muito curtas e enxutas e, por isso mesmo, há o risco de fazer a leitura de modo mecânico se você não se ouvir lendo antes. Treine sua leitura antes em casa, várias vezes. Ouça o fluxo, o ritmo, a entonação, a musicalidade de sua voz. 

 5) Quando for compartilhar o livro com as crianças, sente-se de modo a que todo(a)s possam ver as páginas com facilidade. Após a primeira leitura, volte com as crianças às imagens e dê a oportunidade a elas de escolherem suas cenas favoritas, explorarem as imagens e comentarem, se quiserem.
   a) Se as crianças ficarem muito presas a objetos ou aspectos isolados ("Olha a barata!", "Olha a borboleta!", encoraje-as também a fazerem uma leitura mais ampla: "O que está acontecendo aqui?" Ajude-as no processo de descrição da cena.
   b) Aprofunde e passe do plano dos fatos para o plano psicológico : "Como Eloísa parece estar se sentindo? E o pai dela?"  "Vocês já estiveram numa situação parecida/já se sentiram assim?" (não é preciso que contem, é apenas para instigá-los).

6) A obra é linda e ajuda a criança a elaborar o estranhamento, a alteridade, o novo e a separação. Mas faz isso tão bem justamente porque conta muitas coisas pelo que não diz. Durante suas leituras prévias, explore as alusões, aquilo que é deixado em aberto, aquilo que se pode ler nos diálogos que se tecem entre imagem e texto. Porém, siga a dica 7 quando for interagir com as crianças:

7) Faça perguntas amplas e abertas. Não "entregue o gabarito" (pois ele nem existe). Muitas vezes, queremos "fechar" alguma mensagem ou alguma conclusão com as crianças. Isso irá estragar completamente a leitura. Deixe as crianças se expressarem. Quando elas assim fizerem, siga o interesse delas, fazendo novas perguntas, sempre abertas, mas que as ajudem a elaborar o que estão pensando e sentindo.
Uma história que conta também (ou principalmente) por meio daquilo que fica sem dizer.


domingo, 6 de julho de 2014

10 Dicas de Leitura Dialógica: Se Você Quiser Ver uma Baleia




 

Se você quiser ver uma baleia, do que vai precisar?  Esse é o ponto inicial de uma viagem poética de delicada beleza. Como deve ser em um bom livro-álbum, ilustrações e texto dialogam para nos encantar, nesta obra de Julie Fogliano e Erin E. Stead, em uma bela tradução de Celina Portocarrero, que também é poeta.
Neste livro, muitas vezes, é no contraponto entre imagem e texto que o todo poético se forma. O não-dito se mostra, por exemplo, nas páginas mostradas a seguir, em que a recomendação explícita (“se você quiser ver uma baleia, vai ter que ignorar as rosas”) se contrapõe à imagem, onde a beleza toda-envolvente da rosa domina o garotinho e seu cão.



Oferecemos, a seguir, algumas sugestões para a leitura dialógica deste lindo álbum ilustrado:


10 DICAS DE LEITURA DIALÓGICA:

ANTES:

1) Prepare sua leitura. Leia para você mesma. Sinta a musicalidade do texto. Grave sua voz e se ouça, aprende-se muito assim!
Verifique onde, na narrativa, há pausas naturais para o diálogo. (Às vezes, não há.  Nesse caso, planeje uma leitura sem pausas, mais performática, seguida de uma segunda leitura com diálogo).
2) Aprecie as imagens. Detenha-se nelas. Anote suas reações: o que mais lhe chama a atenção? Por que? Você gostou das ilustrações? O que achou mais interessante, encantador? Como o texto é colocado, em relação às ilustrações? (Você vai ver que o texto não está sempre no mesmo lugar e nem do mesmo jeito e não serve apenas para contar a história, tendo também seu lugar de elemento gráfico dentro da ilustração). 
3) Veja se consegue descrever os objetos representados nas ilustrações e, se necessário, pesquise  (as crianças perguntam muito “O que é isso?”, e é bacana podermos aproveitar essas oportunidades de ampliação e vocabulário). Por exemplo, uma criança poderá perguntar o que é isto (você sabe?):

4) Pesquise sobre autora, ilustradora e tradutora. Você poderá falar delas com as crianças, mostrando a elas que o livro é obra de criação de pessoas de verdade e que elas também podem criar seus textos e suas ilustrações.

DURANTE A LEITURA:
5) Apresente o livro. Deixe que as crianças explorem os elementos do objeto-livro. Agora ou ao final, fale dos envolvidos na criação da obra.
Antes de abrir o livro, inicie uma conversa a partir do título e da ilustração de capa, de modo a encorajar a curiosidade e o envolvimento delas com a história que vai ser contada.
- Você já viu uma baleia?
- Se você quiser ver uma baleia, o que você acha que precisa fazer? 

6) Ao fazer a leitura, mantenha o ritmo natural da história. Incentivos à participação não devem ser feitos em qualquer lugar, pois interrompem a musicalidade do texto e o fluxo da narrativa texto-imagem. Detenha-se um pouco mais nas páginas que permitem naturalmente uma pausa (ao se preparar, você poderá planejar essas pausas).Veja, por exemplo, as páginas reproduzidas a seguir. Elas formam um todo que não deve ser interrompido, mas, depois delas, pode-se fazer uma pausa para conversar um pouco.




7) Saiba aproveitar as participações espontâneas: Quando pausar para o diálogo, siga o interesse das crianças. Elas irão apontar para certas figuras e nomeá-las ou comentá-las. A partir das participações espontâneas, "pegue o gancho". Por exemplo, veja o que acontece entre estas duas páginas:
A criança poderá perguntar: “Tia, o que aconteceu? É outro barco?” ou “São piratas?”. Devolva a pergunta para elas: "O que vocês acham?" Deixe que elas elaborem suas hipóteses e encoraje-as a se ouvirem e a trocarem opiniões.

8) Dê sua opinião também. Reaja de forma autêntica à obra e externalize o que está pensando ou sentindo, inclusive suas dúvidas. Isso é muito importante, pois oferece um modelo de leitor ativo para as crianças.
9) Trabalhe o vocabulário de maneira natural. Por exemplo, se a criança diz: ”Uma vez eu fui num negócio desses e caí na água!”, responda usando o vocabulário novo, por exemplo: “Sério? Você estava num píer igual a esse?  E como caiu?”
10) Incentive a leitura das imagens, indo além da mera representação. A imagem é poesia! Nas páginas abaixo, por exemplo, repare como a ilustradora brinca com as convenções da representação bidimensional: uma linha contínua assume funções diferentes em um lado e outroda página (o fio, onde o passarinho pousa, transforma-se na superfície da água):
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Se você quiser ver uma baleia, deixe a imaginação fluir! Boa leitura! 


(Texto de Eileen Pfeiffer Flores)

Dados da obra:
Título: Se Você Quiser Ver uma Baleia
Autora: Julie Fogliano
Ilustrações: Erin E. Stead
Tradução: Celina Portocarrero
Editora: Pequena Zahar
Ano: 2013
Veja o trailer do livro aqui

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Desenho: comunicação e liberdade

Olá, pessoal! Nesse último mês de aula de nossos queridos amiguinhos, fiz duas leituras distintas. Percebi que meus grupos apresentam interesses diferentes, sendo que o primeiro aprecia histórias de terror e de monstros, e o segundo está muito mais voltado para as imagens. No acervo do Projeto, escolhi dois livros incríveis que atenderam muito bem tais interesses. Foram eles Frankenstein, em formato de quadrinhos, e Zoom, que também trabalhamos em nossas oficinas. Ambos os grupos se envolveram de forma participativa nas leituras, empolgados para desvendar as histórias. Foi muito prazeroso para mim perceber que tipo de leitura os agradava, pois sua postura mudou: quiseram ler, ver personagens e imagens...

Propus que, ao final das leituras, produzíssemos desenhos livres. Podiam criar o que quisessem, desenhos de observação dos personagens, ou o que lhes viesse à cabeça. Houve todos os tipos de desenho, desde Frankenstein, palhaço assassino, até retrato de colegas. Mas o que me chamou mais a atenção foram as perguntas que a todo tempo faziam: "tio, posso fazer chifres?"; "tio, e cruz invertida?"; "pode ter sangue?". Então falei que sim e retruquei: "por que não?". Me responderam que a "tia" não gostava desses assuntos e que dizia ser errado. Estavam criando monstros e, para dar um aspecto dramático e assustador, precisavam usar tais elementos. Foi então que me fez pensar que ninguém estava "errado". Há assuntos que são tabus em nossa sociedade, principalmente aqueles ligados à religião.

O desenho foi uma das primeiras formas de comunicação dos seres humanos, vide os desenhos rupestres, que retratavam os animais, a si próprios e a seu meio. As crianças, em seus processos criativos, trazem ao desenho aquilo que veem em seu dia a dia, suas experiências e também o "surrealismo" da criação. O desenho é um texto! Um texto que pode ser lido, apreciado, amado ou odiado. Assim como o escritor se sente livre ao escrever seus contos, histórias e poemas, aquele que desenha deve ter sua liberdade assegurada. Liberdade de expurgar seus anjos e demônios, de retratar o filme que viu e que lhe causou grande pavor, aquele medinho que o perseguiu por dias ou mesmo um lindo e marcante dia de sua vida.

Por Sille Maciel

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Imagens são para serem lidas!

Depois de uma discussão com o grupo, algumas semanas atrás, sobre o potencial que imagens têm na construção de um livro, meu mundo tomou asas novas.

Figuras precisam ser sempre infantis? Elas são necessariamente menos importantes do que o texto escrito?

Surpreendi-me com a constatação (um tanto óbvia) de que quanto mais velhos ficamos, menos desenhos encontramos nos livros que lemos. É claro, então, que desaprendemos a ler e interpretar peças tão belas!
Desde então, passei a ver as imagens dos livros com muito mais carinho e interesse.

Resolvi ter duas experiências de contação dialógica utilizando apenas imagens.

O primeiro livro lido foi Onda, da coreana Suzy Lee, publicado pela Cosacnaify.



O segundo, Onde vivem os monstros, do americano Maurice Sendak (que nos deixou para ir voar com outros passarinhos no ano retrasado) e publicado pela HarperCollins. Eu já era apaixonado por esse livro e, depois, quando aprendi que, sim, imagens importam, e comecei a apreciar essa maravilha; esse livro passou a ser forte concorrente ao posto de meu livro favorito.
Apesar de ser um livro que contém palavras e ilustrações, eu quis contá-lo com as crianças olhando apenas para os desenhos.


Os dois pontos que percebi nessas contações foram:
     As crianças gostaram muito mais, participaram muito mais e criaram muito mais com esses livros apenas com imagens do que o faziam quando a história não tinha imagens, ou elas não eram tão importantes. (Não estou dizendo que livros que tenham palavras sejam menos valiosos ou piores para contações! Vamos valorizar todos que devem ser valorizados.)
     Nós, mediadores de contação dialógica, também participamos da contação! Sim, nós também criamos, imaginamos, lemos! Quando, em mais de um grupo, crianças pararam o que estavam falando para me perguntar "E você, tio, o que imaginou nessa parte da história?", foi um baque. BAQUE! Nossas opiniões e histórias pessoais também importam. A leitura dialógica é dialética! Quem diria, não é?

Convido você, então, a olhar. Pode começar pelo espelho. Contenha o desejo quase irrefreável de ler a palavra que fica escrita no cantinho do espelho. Olhe para você. E para o que mais está à sua volta!
Pronto, agora é só aplicar isso ao resto do mundo. Ele é feito de mais do que palavras.
É só ver.

Thomaz Offrede (Tom)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Coisas que a gente nunca esquece...


Gente, demorei um pouco a postar, porque sempre acho que as postagens precisam ser super inovadoras e legais e eu acabo não gostando das coisas que penso em postar. Mas hoje eu tive uma experiência super legal que eu gostaria de compartilhar com vocês.

Há umas 3 semanas eu levei um livro que não prendia nem um pouco a atenção das crianças, achei que seria muito legal pelas figuras, mas a forma como ela era escrita era em forma de teatro, o que me dificultou na contação e também na interpretação e engajamento das crianças. Resolvi então brincar com elas, já que todas se mostravam muito dispersas. Achei o momento de “recreação” muito válido, porque adquiri um vínculo maior com elas e as conheci em um outro momento que não seja o da contação.

Porém, a partir desse dia, toda vez que eu chego nas quartas-feiras a primeira coisa que elas perguntam é se vamos brincar. Eu tento dar uma despistada, e falo que a história que eu levei é muito melhor do que brincar e ninguém vai querer deixar de ouvi-la pra brincar. Mas acaba que no final, não sei se pela minha falta de experiência ou pela escolha errada dos livros, a maioria pede pra brincar.

Hoje, quando eu cheguei, não foi diferente. A primeira pergunta era se íamos brincar. Disse que a atividade que eu tinha levado era diferente e muito mais legal. E para o meu espanto, todas adoraram e ninguém quis brincar. Eu levei umas histórias só com figuras e depois de conta-las e instigar as crianças a contarem suas versões de cada imagem relacionada com a experiência de vida de cada uma, pedi para que todas desenhassem a capa das histórias. E o resultado foi maravilhoso, muitos pediram pra  desenhar outras coisas e eu não pude limitá-los, aliás eu odiava quando na escola era pedido pra fazer uma redação de como foram as férias e eu não podia escrever sobre outra coisa que não fosse isso. Então me senti na obrigação de não obriga-las a desenhar sobre a história. E surgiram cartinhas para mim, vários desenhos que formavam uma história ajustada à que foi contada, me desenharam, fizeram desenhos totalmente diferente das histórias e poucas, mas não menos importante, capas das histórias (o que eu realmente havia pedido).

Como diz o mediador Tom, que foi citado pela mediadora Camila, sai de lá com o “coração quentinho”! 



Lara Letícia

terça-feira, 13 de maio de 2014

Sorrisos

Bom gente, eu sou mediadora nova, entrei no projeto esse semestre porque achei linda a ideia de passar esse gosto pela leitura para crianças.
Tenho tido certas dificuldades de repensar as coisas como criança, tenho que confessar... Percebi que com o tempo e com as circunstâncias as quais somos submetidos, com o que vão nos ensinando que é tão importante (estudar, ouvir o que o professor tem a dizer, absorver informações, passar no vestibular, etc.) fui perdendo um pouco a graça. Fui perdendo criatividade, capacidade de imaginar coisas novas, de aceitar que uma imagem pode fazer várias histórias. Me alegra saber que tive oportunidade de entrar em um projeto que me permite tentar fazer essas qualidades não sumirem em outros.
Hoje fui pra mais um dia de contação, levei um livro com imagens e pedi a eles que me contassem a história. Tem dias que fico um pouco frustrada, pois ainda não sei como lidar direito com o "contar uma história de um jeito diferente" e muitas vezes não consigo prender tanto as crianças, não consigo fazê-las se divertir como eu queria. Mas hoje foi um dos dias que a gente sai satisfeito, como diz o meu amigo Tom, companheiro de contação, a gente sai "com o coração quentinho!". Ver eles contando a história, participando, brincando e voltando pra ouvir o que o colega está falando é muito gratificante e a melhor parte pra mim é ver eles se divertindo, rindo, se surpreendendo com a história e hoje eu recebi um pouquinho desses sorrisos que deixam a gente com vontade de voltar. E são por esses sorrisos que eu tenho vontade de passar um pouquinho da história, do gosto pela leitura ou qualquer outra coisa boa pra eles!

Camila Borges

terça-feira, 17 de abril de 2012

"Professora, mostra as figuras!"

Você folheia impacientemente livros ilustrados e acha que isso é coisa de criança? Muitas pessoas acham que ilustração serve apenas para acompanhar a história e ajudar a quem ainda não sabe ler. E, infelizmente, algumas ilustrações partem desse pressuposto, oferecendo apenas informação redundante, em imitações mais ou menos inspiradas no padrão Disney...Mas há muitos livros excelentes, verdadeiras obras de arte, que deixamos de enxergar de tanto sermos bombardeados pela centralidade do texto. Quando nos damos conta, aprendemos a ler textos e nos tornamos analfabetos da imagem...

A importância das ilustrações para a imaginação e a cognição infantil


Por Tabata Gerk [1]




[1] Texto produzido durante a disciplina Tópicos Especiais em Aprendizagem no Segundo Semestre de 2011 na Universidade de Brasília


O mundo de uma criança possui milhares de fantasias e imaginações. Muitas não podem ser traduzidas em palavras, mas as ilustrações podem representá-las, dar vida a elas e ajudar a criar outras tantas. Os desenhos muitas vezes conseguem traduzir pensamentos de uma forma mais complexa e ampla do que as palavras.

As imagens também têm um caráter democrático: podem ser lidas pelos que não sabem ler palavras. Esse aspecto abrange crianças que ainda não chegaram à idade de alfabetização. Nessa fase elas começam a fervilhar de interesse e curiosidade, e estão muito entretidas com toda a imaginação e fantasia que criam, o que torna as ilustrações dos livros um estímulo super efetivo para ajudá-las em novas descobertas, novos pensamentos e reflexões conceituais, e incentivando sua criatividade. Para as crianças que ainda não sabem ler as palavras, os livros não possuem só a história escrita que lhes é lida, e sim muitas histórias diferentes inventadas por eles mesmos com as ilustrações ali expostas.
Crianças adoram ilustrações! Mesmo quando aprendem a ler, a ilustração continua ganhando espaço de destaque nos livros. Elas começam a conseguir conectar as imagens com as palavras escritas, e raciocinar sobre essa relação, o que continua mantendo a importância das figuras nos livros.

Porém, crescendo mais um pouco, as exigências da escola mudam e o lugar das ilustrações começa a ser substituído por textos mais complexos e compridos, e contas de matemática – “muito importantes para o futuro, para que elas sejam bem sucedidas na vida, arranjem uma boa faculdade, um bom emprego...”.


 No começo da adolescência, as “antigas crianças” já foram tão dominadas pelas exigências da escola que muitas começam a achar ilustrações bobas, coisa de crianças menores, e até perda de tempo. Esse fato é fatalmente reforçado à medida que os adolescentes passam pelo pré-vestibular e continuam na faculdade, até a vida adulta. Tanto que hoje em dia muitos de nós temos ansiedade de olhar imagens mais demoradamente quando pegamos algum livro ilustrado; normalmente passamos rápido por elas e tentamos procurar a lógica apenas nas palavras. Viramos praticamente analfabetos em imagens depois de adultos. É constrangedor abrir algum livro que a história seja contada apenas por imagens e demorar mais do que o normal para entendê-la. Logo nós, adultos, que nos achamos muito mais sábios que as crianças, perdemos fácil para elas em quesito de leitura de imagens e de imaginação.
Isso é um triste fato de se pensar, que fomos tomados do direito de aprimorar nossas habilidades de imaginação e reflexão abstrata para levar uma enxurrada de números complexos e textos científicos no lugar. Não que eles não sejam importantes para crescermos e aprendermos mais coisas, esse é o curso mais natural da aprendizagem na lógica capitalista em que vivemos (estudar cada vez mais para conseguir empregos cada vez melhores para ganhar cada vez mais dinheiro). Agora, tirar a magia da fantasia das nossas cabeças chega a ser cruel. Como é que adultos desacreditados da fantasia, que foram ensinados que é uma perda de tempo, vão conseguir ensinar seus filhos a acreditarem nela?
O ritmo crescente em que a sociedade se encontra cria crianças cada vez mais novas tendo a agenda cheia de atividades ditas “úteis” para sua formação, como curso de línguas + esporte + reforço escolar, sem deixar um horário livre de puro ócio, para que elas possam viver sua infância do seu jeito. Estamos criando crianças cada vez mais “adultizadas”, crianças que desacreditam cada vez mais cedo em princesas, Papai Noel e outros personagens que fizeram sucesso na nossa infância, e mais ainda na de nossos pais, e ainda mais na dos nossos avós, bisavós, etc. Seus pais não tem tempo de sentar para ler um bom livro e “perder tempo” conversando sobre suas ilustrações, e a escola também não tem tempo porque está preparando os alunos cada vez mais cedo para o vestibular. Essa é a vida da maioria das crianças na nossa atualidade, que acreditam cada vez menos que possa existir tempo livre para o ócio, para apenas pensar, refletir e fantasiar, sem horário nem cobrança.

O papel das ilustrações é claro para a formação da imaginação e da cognição das crianças, mas elas estão aos poucos sendo banidas do nosso cotidiano. Foram substituídas pelas imagens nos programas de televisão e no computador, alguns podem argumentar. Mas não é a mesma coisa. Uma imagem que passa rapidamente, sem necessidade árdua de interpretação e crítica, não é igual a outra que possui elementos simbólicos que precisam ser refletidos e relacionados com o que se conta na história. Agora caímos numa pergunta mais difícil ainda: por que então a televisão e o computador são tão aclamados atualmente, e um livro ilustrado começa a ser considerado perda de tempo para crianças que já começaram a estudar? Não sei se encontraria a resposta.