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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Sobre retalhos, histórias e afeto

Minha mãe não me deu meu nome, Alice, assim, sem mais nem menos. Criou-me só, e em nosso País, as Maravilhas eram as Histórias que eu encontrava em cada canto de nosso pequeno apartamento. Mamei ouvindo cantigas misteriosas sobre um lugar chamado Roça e um Papão que rondava, mas minha mãe estava ali, bem do meu ladinho, ainda bem. Engatinhei rodeando pilhas de livros e revistas e um dia descobri que tinha força para derrubar aquelas torres cambaleantes, que se esparramavam em um fascinante leque arco-íris.

Ilustração de John Tenniel

Todas as noites, um ritual: a colcha de retalhos, que eu queria comigo, mesmo quando fazia calor. No começo era a voz. Ritmo que acalenta, música das músicas, histórias sem palavras. Ao longo dos anos, a música foi ganhando letra: bruxas, fadas, dragões, navios em viagens perigosas. Espelhos mágicos, pássaros falantes, palácios de açúcar. Macacos espertos, onças egoístas, amores impossíveis. O caminho que dá medo, a ajuda de quem menos esperamos, a coragem de continuar.

Um dia, fiz minha primeira aventura solo pela floresta densa que circundava nosso mundo. Tinha medo, claro, das bruxas e dos ogros que poderiam estar à espreita, mas também tinha a pedra mágica que minha mãe havia me dado, para o caso de eu precisar. Por isso não chorei quando, com uma mão segura pela cuidadora da creche e a outra envolvendo firmemente meu talismã, vi minha mãe se afastando e olhando para trás de vez em quando, com um sorriso encorajador que hoje não sei se era só para mim ou também para ela.

O tempo passou, da creche passei a ir à escola. Os dias passavam depressa no redemoinho de cadernos, areia, lápis de cor, as letras da cartilha, bola de meia e amarelinha. Fiz muitos amigos, mas não ouvi muitas histórias. O recreio era curto, nossas fantasias não cabiam nele, quando nosso mundo estava ficando bom, tocava o sinal e voltávamos para um deserto. Palavras sedentas nos imploravam pela água do sentido, mas só nos era permitido repetir seu nome, e elas secavam até morrer.

Minha mãe chegava para me buscar com o olhar um pouco perdido, me abraçava cansada e íamos para casa fazer a janta e preparar tudo para o dia seguinte. Eu ainda era pequena, mas ajudava em tudo que minha idade permitisse para terminarmos logo as tarefas e podermos, juntas, continuar lendo “nosso livro”. Líamos juntas um conto indígena, um mito grego ou uma lenda africana. Poemas, crônicas, um capítulo de algum romance “ainda muito difícil para você” (mas eu não me importava, achava até bom sentir que não entendia tudo, que leituras e releituras me revelariam novos segredos).

Mas nossas mil e uma noites não estavam salvando minha mãe dos monstros do dia-a-dia. Cada noite, via seu olhar mais velado, mais cansado. De um capítulo, passamos para algumas páginas, de algumas páginas a algumas linhas. Até que uma noite, minha mãe adormeceu no sofá antes de nossa sessão de histórias. Cobri-a com minha velha colcha e abracei-a com força, cantando baixinho uma de nossas cantigas. Contei-lhe uma história que começava num lugar encantado, sobre uma rainha que criava uma filha só, entrelaçando histórias em seus cabelos, dando-lhe forças para enfrentar o mundo. Um leve sorriso se desenhou em seus lábios. Murmurou algo que não entendi bem, sem acordar, mas parecendo mais tranquila. Ajeitei sua colcha, dei-lhe um beijo na testa e fui dormir. 

Para todas as mães e filhas contadoras de histórias.


Escrito por Eileen Pfeiffer

quarta-feira, 22 de março de 2017

O Acervo Indica: Os Novos Clássicos I

Livros que em breve serão clássicos no Brasil.
Fizemos uma seleção de novidades e de livros que chegaram há pouco tempo nas estantes das bibliotecas do Brasil.

1) Contos de Lugares Distantes de Shaun Tan


http://www.crimepays.com/Sunday_Afternoon_Shaun_Tan.jpg

Shaun Tan é um autor desbravador, dotado de muitos talentos. É capaz de mover grandes porções de afetos de maneira sutil, mas poderoso como o movimento tectônico.

Ele mergulha no fantástico e faz respigar e refrescar quem está ao seu redor. Exatamente como uma criança faz no verão, quando salta como uma granada na piscina da avó.

Esse livro parece ser um diário do escritor em suas viagens, uma grande colcha de retalhos com reflexões e aventuras, cada destino tem suas próprias cores e estilo. Lembra uma coleção de postais ou um scrapbook feito com carinho e pensado em cada detalhe. 


Se a curiosidade já te encontrou, leia sobre alguns dos contos fantásticos que você vai encontrar nesse livro:

Ficha técnica do livro
Contos de lugares distantes
Autor e ilustrador : Shaun Tan
Tradução: Érico Assis
Editora: Cosacnaify
Ano: 2013

2) Extraordinário de R. J. Palacios

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Não só crianças e adolescentes têm de ler, mas todos, todos mesmo! Se você é um ser humano sobre a terra, faça o favor de ler! 

É uma questão de se sensibilizar com o outro, com as diferenças, com a singularidade de cada um. A linguagem é gostosa, o livro é bem escrito. É contagiante! 

Não faltaram afeto, exclamações e superlativos para fazer a indicação desse livro, que nos instiga a ser o seu melhor para o outro. Muitos mediadores já falaram que este é um livro que vai ler para suas crianças!

P.S.: Vocês sabiam que a escritora de Extraordinário é uma brasileira?

Ficha Técnica
Título: Extraordinário
Autor: R. J. Palacios
Editora: Intrinseca


3) A história de Júlia e sua sombra de menino de 

Christian Bruel, Anne Galland e Anne Bozellec

https://static.wixstatic.com/media

Muit@s d@s mediador@s de nosso projeto se emudecem diante desta obra. Eu me vejo juntando-me ao coro do silêncio que contempla uma obra tão magnífica e sensível. Muitas histórias se encontram na história de Júlia e acredito que seja esse processo de identificação que torna esta obra tão magistral.

Levante da cadeira agora aquele que alguma vez foi impedido de brincar de algo porque era apenas para meninos; aquele foi impedido de usar uma roupa ou uma cor, porque rosa e saia são vetados para rapazes. Aquele que já foi foi calado pelos pais, aquele que já foi devastado pela dor de não atender as expectativas de familiares.

E se algum de vocês leitores, ainda está sentado, tenho certeza que você ainda vai se emocionar com as história dessa menina atormentada pela própria sombra.

Confira sem demora nossas dicas de mediação: https://www.revistalivrosabertos.org/single-post/2016/06/29/A-Hist%C3%B3ria-de-J%C3%BAlia-e-sua-Sombra-de-Menino-Christian-Bruel-Anne-Galland-e-Anne-Bozellec

Ficha Técnica
Título: A história de Júlia e sua sombra de menino
Autores: Christian Bruel e Anne Galland 
Ilustradora: Anne Bozellec
Editora: Sipcione
Ano: 2015

4) O livro de todas as coisas Guus Kuijer

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Este livro já passou por aqui em uma edição especial do Acervo Indica. Ele começa de forma metalinguística. Thomas já adulto, bate a porta do autor e fala que gostaria de contar sua história.

Como o nome sugere, trata-se de um livro que aborda todas as coisas do mundo! Como isso? Ora, em uma vida vemos todo o tipo de coisa, e isso é verdade para sobre infância de Thomas, que não foi feliz. Neste livro, a realidade e a imaginação se misturam, afinal Thomas era capaz de ver coisas que ninguém mais via. Ele também questionava o que ninguém questionava: por que o mundo dos adultos é tão confuso? Por que há tantas incoerências e desencontros entre o falar e o agir?

É impossível não se inquietar com os sonhos e os pesadelos que Thomas teve que enfrentar. A narrativa de Guus é familiar e saborosa, parece mesmo que foi feita à frente da lareira junto com Thomas. É um livro tão surpreendente e tão rico, que hoje encontrei vinte e um reais quando o abri. Hahaha!


Ficha Técnica
Título: O livro de todas as coisas
Autor: Guus Kuijer
Tradutora: Mirella Traversin Martino
Editora: WMF Martins Fontes
Ano: 2011

Já tiveram oportunidade de conhecer essas obras?
Voltaremos com outras dicas de livros semana que vem,
Nos vemos lá.
Com carinho,
Eileen, Tanize, Monique e Júlia

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O incrível mundo da leitura

Olá pra você que acredita que, com um livro, podemos sonhar alto, ir para um mundo incrível onde monstros existem, animais falam, e coisas imaginárias se tornam reais. Que sabe da importância da leitura e dos diversos benefícios que ela traz, não só pra vida acadêmica, mas pra vida, principalmente de uma criança.
Bom.. vou falar um pouquinho da experiência que tive com essa nova família que me acolheu, o "Livros Abertos: Aqui Todos Contam!". Pra começar, nas minhas primeiras contações eu fiquei bem receosa em relação aos pequenos, não sabia se iriam me receber bem ou se iriam gostar das minhas histórias. Mas não custava nada tentar, né? Além do mais, crianças são crianças, pequenos seres iluminados curiosos para descobrir o mundo. Besteira da minha parte pensar que não iria dar certo, fui calorosamente acolhida e sempre sou recebida por muitos beijos e abraços deliciosos!! Quanto amor.. fico até boba.
Ah!! Esqueci de contar que, coincidentemente, eu arranjei um emprego de monitora em um cursinho no mesmo período, no qual eu também faço mediações dialógicas. E o mais incrível é que todos ficam super empolgados e até incentivados, com sede de mais e mais histórias, não só onde eu trabalho mas na escola onde eu faço a contação também. Eu fico encantada de como realmente um bom livro, com uma intervenção saudável, consegue captar a atenção de uma criança. Elas ficam imergidas em uma outra dimensão e acabam te intrigando com a espontaneidade delas. É  uma atividade lúdica, que consiste em ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias tecidas com materiais simbólicos. São vivencias que se distinguem dos prazeres estereotipados, das ações dadas ou prontas, tendo em vista que expressam a singularidade dos indivíduos que as experimentam.
O mais legal é que, com as histórias que vou contando, as crianças vão me relatando alguns acontecimentos da vida delas, comparando com os personagens principais dos livros ou  compartilhando sentimentos que elas tiveram com a narrativa. E esses são alguns dos motivos que me incentivam a querer fazer parte, cada vez mais, dessa família.
Finalizo então contando um pouco da minha experiência e dos frutos que uma simples contação de histórias pode gerar. Espero que tenham gostado e até a próxima aventura!


Com carinho, Jessica Tsai

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ler é uma viagem (?)

É costume de alguns professores afirmarem, na faculdade, que aprendemos errado no decorrer da vida, que o certo é assim, assado. Aluna da matéria Introdução à Literatura, ouvi que aquela história de que “ler um livro é uma viagem”, é pura balela, com a justificativa de que, na literatura, olhamos para nós mesmos, sendo ela uma imagem nossa, além de trazer reflexões e questões acerca do mundo.


Não discordo da justificativa, que, na minha opinião, pode ser verdade em vários momentos, mas tenho que defender algo que alguns mediadores e amantes das histórias sentem: a viagem que é ler um livro.


Ao sentar e abrir um livro, consigo me sentir na floresta desbravando caminhos obscuros, no apartamento pequeno escondida de quem não me quer por perto, na juventude dos que aproveitam a vida, na história de amor dos que se entregam, no campo de concentração dos que foram injustiçados, no meio do lixão dos que trabalham duro pra ter um canto e o que comer, nas aventuras boêmias dos doce 20 e poucos anos – ou mais, por que não? –, nas façanhas de um mundo imaginário onde se comemora o desaniversário, na infância sofrida ou divertida de um personagem curioso, no cotidiano do interior do país ou em um contexto completamente diferente do que conheço ou sou acostumada.



Ao sentar e abrir um livro com as crianças, não é nada diferente. Sinto-me na mesma fazenda, junto do porquinho procurando o lobo escondido em todos os lugares. Sinto-me na viagem pra casa da vó, na rua apertando a campainha e correndo, colecionando aventuras. Sinto-me debaixo da árvore aproveitando a sua sombra, no meio da mata ouvindo a conversa dos animais, no planeta pequenino de um menino menor ainda, na escola com a professora Maluquinha, no dilema de como pegar uma estrela – do céu, do mar? –, na cabeça das crianças imaginando, afinal, para que serve um livro...


A leitura mexe com nossa sensibilidade, e o livro se releva a partir da experiência do leitor com o que se lê, sendo então algo particular de cada um. Pra mim, ler é sim uma aventura, é sim uma viagem, e se essa é uma visão muito boba do que um livro pode ser, não me importo de continuar - também – com ela.



Raylane

terça-feira, 15 de setembro de 2015

As grandes aventuras da minha vida

     Todos temos livros favoritos, mesmo aqueles que não gostam muito de ler (eu realmente não consigo entender essas pessoas), devem ter um xodózinho a que recorrem de vez em quando. Pois bem, eu também tenho as minhas preferências, mas é impossível classificar os livros de que mais gosto, porque, ao meu ver, seria uma grande injustiça com os outros livros. 

       Portanto, que fique bem claro que não irei fazer uma lista dos meus dez livros favoritos (são bem mais que dez). Os títulos citados neste post não passam de uma escolha aleatória puxada pela memória, que por vezes até falha. 
        Um dos livros com que eu tenho um sério caso de amor há muitos anos é a saga de Harry Potter. Li o primeiro livro quando tinha oito anos, e a partir daí, devorei todos os outros. Claro que, como leitura assídua que sou dessa história, não deixei de ficar um tanto decepcionada com a versão feita para o cinema. Na minha opinião, os personagens de HP do livro são uns, e os personagens do filme, são outros, bem diferentes. Quem gosta desta série tanto quanto eu, irá entender do que eu estou falando!
http://pizzadeontem.com.br/2013/07/liberadas-capas-de-harry-potter-jamais-vistas-antes
     Mas, cá entre nós, eu sempre tive uma queda por histórias fantásticas com criaturas estranhas e um mundo novo e desconhecido, onde tudo pode acontecer. Não é por acaso que "Alice no País das Maravilhas", "O Pequeno Príncipe", "Peter Pan", a trilogia do "Senhor dos Anéis", também estão entre os meus livros favoritos. E mais recentemente, também entrou pra esta modesta lista, a trilogia "Jogos vorazes", e "Star Dust - O mistério da estrela". 
http://desenhosdahora.com.br/peter-pan/

      Acho que o maior motivo de eu gostar tanto dessas historias é porque elas me fazem viver, nem que seja por pouco tempo, em um mundo totalmente diferente do qual vivemos. Um mundo com outras regras, com outros problemas, um mundo cheio de possibilidades. Por me fazerem conhecer lugares novos, criaturas mágicas, e por me fazerem viver aquelas aventuras singulares que cada história trás consigo. Por me fazerem interagir com dragões, bruxos, princesas, elfos, e todo o tipo de personagem que é possível se imaginar. Por isso gosto tanto destes livros.

     Mas, pensando bem, qual história, seja ela fantástica ou não, não te pega pela mão e te convida a viver uma aventura? 
     Se me perguntarem se já vivi alguma grande aventura na minha vida, a resposta será:

"Várias, claro! Você nunca esteve em Hogwarts?"


Paula Calazães. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

E se objetos inanimados pudessem falar? Conversando com minha bicicleta


Desde de criança essa pergunta me assombra. E se nossos objetos pudessem falar? O que eles diriam?!

Eis que foi com surpresa que me vi em um extenso diálogo com minha bicicleta hoje. Parece loucura, mas acreditem, ela, dona Olívia, disse e desdisse hoje tudo que ela sempre quis. Antes de dizer o teor da nossa conversa, eu devo dizer algumas coisas importantes.

Primeiro é que Olívia é muito diferente de mim, ela tem a pele escura e os cabelos claros, eu tenho a pele clara e os cabelos escuros; ela é magrelinha e elegante; eu sou eu (isso basta para os entendedores). Nossa relação é moderna, ela me carrega nos dias de seca para a UnB e nos dias de chuva e férias fica com seus parentes no bicicletário.

Bem, a seca começou, tirei Olívia do pó e enchi seus pneus. Passeamos um bocado nessas duas semanas, indo e voltando para a UnB. Hoje, ao pegá-la, sua corrente estava fora da engrenagem! =O Obra da minha mãe que usou Olívia para ir ao eixão e voltou reclamando do seu banco duro.

Coloquei a corrente na engrenagem e vi se ela estava apta para o caminho de sempre. Até então era um dia normal, e Olívia continuava sem palavras (como sempre). Ao chegar na UnB prendi Olívia junto a escada, isso eram 8h da manhã. Vocês não imaginam o tamanho da minha surpresa quando achei ela soltinha, soltinha, com o cadeado quase caindo para o subsolo, era próximo das 11h30. Ela deve ter passado horas desprotegida! Que lástima! Voltei a prendê-la e segui para meus compromissos, com medo de não encontrá-la na volta.

Fonte da imagem: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/d0/8e/03/d08e03ebd2530fc2b93ab1c69c78c649.jpg

Mas encontrei, contudo Olívia estava num mal humor do cão. E ela ladrou para mim:
"Você não me valoriza!"e "Nada de me peladar hoje!".
Eu fiquei sem entender, mas ela desatou a falar que hoje não era um bom dia para ser pedalada e que ela não estava gostando de mim naquele momento. Ora, não sei se você já passou por isso, de uma bicicleta falar com você, mas eu aconselho a concordar com o que ela sugere e tocar a vida. Assim, eu falei que a levaria para casa, que não subiria ela e que andaríamos lado a lado.
"Eu quero isso mesmo, e nada de se apoiar como um peso morto em mim!". Ela reclamou.
E assim nós fomos, ladeira acima, lado a lado. Eu mostrei para ela que a textura a grama verde é diferente da grama seca, mostrei como fazemos para atravessar a faixa de pedestres de modo seguro e a andar sem se arrastar nas paredes (pois além de machucar, nos suja). Ela era uma companheira exigente, queria seguir pela calçada, queria usar as rampas e claro queria um caminho novo (e não o caminho de sempre).
Às vezes, quando me distraia, eu deixava meu peso sobre ela e  eu logo era despertada por um grito "Não se apoie em mim!". Foi mal, foi mal, Olívia! Ela chutou meu joelho com seu pedal em retaliação.

Foi muito díficil convencer Olívia a me perdoar, precisei utilizar de toda a minha lábia para convencê-la que sou uma boa dona.
Ela ganhou confiança em mim de novo, e eu não a deixei na mão em nenhum momento...
Pelo menos até chegar ao bicicletário, em que encontrei um vizinho (que surpresa!). E de repente, o momento de exclusividade e intimidade entre mim e Olívia se evaparou. Sem querer deixei ela cair no chão, mas antes bati nela com a porta do bicicletário. Céus!

"Desculpa, Olívia!" Eu disse, morrendo de vergonha de mim (pelo vizinho) e sentindo o coração partido por deixá-la no bicicletário sem me despedir de modo cortês.

Amanhã, ela terá todas as oportunidades de me derrubar, e com direito. Melhor eu já ir preparando um pedido de desculpas.

Fonte da imagem: http://happyciclistas.cl/wp-content/uploads/2014/04/570-bici-peces.jpg

O que sua bicicleta diria, se pudesse falar? E seu celular pudesse conversar por alguns minutos com você? Te chamaria de preguiçoso por adiar o despertador? Suas chaves te chamariam a atenção por você jogá-las na bolsa e depois reclamar que elas arranharam tudo ali? Seu caderno o elogiaria pela organização?


Escrito por: Júlia, a menina que conduz Olívia.

Uma curiosidade, eu sempre me referi a ela como Hermes, mas hoje ela me corrigiu, dizendo que seu nome era Olívia, vai entender.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Dica de Leitura: Stardust: O mistério da Estrela (Neil Gaiman)

Quando Júlia me disse: “O livro é mais sombrio que o filme!” eu não acreditei.
      O filme Stardust: o mistério da Estrela estreou no cinema em 2007, eu já o havia assistido três vezes antes de ler o livro. Eu gostei do filme pela simplicidade, mas também pelo desenvolver da história, a quebra de alguns tabus e também pela boa atuação do elenco, eu o considero engraçado.           No entanto, o livro me surpreendeu, depois da leitura percebi que são obras completamente diferentes. Como todo leitor (a) se há um filme sobre o livro, é evidente que vou compará-los. E sim, há diferenças gritantes entre um e outro, especialmente o final de ambas as obras. Só para citar, adorei no filme a parte em que eles viram estrelas e tal, mas o fim do livro deixou claro que o cinema hollywoodiano não quer que seus espectadores reflitam, apenas quer entretê-los (enfim, o obvio!).
Alguns pontos sobre o livro:
     A mãe de Tristan, uma personagem central que de tão mística pareceria distante, mas Gaiman a deixa tão próxima do leitor (a) que eu adoraria ler um livro exclusivamente sobre ela (alguém que é sequestrada quando criança, transformada em pássaro e cresce em um cativeiro ambulante com uma bruxa, deve ter histórias incríveis para contar). 

O romance: um conto de fadas atípico!
O mocinho que faz uma promessa a sua amada,
buscar uma estrela cadente para seu desejo realizar
ganhar um beijo de sua amada e a um casamento fadá-la.
No entanto, pelo caminho uma surpresa acontece:
abrandou seu desejo e um sentimento pela estrela aparece.

    A jornada dos protagonistas no filme é vivenciada tão rapidamente, mas no livro se passam meses de caminhada, e podemos acompanhar passo a passo da formação dos calos até a chegada.

A parte sombria: Sangue. Se comer coração de estrela já é algo que me assusta, imagina a descrição que Gaiman faz do sangue de uma cabeça de unicórnio decapitada (terrível!), e parecia tão natural, que fora a minha expressão de nojo, não havia nada de estranho nisso. Confesso que meu estomago embrulhou...
     Acredito que uma das características dos personagens que mais me marcou, foi o fato de serem seres mágicos, mas parecidos conosco (egoístas, audaciosos, preguiçosos, irresponsáveis e passíveis de mudança, sempre). Enfim, esse texto é um convite à leitura desse livro, que me impactou bastante.   A forma como Gaiman associa a relação de Tristan e Yvaine  com as nossas, que tirando a exceção (amor à primeira vista), desenvolvem-se paulatinamente é genial e torna a história mais atrativa e não tira o seu caráter fantástico. No mais, a fantasia não é mesma depois de Stardust (para mim, é claro!).

Por isso e muito mais, deleitem-se e adentrem esse mundo fantástico de Muralha!

PS: Obrigada Júlia por me emprestar esse maravilhoso Livro!

Livro: Stardust: o mistério da Estrela
Autor: Neil Gaiman.
Editora: Rocco
Tradução: Janaina Tokitaka




















Filme: Stardust - O Mistério da Estrela (2007)
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Neil Gaiman e Jane Goldman


Por: Sara Meneses.

sábado, 19 de julho de 2014

Nossos dragões cotidianos


Há quem argumente que ler contos de fadas e mitos para crianças é perda de tempo, sem propósito e até mesmo perigoso. “Qual é a vantagem de falar sobre dragões e fadas madrinhas? Nada disso existe de verdade! Você só ilude a criança assim”, diriam alguns.
E eu replico: “Você não acredita em dragões?”, e para mim fica claro que o medo que os adultos têm da imaginação, da fantasia e da criatividade são prova viva de seu pânico por dragões.
O dragão é representado na literatura de duas formas, em dois polos acentuados: ou ele representa o poder da sabedoria, sendo assim é a criatura imortal, sábia e misteriosa que conduzirá o herói em sua jornada, ou ele é a mais cruel e temível das bestas, que destrói a vida e mostra seus dentes vorazes para quem ousar se aproximar. Independentemente do polo em que eles se encontram, os dragões sempre são implacáveis e capazes de grandes feitos.
Isto não nos é familiar em nosso cotidiano? Não lembra as pequenas partes de nós com que não sabemos lidar? Não é muito semelhante às ideias circulares torturantes que nós invadem de madrugada antes de uma grande apresentação? E àquelas emoções que cegam nosso discernimento e atropelam nossas amizades?
E aquelas características nossas que parecem ser de outro mundo e ter vontade própria? Como nossa preguiça, nossa desatenção, nossa timidez, nossa teimosia, nossa impulsividade... Parece que nossos dragões do cotidiano nos congelam, pioram nossos problemas, destroem nossos planos e machucam nossos amigos.
As crianças são mais honestas com seus dragões. Ao contrário dos adultos, que, quando presenciam um bater de asas reptilianas de seu educando ou filho, logo dão um jeito de repreendê-lo e ordenam que a criança crie uma prisão para conter o monstrinho. Para os adultos, parece que a única solução é encarcerar aquela parte de si mesmo, para que ela fique longe dos olhares alheios, sem saber que, quanto mais punição e repressão um dragão recebe, mais feroz ele fica.
Por que não ensinamos as crianças a reconhecerem seus dragões? Por que não as iniciamos na jornada de autoconhecimento e autocuidado? Por que não procuramos junto com elas estratégias para que o dragão fera se torne o dragão sábio? Por que a impulsividade não pode se tornar pró-atividade? Por que a teimosia não pode ser tenacidade?
Por causa de uma razão: pânico de dragões (e, talvez, nossa falta de habilidade para lidar com nossos próprios dragões).
Mas as crianças são mais honestas, e tentam conviver a trancos e barrancos com seus dragões. E já que os adultos não as ajudam como prometido, onde encontrar os heróis e guerreiras para ajudá-las, senão nas histórias?
Quem me ajudou nessa jornada foi Soluço Spantosicus Strondus III, filho de Stoico, O Imenso, cujo nome faz tremer. Ele me ensinou a ser heroína da maneira mais difícil, guerreira do cotidiano. Aqui seguem algumas dicas:

Um exemplo talvez ajude: imagine o Dragão Terrividous Timididus. A criança sente sua presença congelante quando alguém lhe pede para falar algo na frente de muitas pessoas (temos aqui seu habitat), sente que o dragão se fortalece quando ela pensa que todos vão rir dela se ela errar a resposta (voilá! Seu prato favorito!). Essas informações dão a oportunidade para a criança experimentar: e se ela tentasse pensar outra coisa, o dragão continuaria muito forte? Uma alimentação mais saudável talvez torne o dragão mais dócil. Em que situações ela consegue falar com muitas pessoas e não se sentir nervosa? A migração de território pode modificar o comportamento do dragão também.
A maior contribuição do Soluço está no item dois: conquiste seu dragão, integre-se a ele, aceite-o como parte de si e se responsabilize por suas ações. Não o abandone, mas reconheça-o, treine-o, ensine-lhe, pois só assim seremos capazes de voar alto e conquistar os desafios que nos propomos.
Encerro este texto com a esperança de que todos que têm que encarar todos os dias seus dragões – vampiros, trolls, bruxos das trevas, lobisomens... – sejam tocados por um conto, e recorram ao seu guerreiro interior para levantar a espada da coragem e da vontade para domá-los.

Texto de Júlia Gisler

Notas:
1.      Para saber mais sobre as memórias de Soluço Strondus III, resgatadas por Cressida Cowell, acesse o site oficial da série
2.       Informações completas sobre cada um dos livros da série, incluindo autora e ilustradora, tradutoras, editora e ano de edição do original e da tradução, clique aqui.