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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Um (querido e especial) diário do contador


            O fantástico da vida é saber que você sempre pode se surpreender. E fui surpreendida muitas vezes nesses 8 meses que estou como mediadora no Projeto de Extensão Livros Abertos, da Universidade de Brasília. Quando comecei a ler e ouvir falar sobre o projeto, fiquei encantada. Leitora voraz, não é de se espantar que a ideia de ler para crianças me inspirasse tanto. E não deveria ser nada de outro mundo, afinal, ler livros de crianças para crianças? Nada de novo no front, correto? Errado.
            A vida tem daqueles momentos em que estar errado é completamente deslumbrante. Minha experiência no Livros Abertos é repleta desses momentos. Isso porque me permite pensar em três questões: o tipo de leitura, a importância das ilustrações nos livros e o público-alvo das publicações.
Minha experiência prévia em leitura me ensinou que ler é simples. Você só precisa acompanhar o que está escrito no livro, dar umas entonaçõezinhas diferenciadas para cada personagem e a fórmula está completa. Mas o projeto me apresentou um outro tipo de leitura, a dialógica. Eu poderia falar aqui sobre esse tipo de leitura, seus fundamentos e estratégias, mas não é o meu foco neste momento, embora acredite que algumas coisas devam ser ditas.
A leitura dialógica é um novo fôlego nesse nosso modelo educacional extremamente falho. Permite que a criança saia dessa posição cristalizada de quem não tem nada a oferecer no processo de ensino-aprendizagem. Possibilita momentos de liberdade, criatividade, aprendizagem e autonomia. E isso tudo é extremamente necessário neste nosso mundo conturbado e quadradinho.
Sobre as ilustrações... Ahhh, as ilustrações (insira aqui um olhar apaixonado, que é exatamente como me sinto hoje com relação as ilustrações) têm todo um atrativo à parte. Desde criança eu sempre achei que elas fossem inúteis, puramente uma distração. Quanto menos imagem, melhor eu achava que o livro era... Afinal, bom mesmo é livro de adulto. Com o Livros Abertos eu descobri que as ilustrações podem contar muito mais do que as palavras escritas nas páginas de um livro. Podem dar novos significados a essas palavras, aos eventos, aos personagens. Há todo um universo a ser descoberto nas imagens (o Vira-Lata, de Stephen King, é um claro exemplo sobre a importância das ilustrações para uma história).

(Vira-lata, Stephen Michael King)

Por fim (embora seja, na verdade, o começo de novas possibilidades), acho importante falar sobre a ideia clássica de que literatura infanto-juvenil se trata apenas de livros de crianças. Aprendi com o Livros Abertos (e continuo aprendendo) que os limites de um livro são infinitos. Há uns 2 meses a mediadora Ana Paula me fez um convite inusitado e acabei aceitando. Começamos, então, a fazer mediações de leitura com turmas do Ensino de Jovens e Adultos. Um público adulto e idoso em processo de alfabetização.
Começamos um tanto quanto receosas. E os adultos e idosos também, afinal, leitura de “livros de crianças” para adultos não parecia ser útil. Passei por momentos iniciais de dúvidas achando que talvez os livros escolhidos para mediação fossem infantis demais para aquele público. E a vida me trouxe uma nova surpresa. As pessoas realmente estavam participando, estavam trazendo suas histórias de vida para a roda de leitura. Estavam nos mostrando que aqueles que se dispõem a ensinar também têm muito a aprender.
O conteúdo riquíssimo que cada contação produzia, a receptividade do público quando começaram a entender a proposta, o engajamento... Tudo nos mostrava como a literatura infanto-juvenil é indicada para todas as idades. E então pensamos: "Até onde vai nossa coragem em desbravar a mediação de leitura com outros públicos?". E assim chegamos numa turma de surdos. E foi uma das experiências mais incríveis que eu já tive oportunidade de vivenciar (e que pode ser vista no instagram do projeto, @livros.abertos). Fizemos a mediação com a tradução da professora de libras e percebemos que a leitura não tem limites e que a gente sempre pode aprender com as experiências dos outros.
As contribuições da leitura dialógica PARA PESSOAS DE TODAS AS IDADES estão lá: claras, gritantes. Basta apenas se permitir conhecer novas possibilidades. Proporcionar espaço nos quais as pessoas possam trocar conhecimentos e experiências... Permitir que seja possível não apenas ler uma história, mas ampliá-la, vivenciá-la. E vocês? Já redescobriram um livro hoje?


 (Os livros são conversações, ilustração de José Rosero, 2013)

Escrito por: Raphaella Christine

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Cultivando nosso jardim

Um lugar confortável, um cheiro de nostalgia...

Nossas relações com nossos avós nem sempre são esse mar de rosas... brigas, olhares atravessados... Hoje venho compartilhar uma doce contação que tive com as crianças este mês.

O livro chama-se Vovô Verde, escrito e ilustrado por Lane Smith. O livro narra de maneira muito bonita a vida do bisavó de nosso pequeno narrador, na verdade, é o jardim que narra esta história através das árvores podadas. Assim, descobrimos que este vovô nasceu há muito tempo "antes dos computadores, dos celulares e até da televisão", pegou catapora aos 5, morou numa fazenda... deu seu primeiro beijo no ensino fundamental.

Além de muito afetivo, este livro de Lane é lindamente ilustrado, chama os leitores a investigar as páginas e cada detalhe.

Lane Smith nos convida a revisitar as histórias de nossas próprias famílias, o que as crianças sabem sobre seus bisavôs e bisavós? E o que conhecem sobre seus avós? Recheada de afeto, conversamos sobre a escolha de nossos nomes, como nossos pais se conheceram e contos e causos que só as gerações que vieram antes de nós sabem contar.

Esta é uma obra muito interessante para resgatar o passado de nossas famílias, reavivar os afetos e laços e conversar sobre o processo de envelhecimento... "Ele [o vovô] sempre se lembrava de tudo. Agora está muito velhinho e às vezes se esquece das coisas, como seu chapéu preferido. Mas as coisas mais importantes, o jardim lembra por ele".

Diante dessa bela provocação eu perguntei o que as crianças colocariam em seu jardim de memórias... E olha que belos jardins pudemos contemplar!

Witória não foi a única a declarar amor a sua família!

 O jardim de Gabi teria que ser beeeeem grande para caber todas as árvores que podaria para as pessoas que ama!

O Jardim de Malu seria grande para caber todas suas amigas!


Para seu jardim, Giovana cultiva memórias, frutos e flores <3




Bruno disse que nunca vai esquecer aquela goleada de Barça, que ele viu na Espanha!
3x0! "Não é, brinquedo não!"
No jardim de Gael, há um cantinho especial para seu super-herói favorito.

No de Emilly, sua igreja. 



Maria Eduarda deixa em seu jardim um presente especial, de uma pessoa muito especial. 

O jardim de Pedro ainda estava em construção, sabe como é, reformando e podando uma réplica da casa de sua avó, um lugar de memórias, doces e brincadeiras.

Antes de encerrar essa matéria queria colocar aqui uma homenagem, uma flor que tenho no meu jardim. Enquanto escrevia o relato recebi a mensagem da professora Nailda dizendo que ela estava em processo de aposentadoria. Ela desde sempre foi parceira de nosso projeto, e há mais de um ano e meio vínhamos trabalhado lado-a-lado. Pelas aventuras, doce memórias e livros que compartilhamos, cultivo essa flor em meu jardim.





domingo, 4 de junho de 2017

Diário do Contador - A viagem de Francesca Sanna

Esta semana, eu levei um livro que estava desde janeiro na minha estante esperando ser contado. Eu lembro da primeira vez que o li, entre as estantes de uma grande livraria. Lágrimas discretas escorreram pelo meu rosto, e quando fui ao caixa, meu nariz estava vermelho e inchado.

O caixa perguntou: “está tudo bem, moça?”. E com um suspiro eu respondi, sem chorar, que eu achara um dos livros mais bonitos do mundo.

Eu não sei que fim deu, e se o caixa foi atrás de minha indicação, mas sei que esse é um livro que não merece ficar escondido em estantes. Sabia também que eu precisava de um tempo sozinha com ele, conhecendo, lendo e relendo e me preparando para uma contação.  

Estou falando de A viagem, ilustrado e escrito por Francesca Sanna. Sinceramente, só de ver a capa meu pulso se acelera! Premiado pela Sociedade dos Ilustradores de Nova York e acalentador de corações, o livro chegou ao Brasil em uma belíssima edição. Trata-se de um livro sensível, atual e intenso. Francesca, inspirada na história de algumas garotas que conheceu, narrou a história de uma família que foge de seu país por causa de uma guerra e embarca em uma grande aventura, a procura de um novo lar.

A imigração, mais do que questão de vestibular, é um tema que toca questões profundas, como convivência entre pessoas, respeito à diversidade, globalização. Podemos nos enganar pensando que é um tema distante da realidade brasileira, mas não podemos perder de vista as ações do governo atual com a chamada Lei da Migração, recentemente aprovada pelo Congresso Nacional. Isso sem falar do histórico do Brasil (um país de imigrantes) e dos próprios movimentos populacionais e migratórios do nosso país.

Após esse adendo, voltemos ao livro. Suas ilustrações parecem ser feitas não apenas para o imaginário infantil, mas parece que nasceu das narrativas e olhar de uma criança. A guerra é retratada como uma grande sombra, os agentes da fronteira são enormes e assustadores – uma das crianças até os identificou como aliados das sombras! Além disso, há forças e pessoas que auxiliam nessa aventura, também são retratados como criaturas enormes e elementais, como se fossem misteriosos e poderosos demais para serrem compreendidos pelo nossa pequena criança protagonista. 

Mas nem tudo, é sombrio e incerto nesse livro. Ao longo das páginas, vemos laços de amor e esperança que se aperta e se fortalece entre mãe e filhos.


Muito do que fica implícito no livro é compreendido pelas crianças, como a atmosfera de perseguição e medo, o preconceito aos imigrantes, a dureza daqueles agentes de guerra que não se compadecem com o destino de civis e crianças.

As crianças para quem contei tem 7 e 8 anos, e elas já intuem a intricada e complexa rede de poder e de segredos por trás de uma guerra. “Tia, numa guerra, tem um monte de bombas e armas, muita gente morre e muita gente é machucada. A cidade é destruída... e depois da guerra, [eles] falam que não foi nada, que foi só um terremoto e mandam que tudo volte ao normal”. Algum dos meninos falou sobre o perigo de fugir de uma guerra, e logo estávamos falando sobre a segunda guerra mundial. E, sim, eles falaram sobre Hiroshima e o absurdo de atacar uma cidade inocente. “Eu não entendo tia, porque eles construíram uma bomba que pode destruir o mundo?!”. Fui sincera com as crianças “eu também não entendo”.

Afinal, se estourasse uma guerra aqui no Brasil, o que vocês fariam? Para onde iriam?

“Eu iria para Itália [...] porque lá tem os carros mais rápidos”.
“Eu iria para a Itália também porque lá poderia andar de snowboard”.
“Eu não tia, eu iria para os Estados Unidos [...] porque tenho um tio que mora lá, e Estados Unidos tem muita bomba para se proteger”. “Iria para Hollywood virar atriz!”.
“Eu iria para a China que é bem longe daqui”.

Nesta contação com as crianças, vivi grandes paradoxos. Por mais que para as crianças fosse consenso que a família do livro pudesse vir para o Brasil, que é um lugar seguro e sem guerras. Aos poucos tornou-se impossível ignorar as pequenas guerras que temos no Brasil, e a falta de segurança que temos aqui.
“Não posso sair à noite, porque é perigoso, tia”
“É mesmo, muito perigoso lá”, outra criança concordou.
“Tem gente má que fazem coisas ruins com crianças”.
“Já vi uma mulher na rua sendo perseguida”
“Já ouvi som de tiro, tia”.


No momento que eu peguei esse livro, já sabia que as crianças viajariam com ele e veriam cenas da própria história. Não perca essa oportunidade de conversar mais sobre os refugiados do mundo e também os momentos que sua criança deseja refúgio.

Meus votos para que sempre possamos encontrar um lugar seguro para sermos nós mesmos e fazermos nossa própria história, ainda que para isso tenhamos que nos aventurar por novos ares.


Ficou curioso? Quer saber mais sobre esta obra? Confira nossas dicas de mediação em nossa revista digital.
https://www.revistalivrosabertos.org/single-post/2017/06/01/A-viagem-Francesca-Sanna
Confira partes da história em: https://www.youtube.com/watch?time_continue=81&v=ZRHlyIcFH3k

Escrito por: Júlia Gisler
Ficha técnica
Título: A viagem
Autora e ilustradora: Francesca Sanna
Tradutor: Fabrício Valério
Editora: Vergara & Riba Editoras

Ano de edição: 2016

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Mergulhando em Aves de María Julia Garrido e David Daniel Hernandéz

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O livro Aves chamou minha atenção desde a capa, tanto o estilo de gravura, quanto a escolha de usar preto e branco são muito interessantes, assim como a imagem da capa, um ganso, meio gordinho, voando, mas não da maneira tradicional, numa máquina de voar, solitário.

Abrindo o livro, logo antes da história começar a presença de uma pena meio molhada se destaca; aqui a experiência de participar de uma leitura dialógica finalmente começa, as diversas possibilidades que os participantes levantaram a partir daquela simples pena fizeram com que eu me impressionasse. E essa riqueza de visões se apresentou novamente, quando um guarda-chuva apareceu junto ao título da história Aves. Não foi um pássaro, uma pena, nem mesmo um ninho, mas sim um guarda-chuva, a imagem escolhida para representar o título, isso me deixou muito intrigada, e eu não pude deixar de refletir sobre a ligação desse objeto com a pena caída. 


Com o andamento da leitura começa a se formar um padrão, visível a, eu acredito, todos os presentes na sala. Esse mundo das aves, que geralmente é visto como alegre e colorido, nos é apresentado de uma maneira inédita, nessa versão as aves estão sempre apáticas e abatidas, num mundo cinza e com a atmosfera pesada. Já no começo, outro aspecto do livro se sobressai, a anatomia dos pássaros tem características muito humanas, como asas que mais parecem braços com mãos; patas escondidas dentro de sapatos e até mesmo a barriga de um deles parece muito mais com a de um homem acima do peso, do que a de um pássaro gordinho. Mas, infelizmente, essas não são as únicas semelhanças que encontramos entre as duas espécies. Durante todo o livro vemos um paralelo com a própria história da humanidade, isso fica mais claro a cada página. Encontramos a comparação do sistema solar baseado em ovos, que parece ser uma referência à teoria do geocentrismo, e as invenções deles que se pareciam tanto com várias invenções humanas. Além disso, há brigas e mortes dentro da própria espécie; a tentativa de usar a exploração de outros animais como lazer, e até mesmo a representação do cenário que me lembrou bastante a atmosfera de filmes e fotos que retratam a época da revolução industrial. 

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Voltando ao guarda-chuva, que causou uma curiosidade muito maior do que eu esperava. Em várias páginas, no meio de muitas discussões lá estava, sempre o misterioso guarda-chuva. E digo misterioso, pois em nenhum momento, há indicativos de chuva, ou mesmo de outras fontes naturais de água! Qual a necessidade de se ter um guarda-chuva sempre por perto? E justamente a partir dessa reflexão me veio a consideração de que talvez o curioso guarda-chuva fosse uma metáfora para o medo que esses pássaros sentem de algo que não sabemos e que talvez ocorrido antes mesmo do começo da história. Lembrei também daquela pena molhada, posicionada estrategicamente antes do título do livro. Imaginei a possibilidade de que uma tempestade muito forte tenha gerado um caos tão grande na vida dessas aves que elas tenham ficado traumatizadas. Talvez com medo de serem acometidos novamente por uma tragédia desse tamanho, elas tenham tentado a todo custo se proteger e tenham se perdido em algum lugar desse “desenvolvimento”, perdendo também sua essência. E essa triste realização se confirmou no final da história, no mesmo momento em que as esperanças, tanto dos pássaros quanto as minhas, são restauradas. Uma pequena filhote, diferente das outras aves, parece ter coragem suficiente para superar esse trauma coletivo e para tentar (re)aprender a voar.

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É claro que minha visão é uma das muitas que vieram ao longo da contação. E, talvez, tenha sido isso que mais se destacou para mim em toda essa experiência, a riqueza de pontos de vistas. Eu tenho certeza que as imagens projetadas no quadro eram as iguais para todo mundo, mas tenho mais certeza ainda que cada um de nós via algo diferente. Não existia certo e errado, existia o diferente, que inclusive, me fez perceber em cada imagem detalhes que eu não tinha visto antes. Lembro que alguém disse que a página onde apareceu um ganso em uma máquina de voar representava para ele uma crítica social. Na página onde vi uma briga de rua, viram guerras e até mesmo uma trágica cena de suicídio. Alguém acreditava que o guarda-chuva era um símbolo de status social e outro achava que era uma metáfora para as asas, agora inutilizadas, dos pássaros. 

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Eu realmente fiquei emocionada com a possibilidade de vivenciar isso junto a todo o grupo, e com a liberdade de poder compartilhar minhas próprias impressões e de, assim como todos os participantes, deixar de lado a posição passiva de ouvinte, para participar da evolução da leitura.

Escrito por: Gabriela Medeiros

Ficha Técnica:
Aves
Autores e Ilustradores: David Daniel Álvarez Hernández e María Julia Díaz Garrido

quarta-feira, 1 de março de 2017

Diário do contador: Extraordinário de R.J. Palacio

Extraordinário, de R.J. Palacio, não é um livro fácil. Ele aborda um tema muito delicado da humanidade, que não é exatamente o preconceito, a intolerância ou a falta de empatia. O que mais choca em Extraordinário é a incapacidade humana de lidar com o medo e o estranho. Nosso primeiro impulso diante do desconhecido e do não estético é de fugir, excluir, evitar, não olhar e não pensar sobre.

Não fomos ensinados a tolerar tudo; não é da nossa cultura. Durante anos famílias esconderam o que nossa sociedade não aceitava publicamente. Em Extraordinário, a família tenta quebrar paradigmas e participa do processo de transição da sociedade. Eles buscam a inclusão, a aceitação e a mudança de visão cultural a respeito de pessoas diferentes.

Para ler tal livro para crianças de 6 anos de idade, tive que fazer algumas adaptações. Escolhi o primeiro capítulo, narrado por August, Comum. É um capítulo de uma página apenas, mas extremamente interessante. É onde o menino de rosto deformado fala que gostaria de ser reconhecido como uma criança comum – porque é o que ele é. Uma das intervenções que utilizei no início da leitura foi perguntar para as crianças o que elas achavam que significava “comum”.

Como o livro tem pequenas ilustrações no começo de cada capítulo, deixei que eles folheassem o livro e parassem para comparar cada rosto que encontravam. August, o personagem principal, sempre é retratado como um rosto de um olho só e uma orelha. Isso chamou atenção das crianças e foi o que elas usaram para definir a palavra “comum”: é o que não é normal.

Aproveitando as ilustrações, também pedi para que desenhassem uma pessoa que eles achassem que representasse a palavra “comum”. Durante essa atividade, perguntei se eles se achavam comum e se eles se sentiam parecidos com outras crianças. A ideia era eles reconhecerem suas diferenças e semelhanças entre si. Também perguntei a eles se eles me achavam comum, e a resposta foi unânime: ''não, tia, você não é comum, é normal''.

No fim da atividade expliquei que comum e normal eram palavras sinônimas. Eles não se importaram muito; estavam mais entusiasmados com os desenhos que tinham feito. E como não ficar entusiasmado? Ficaram lindos!



Daniele não assinou sua arte!





Escrito: por Tanize




Ficha Técnica:

Extraordinário

Autora: R. J. Palacio

Tradutora: Rachel Agavino

Editora: Intrinseca 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Ler... Reflexões sobre leitura dialógica


Nossa mediadora Rogéria compartilhou com a gente suas reflexões com a gente sobre a leitura dialógica. Uma coisa é certa, impossível não sair mudada desse encontro. Se junte aqui com a gente nesta roda!



O que significa essa pequena palavra? Seria decifrar? Descobrir? Eu fui buscar essa resposta nas crianças. Para isso, me tornei uma mediadora. Sim! Mediadora no “Livros Abertos: Aqui Todos Contam!” E descobri além de pessoas super comprometidas e dedicadas a leitura dialógica, crianças lindas de um 1º Ano do Ensino Fundamental, que também amam essa palavra: LER. Descobri que “ler” vai além do dicionário e que essa expressão envolve fantasia, alegria, imaginação e significados que cada um pode dar para a história. E o mais importante foi que não existe apenas uma ideia ou um final, você pode elaborar o seu conto a partir daquilo que se lê ou ouve. Melhor ainda! Criar um novo fim! Que tal?

            As pessoas podem observar essas palavras e pensar que isso não é novidade, mas óbvio! E eu digo que não é bem assim. Muitas pessoas deixam de ler após serem obrigadas a manter esse comportamento em casa e na escola para passar de ano, para fazer a redação, para servir de exemplo para outros colegas e até para ser exibido em família. Mas encontrei na Leitura Dialógica um modo de leitura compartilhada, que como o próprio nome diz, “todos contam”. Não existe pare, preste atenção porque do contrário não conseguirá fazer a atividade. Mas ouça, conte comigo, o que você acha disso? Ah! Que legal você já passou por isso? Sério! Que legal! Conte mais... Existe diálogo enquanto se lê.


Que máximo! É possível dialogar e se inserir no mundo literário a partir do seu entendimento e da sua história de vida. Por que não? Sendo assim, liberdade, diálogo e  muita leitura para todos.






quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Trabalhando teatro com as crianças


Sabemos que crianças adoram se divertir, inventar e imitar. Mas seriam perceptíveis os benefícios do teatro para o público infantil? O teatro contribui no desenvolvimento e formação de caráter, estimula a memória, a atenção e concentração, combate a timidez, desperta a coordenação motora, estimula o conhecimento literário, motiva a brincar com a fantasia, entre outros aspectos.

Com isso, Núria Roca apresenta o livro Teatro, que permite ao mediador de leitura auxiliar as crianças no processo de desenvolvimento cultural:



Ir ao teatro: a história começa com crianças assistindo a uma encenação em um teatro.

Sobe a cortina: ao fim da peça, conhecem os bastidores e o fantástico mundo por detrás das cortinas.


Vamos fazer máscaras de... : nesta sessão, incentiva- se que criança interprete sentimentos com caretas e máscaras.
Dica: prepare máscaras e leve para que a criança utilize-a enquanto representa com falas. Exemplo: peça que utilizem uma máscara e relatem uma vivência como “fico feliz quando...” “fico entristecido (a) quando...”.

Imaginar com o corpo: nesta sessão, as crianças são estimuladas a gesticular e representar com o corpo, fazendo imaginações e imitações.
Dica: anote em vários papeizinhos diversas coisas a se imitar. Embrulhe os papeis e deixe que cada criança escolha um. Por vez, cada uma representa e pede os outros para a imitarem.


Ruídos: aqui, a criança utilizará sua voz ou recursos físicos para criar sons.
Dica: leve instrumentos criativos ou crie com eles, como bater um pau no outro, amassar papel, chacoalhar arroz, bater palmas, respirar de forma ofegante, sons com a boca...





Pessoas e personagens: nesta parte, as crianças poderão representar personagens existentes ou criar o seu.
Dica: peça que cada um imite alguém como um familiar, personagem de desenho/ filme, etc. e depois peça que criem um super heroi ou algo assim.




O baú das surpresas: aqui, o intuito é estimular a criatividade com figurinos.
Dica: leve enfeites, tecidos, retalhos, cintos, chapéus e fitas; e deixe que cada um (uma) crie sua fantasia.




E a maquiagem? O intuito é introduzir a maquiagem artística.
Dicas: leve sombras, batons, tintas para rosto e estimule a pintura de rosto. Divida em duplas e peça que cada colega maquie o (a) outro (a), ou leve espelhos e peça que cada um se maquie.




Era uma vez... : após escolherem a fantasia, personagem e  maquiagem, falta bolar a história.
Dica: deixe que as crianças criem uma história, e você mediador (a), poderá intermediar, auxiliando no desenvolvimento da história.



Bolar um cenário: agora só resta o cenário para que comece o espetáculo.
Dica: leve objetos que tenham algo relacionado à história criada. Peça que as crianças procurem coisas que possam ser usadas, como mochila, cadeira, blusa de frio, etc. Por fim, usem a criatividade.


O teatro de sombras: o teatro de sombras pode se tornar uma brincadeira divertida.
Dica: procure um lençol claro, ou TNT branco, amarre suas extremidades de forma que fique esticado e largo, e apague a luz da frente, mas deixe uma lanterna ligada atrás do lençol. Peça que cada criança imite algo e os outros terão de adivinhar, e assim, quem adivinhar será o próximo a imitar.



Bonecos bem animados: mostre às crianças o quanto o Teatro é diversificado. Introduza o teatro de fantoches.
Dica: leve papel cartão colorido, tesoura, fita adesiva, lápis e palitos de picolé para que criem fantoches.




É bem mais difícil e Vamos brincar de circo: e para finalizar, apresente o circo, que não é teatro, mas é primo dele (haha).
Dica: estimule malabarismo, procure e ensine mágica a eles, peça que dancem, que andem na linha do chão como equilibristas e etc.

Bem, então é isso! Este magnífico livro é bem abrangente e diversificado. Ele também possibilita que o (a) mediador (a) trabalhe o livro em diversas contações; quer seja dois temas por dia, quer seja um só ou até mesmo mais. Espero ter ajudado!

Escrito por: Monique Evelyn Pimentel Zanela




Ficha técnica:
Título: Teatro
Autora: Núria Roca
Tradução: Irami B. Silva
Ilustração: Rosa M. Curto
Edição: Escala Educacional, São Paulo, 2006.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Papai e eu, às vezes - Uma história sensível

Venho hoje compartilhar minha experiência de mediação com o livro Papai e eu, às vezes de María Wernicke.


http://statics.livrariacultura.net.br/products/capas_lg/703/15013703.jpg
À priori, o título pode parecer assustador para alguns mediares e contadores, que temem trazer a tona questões pessoais das crianças e despertar alguma ansiedade. Curiosamente, é justamente o título que nos permite abarcar a diversidade dos arranjos familiares. É justamente este conjunto de momentos, estes diversos às vezes, que constitui a história de nossa relação.

Não importa se venho de um lar de pais separados e que more com minha mãe e tenha que visitar meu pai em outra cidade, não importa se moro com meus pais, não importa que more com meus avós e só encontre com meus pais no final de semana, não importa se meu pai já é falecido... A verdade é há momentos em que estamos juntos e há a presença do meu pai, e em outros momentos há a ausência.

Para aqueles que já são pais e mães, este livro é uma excelente ferramenta para nos sensibilizarmos e sensibilizarmos nossos filhos para uma questão, nem sempre estamos disponíveis afetivamente, assim como nem sempre eles estarão para nós. E é exatamente sobre esses encontros e desencontros entre desejos e afetos, prazeres e obrigações que este livro retrata.

Ele é um convite para um novo olhar sobre nossa relação com nossos pais e nossos filhos, um olhar sincero e sensível, que compreende a diversidade de momentos que vamos construir. É um momento para compartilhar as coisas gostosas que dividimos e fazemos com nossos pais, as coisas incríveis que aprendemos com eles, mas também compartilhar os sentimentos que nos invadem quando recebemos um não, ou quando nós mesmos recusamos um convite.

Não foi com essa reflexão que eu cheguei para a contação, na verdade, eu cheguei um pouco ansiosa.

Minha ansiedade diminuiu com o primeiro grupo, como eu, ninguém morava com seus respectivos papais, todos os ali tinham visto o divórcio dos pais, e uma de nossas pequenas tinha perdido um dos pais, mas descoberto muito carinho com seu padastro "é meu segundo, pai, tia". Neste grupo não faltou acolhimento, não faltaram histórias, não faltaram lembranças e não faltaram intrigas. Cada página era um lembrete e porta de partida para novos momentos.

No segundo grupo, eu era a única que tinha os pais separados, a maioria deles moravam com seus pais, alguns deles (seja por conta do trabalho dos pais, ou seja pela distância da escola e da casa) só viam seus pais no final de semana. Os às vezes, tiveram outro sentido para este grupo, não era uma questão de proximidade física, mas de disponibilidade afetiva, às vezes nós dois estamos em casa, mas não conversamos e não queremos brincar juntos.

Foi muito rico viver este momento e compartilhar dessas histórias, sou grata pela experiência que María Wernicke nos possibilitou com esta obra de arte, que tem uma dose maravilhosa de sua própria história.

Indicamos este livro de afeto e sensibilidade a todos os públicos! =)
Escrito por: Júlia Gisler

Ficha técnica
Título: Papai e eu, às vezes
Escritora: María Wernicke
Tradutora: Carla Caruso
Ano de edição: 2010.

Gostou? Confira nossas dicas de mediação dessa obra em nossa revista digital!
http://www.revistalivrosabertos.org/single-post/2016/11/10/Papai-e-eu-%C3%A0s-vezes-Mar%C3%ADa-Wernicke

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Retorno ao projeto e novos desafios

Contação de histórias com crianças pode se tornar uma atividade lúdica que transmite aprendizado ao mediador. Isto porque, quem pensa que o público infantil não é exigente, se engana! As crianças esperam do mediador uma surpresa a cada encontro. Esperam que o livro seguinte seja tão bom ou superior aos lidos. Elas se agradam quando o mediador traz novidades, quando têm a oportunidade de descobrir, sentir e refletir.
Após dois semestres sem realizar contações, resolvi retornar ao Projeto Livros Abertos. E, claro, estava enferrujada. A turma na qual faço mediações é do primeiro período. Eu e minhas duas colegas fizemos a visita à escola para conhecer as crianças, fazer um quebra-gelo, conhecer a professora e verificar a idade e quantidade de alunos. Combinamos de dividir em grupos pequenos de quatro crianças para que pudéssemos dar atenção a elas. Assim, em cada encontro, cada mediadora ficava com oito crianças e sorteavamos, para termos a chance de contar a todas as crianças, ter contato com todas.
Como a faixa etária predominante era de cinco anos, procurei no acervo do projeto um livro que fizesse jus à idade e principalmente, para introduzir o universo da leitura dialógica na vida delas, já que não haviam tido contato algum na escola, até então. 
Agora não me recordo do título do livro, mas planejei as intervenções e testei com meus primos da mesma idade. Meus primos adoraram, porém na escola foi um fiasco. As crianças não se interessaram, imagino que não tenha sido tão atrativo o livro, tampouco a contação. O local que escolhi também não foi uma boa opção para tal momento: o pátio da escola. É um bom local sim, mas não quando se quer introduzir uma coisa nova na vida das crianças. E eu tive que competir com um jogo que faz sucesso entre elas, o totó. Adivinhem o que elas preferiram? Elas brincavam, gritavam, rolavam pelo chão... E eu ali, totalmente perdida sem saber como reagir. Simplesmente sentei no chão e comecei a leitura sozinha, em voz alta, até que vez ou outra, por pura curiosidade, se aproximavam para ouvir e participar. 
Não há como descrever minha frustração ao terminar a mediação. Achava que havia perdido o jeito para aquilo, e me senti desafiada a trabalhar duro para encanta-las com a leitura compartilhada. Exigiu autoavaliações e preparo.
Em nossa reunião semanal com os mediadores e a coordenadora, relatei o ocorrido. Alguns me deram dicas que ajudaram bastante, como em cada vez pegar apenas três crianças (diminuir a quantidade), procurar um livro com mais imagens (confesso ter dificuldade e estou trabalhando nisso, depois relato outra experiência), e tentar inovar. 
Então vi o livro "Quando isto vira aquilo" no Acervo e peguei. Basicamente, o livro é só de imagens, muito bem coloridas e chamativas. Em cada folha há um animal, e parte do animal se transforma noutro animal na página seguinte. Ao todo, são uns vinte animais. E o melhor de tudo é que esses animais são bastante conhecidos pelas crianças. Baixei o áudio referente a cada bicho no celular. Levei as crianças ao pátio de entrada e comecei o livro. 
Minha abordagem já foi diferente. Comecei me apresentando a elas, transmitindo intimidade e conhecendo-as mais profundamente. Fiz um mistério sobre o livro e comecei a contação. A cada animal as crianças queriam falar o que sabiam sobre aquilo, algumas manifestavam medo, outras diziam que adoravam, e nisso, contavam suas experiências particulares ou até mesmo inventavam algo só para ter o prazer de participar da conversa que estava tão agradável. Eu pedia que imitassem o som do animal e depois elas ouviam o som verdadeiro que encontrei no YouTube. 
Foi fantástico! Nesse dia havia muitos pais na escola sentados próximo à coordenação. Eles ficavam atônitos prestando atenção e riam, achando maravilhosa a forma como as crianças interagiam. 
Ao fim da contação queriam folhear o livro e decidir qual animal haviam gostado mais. Pedi que em grupo (para trabalhar a união, avaliação diferenciada, e harmonizar individualidade, criatividade, autonomia e relações em grupo) fizessem um desenho sintetizando o que mais gostaram. Então cada grupo desenhou animais, onde pegavam uma parte de cada animal e juntavam. Acho que se ativeram ao livro que transformava um animal no outro. Por isso digo que não devemos menosprezar a capacidade delas. Alunos de primeiro período pensaram desta forma!
Nesse dia a contação durou bastante tempo porque elas definitivamente não queriam retornar à sala. Crianças de outras turmas passavam e viam, queriam participar também. 

Eu me senti tão feliz e especial que fiquei contagiada durante vários dias. E foi pelo ótimo resultado que refleti o quanto vale à pena se desafiar e propor inovações. O quanto é importante que o mediador/ professor tenha em mente reinventar seus métodos e adequá-los à necessidade dos alunos. Acredito que todos saímos satisfeitos!
Escrito por: Monique Evelyn Pimentel Zanela

Ficha técnica
Título: Quanto isto vira aquilo
Autor: Gustavo Lins
Editora: Rocco
Ano de edição: 2008