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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Pescar e mediar é só começar


Ontem eu revisitei um dos meus contos favoritos, trata-se de uma história de um povo de uma terra fria e foi apresentado e analisado por Clarissa Pinkola Estés, psicóloga de abordagem análitica junguiana. A cada vez que releio, tenho um sentimento profundo de empatia e carinho pela figura sofrida da Mulher Esqueleto, contudo, dessa vez ao ler o conto, me senti pescador.

Vamos para a história... A Mulher Esqueleto e o Pescador Mediador.

http://stellamaximo.com.br/imagens/2015/10/stella-maximo-conto-mulher-esqueleto.png

Um dia, um pescador se dirigiu a uma enseada mais distante para trabalhar. Muitos pescadores da região não frequentavam aquela área, alegando que ela era assombrada, mas o homem que há muito tempo estava isolado do convívio de sua comunidade desconhecia daquelas crenças. O pescador preparou sua isca e jogou-a no mar, deu as costas para a proa e cuidou de desenrolar sua rede.
O anzol foi descendo, descendo e finalmente fisgou algo. O Pescador ficou muito entusiasmado! O dia seria bem proveitoso! Podia imaginar o quão grande, o quão saboroso seria esse peixe, quantas pessoas seriam alimentadas por ele! Um verdadeiro banquete!
Mas não foi um peixe que caiu sobre a proa do seu barco, era um esqueleto! Uma mulher esqueleto.
- AHHHHGGGGGGG !!!- Gritou o homem assustado, tamanho foi seu susto que desequilibrou e caiu, enredando-se em sua linha.
Aquela criatura era horrível, havia crustáceos em suas órbitas vazias, corais em seus dentes, não havia um fio de cabelo em sua cabeça. O Pescador tratou de pegar seus remos e disparar em direção a terra. Mas ela o seguia!
-AHHHHHHGGG!!!!! Tamanho era seu medo que não percebera que tanto ele quanto ela estavam pressos e enrolados na mesma linha!
-AHHHHHHHHGGGG!!! - Urrou o Pescador, apavorado! Mas quanto mais ele fugia, mais próxima a Mulher Esqueleto se aproximava. Chegou a terra tropeçando, atrapalhado, aterrorizado e meteu-se no seu iglu, arrastando-se de quatro. No escuro de seu lar, respirando ofegante, ele acreditou que estava seguro, mas então percebeu que ela estava lá, bem perto dele.
Sua pose era bizarra, joelho sobre a clavícula, braço sob as costelas, o quadril descolocado.
Aos poucos, sua respiração se tornou mais suave, o Pescador tomou coragem e usou uma mecha do próprio cabelo para acender sua pederneira e iluminar sua casa.
http://26.media.tumblr.com/tumblr_ldhyp5PPpS1qa26auo1_400.jpg
Conforme a noite foi avançando, o coração do pescador foi se tranquilizando. Talvez fosse a luz, talvez tenha sido o fato de que o pescador pôde ver seu reflexo no crânio reluzente daquela criatura, o fato era que suas feições se suavizaram e ela não parecia tão hostil e terrível assim.
O Pescador então se aproximou dela, e cuidadosamente começou a desprendê-la da linha de pesca. Puxava a linha com cautela, falando palavras carinhosas, sussurradas,  como uma mãe fala com seu filho, se pegou cantado e ninando.
- O na na na. - Ele cantava e suas mãos dançavam harmoniosamente, como as mãos de uma tecedeira.
- O na na na. O na na na. - Quando terminou, o Pescador envolveu a Mulher Esqueleto com seu cobertor de pele macia. Quando a luz se extinguiu do aposento, o Pescador deitou ao seu lado e dormiu.
Quando ele acordou, encontrou uma mulher feita, com pele macia, seios fartos, cabelos longos e brilhosos, mãos fortes e macias. Eles estavam novamente unidos, dessa vez de um jeito bom e duradouro, pela linha do afeto e do cuidado.
Eles viveram juntos pelo resto de suas vidas e nunca mais faltou peixes na rede desse pescador.

Na leitura dialógica, nós mediadores somos como esse pescador. Preparamos nossas intervenções esperando fisgar as crianças, suas emoções, crenças e opiniões. Desejamos peixinhos coloridos, peixões encorpados. Esperamos que o vier alimente novas discussões e nutra nossas relações.

http://www.abi.org.br/wp-content/uploads/images/Araquem_pescador.jpg

Mas... de tempos em tempos, das águas de nossa contação emergem coisas pavorosas e inesperadas, coisas feias e sombrias, coisas sofridas, tabus. Ás vezes, fisgamos uma dor, um trauma, um mito familiar. Abusos psicológicos, preconceitos, violência familiar. Que susto nos levamos! Que vontade nos dá de correr para longe, nos esquivar nos esconder, mas já é tarde, estamos enredados na mesma linha.

Como mediadores, temos que respirar fundo, e olhar o esqueleto com ternura. Como o pescador que doa seu cabelo para trazer luz, doamos de nossa energia para acolher o que estava escondido. Puxamos cuidadosamente a linha das narrativas, a linha das histórias de nossas crianças. Reorganizamos, recriamos, desembaraçamos e arranjamos um lugar seguro para aquele esqueleto se mostrar. Acionamos a rede de apoio da criança, conversando com professores e coordenadores, protegendo-a. Deitamos ao seu lado, expondo também nossa vulnerabilidade "o mundo pode ser duro, mas não estamos sós", "há coisas que não entendemos ainda, mas juntos podemos tentar amenizar a dor"',  o na na na, o na na na. 

Alguns esqueletos voltam para o mar quando nossa contação acaba, outros se tornam companheiros e transforma nossa relação com as crianças, com afeto e cuidado, nos unimos de maneira boa e duradoura.

http://jornalacorda.com.br/wp-content/uploads/2016/03/pescador-de-almas.jpg
Escrito por: Júlia Gisler

Ficha técnica:
Mulheres que correm com lobos
Autora: Clarissa Pinkola Estés
Editora: Rocco
Ano de publicação: 1992

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sobre se sentir mais viva e no lugar certo

Quando é fim de semestre, estresse, nervosismo, muitas coisas pra fazer, em adição à sua vida fora do contexto universitário – obviamente cheia de situações que podem fazer você perder um pouco a cabeça –, o que possivelmente passa pela sua mente é: quero paz!

Mas daí chega o dia da sua contação. Você acha que não terá paciência o suficiente, nem sensibilidade para ouvir e entender as crianças que, somente naquele dia, têm sua intervenção literária. 

Porém, o que acontece é exatamente o contrário: você se sente mais viva e no lugar certo. Pode não ser bem a sua situação, mas foi a minha. Chegar à escola e observar todas aquelas carinhas prontas pra ouvir e discutir o assunto da contação do dia é extremamente reconfortante.



Deixá-las expressar tudo o que tiverem vontade, ouvir suas opiniões e histórias de vida, suas reclamações, seus prazeres, suas ligações entre a história contada e a vida real, são coisas que fazem com que, pelo menos naquela hora, haja um esquecimento das minhas próprias questões, dos meus próprios estresses e insatisfações. Faz  haver um mergulho no momento e a valorização de cada palavrinha dita, cada desejo de se comunicar e expressar tudo o que tiver vontade.

No final das contas, o mergulho no momento é tão importante quanto as intervenções literárias preparadas, o script imaginado, a "moral" da história. Deixar-se levar e criar um ambiente propício à troca de experiências fazem da contação algo significativo não só na vida das crianças,  mas na dos contadores também. 

Raylane


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Lila e o Segredo da Chuva (Diário do Contador)

Quando me encontrei com esse livro, pensei que seria bem oportuno levá-lo para a mediação com as crianças, pois estávamos naquele período de altas temperaturas e baixa umidade em Brasília. 
Essa obra foi a responsável por eu conseguir cativar as crianças, digo isso porque as mediações anteriores foram bem desafiadoras, pra não dizer difíceis mesmo. Mas essa situação mudou e ficou esclarecida quando a professora contou que eles não tiveram mediadores desde o início do ano, e se levarmos em consideração que a maioria dessas crianças estão tendo contato com a escola e quiçá com a leitura, pela primeira vez. É uma turma de 1º ano (sete anos). 

http://www.editorabiruta.com.br/wp-content/uploads/2014/08/Lila-e-o-segredo-da-Chuva-OK.jpg















 
No dia, levei também um livrinho com o mapa mundi e iniciei o diálogo contando que essa garotinha morava no Quênia… Só aí já rendeu muita prosa, pois esse é também o nome da professora deles (Kenia). Lila é uma garotinha que, motivada pela insatisfação com a falta de água no vilarejo em que mora com a família, resolve (com um empurrãozinho do avó), buscar o segredo que faz chover. 

http://image.slidesharecdn.com/lilaeosegredodachuva-141129125256-conversion-gate02/95/lila-e-o-segredo-da-chuva-7-638.jpg?cb=1417265658


Conversamos sobre por que chove, como chove… Sobre isso, uma criança falou que era quando o “papai do céu” ficava triste… Na hora, outra criança interviu dizendo que não, na verdade isso acontece porque as nuvens ficam carregadas d´água.

Muita conversa, reflexão sobre as explicações dos fenômenos naturais e imaginação rolou! Fizemos até a dança da chuva (risos...). Sobre isso, uma menina comentou: 
- Tia, a gente leu a história da chuva e não é que choveu?

Foi uma experiência muito grata esse dia, por isso fiz questão de compartilhá-la com vocês.

Ficha técnica do livro 

Coleção:contos mundo afora 
Obra: Lila e o segredo da chuva 
Autor: David Conway 
Ilustração: Jude Daly
Editora: Biruta
Ano: 2010
Samara Alencar :)




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Ler é também relacionar

Hoje, resolvi trazer citações, de maneira mais leve e descontraída, para que possamos pensar: O que tem incomum a leitura dialógica? 

Anda mamãe muito iludida, pensando que aprendo muita coisa na escola. Puro engano. Tudo quanto sei me foi ensinado por vovó, durante as férias que passo aqui. Só vovó sabe ensinar. Não caceteia, não diz coisas que não entendo. Apesar disso, tenho cada ano, de passar oito meses na escola. Aqui só passo quatro... (Monteiro Lobato).


“Como é gostoso e importante para a formação da criança ouvir histórias. Ao contá-las instigamos a curiosidade e o desejo de "quero mais”, expresso pelas crianças no “conta outra vez”. São esses sentimentos que nos movem para conhecer e aprender as coisas que estão no mundo, e, sabendo as registradas em livros, certamente iremos recorrer a eles, nos tornando, assim, leitores por desejo e motivação. (Perrone e Lara, 2002, p. 123).




”Boa leitura é aquela que leia o que não há entre página e página da mesma folha”
(Agostinho da Silva)


“A leitura do mundo precede a leitura da palavra”
(Paulo Freire)


Foto: Getty imagens


"Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta."
(Mário Quintana, com adaptações). 


Referências: PAÇO, Glaucia Machado de Aguiar. O Encanto da literatura infantil no CEMEI Carmem Montes Paixão. Disponível em:<http://www.ufrrj.br/graduacao/prodocencia/publicacoes/desafios-cotidianos/arquivos/integra/integra_PACO.pdf>. Acesso: 11, out. 2015, 22:15:30


Rosileide Silva Santos

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O incrível mundo da leitura

Olá pra você que acredita que, com um livro, podemos sonhar alto, ir para um mundo incrível onde monstros existem, animais falam, e coisas imaginárias se tornam reais. Que sabe da importância da leitura e dos diversos benefícios que ela traz, não só pra vida acadêmica, mas pra vida, principalmente de uma criança.
Bom.. vou falar um pouquinho da experiência que tive com essa nova família que me acolheu, o "Livros Abertos: Aqui Todos Contam!". Pra começar, nas minhas primeiras contações eu fiquei bem receosa em relação aos pequenos, não sabia se iriam me receber bem ou se iriam gostar das minhas histórias. Mas não custava nada tentar, né? Além do mais, crianças são crianças, pequenos seres iluminados curiosos para descobrir o mundo. Besteira da minha parte pensar que não iria dar certo, fui calorosamente acolhida e sempre sou recebida por muitos beijos e abraços deliciosos!! Quanto amor.. fico até boba.
Ah!! Esqueci de contar que, coincidentemente, eu arranjei um emprego de monitora em um cursinho no mesmo período, no qual eu também faço mediações dialógicas. E o mais incrível é que todos ficam super empolgados e até incentivados, com sede de mais e mais histórias, não só onde eu trabalho mas na escola onde eu faço a contação também. Eu fico encantada de como realmente um bom livro, com uma intervenção saudável, consegue captar a atenção de uma criança. Elas ficam imergidas em uma outra dimensão e acabam te intrigando com a espontaneidade delas. É  uma atividade lúdica, que consiste em ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias tecidas com materiais simbólicos. São vivencias que se distinguem dos prazeres estereotipados, das ações dadas ou prontas, tendo em vista que expressam a singularidade dos indivíduos que as experimentam.
O mais legal é que, com as histórias que vou contando, as crianças vão me relatando alguns acontecimentos da vida delas, comparando com os personagens principais dos livros ou  compartilhando sentimentos que elas tiveram com a narrativa. E esses são alguns dos motivos que me incentivam a querer fazer parte, cada vez mais, dessa família.
Finalizo então contando um pouco da minha experiência e dos frutos que uma simples contação de histórias pode gerar. Espero que tenham gostado e até a próxima aventura!


Com carinho, Jessica Tsai

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ler é uma viagem (?)

É costume de alguns professores afirmarem, na faculdade, que aprendemos errado no decorrer da vida, que o certo é assim, assado. Aluna da matéria Introdução à Literatura, ouvi que aquela história de que “ler um livro é uma viagem”, é pura balela, com a justificativa de que, na literatura, olhamos para nós mesmos, sendo ela uma imagem nossa, além de trazer reflexões e questões acerca do mundo.


Não discordo da justificativa, que, na minha opinião, pode ser verdade em vários momentos, mas tenho que defender algo que alguns mediadores e amantes das histórias sentem: a viagem que é ler um livro.


Ao sentar e abrir um livro, consigo me sentir na floresta desbravando caminhos obscuros, no apartamento pequeno escondida de quem não me quer por perto, na juventude dos que aproveitam a vida, na história de amor dos que se entregam, no campo de concentração dos que foram injustiçados, no meio do lixão dos que trabalham duro pra ter um canto e o que comer, nas aventuras boêmias dos doce 20 e poucos anos – ou mais, por que não? –, nas façanhas de um mundo imaginário onde se comemora o desaniversário, na infância sofrida ou divertida de um personagem curioso, no cotidiano do interior do país ou em um contexto completamente diferente do que conheço ou sou acostumada.



Ao sentar e abrir um livro com as crianças, não é nada diferente. Sinto-me na mesma fazenda, junto do porquinho procurando o lobo escondido em todos os lugares. Sinto-me na viagem pra casa da vó, na rua apertando a campainha e correndo, colecionando aventuras. Sinto-me debaixo da árvore aproveitando a sua sombra, no meio da mata ouvindo a conversa dos animais, no planeta pequenino de um menino menor ainda, na escola com a professora Maluquinha, no dilema de como pegar uma estrela – do céu, do mar? –, na cabeça das crianças imaginando, afinal, para que serve um livro...


A leitura mexe com nossa sensibilidade, e o livro se releva a partir da experiência do leitor com o que se lê, sendo então algo particular de cada um. Pra mim, ler é sim uma aventura, é sim uma viagem, e se essa é uma visão muito boba do que um livro pode ser, não me importo de continuar - também – com ela.



Raylane

terça-feira, 28 de julho de 2015

Somos tudo ao mesmo tempo!

Nova postagem na Revista Livros Abertos!

Muitas vezes, dizemos às crianças coisas como: "Você é tão lento!" ou "Por que você se agita tanto?" ou "Você é mesmo muito levado!" ou "Você é mesmo bravo, heim?" Com isso, não notamos que estamos cristalizando momentos que são muito dinâmicos. Afinal, quem nunca ficou triste como um basset, ou alegre como um passarinho? Quem nunca foi suave como um gatinho, brincalhão como um macaqunho? Quem nunca se sentiu pequeno como uma joaninha ou enorme como um elefante? Somos tudo ao mesmo tempo e mudamos de acordo com as circunstâncias, e esta obra nos lembra essa verdade simples que tantas vezes esquecemos. Na Revista Livros Abertos, trazemos várias dicas para a leitura dialógica deste livro encantador.  A obra faz parte do PNBE 2010, portanto, você poderá achá-la na biblioteca de sua escola! Confira nossa Revista e comente se as dicas de mediação dialógica foram úteis para você. Boa leitura!!


quinta-feira, 11 de junho de 2015

A História de Alguém

Recentemente, aqui no blog, o nosso amigo João Bosco trouxe uma reflexão que quero usar como base para a experiência que vou compartilhar com vocês. Experiência que será, sem sombra de dúvidas, o divisor de águas para o momento em que eu percebi não ser apenas parte do projeto, mas sim a expressão dele na vida dos meninos e meninas que todas as terças-feiras passam, em média, trinta minutos dialogando e vivendo as histórias que contamos juntos. Bom, em seu texto publicado no dia 26 de maio, no último parágrafo, João diz a seguinte frase: nós contamos histórias que são conectadas com vidas, vidas de pessoas que a gente pode conhecer ou não. Que são sempre reais porque a gente não sabe se a história do livro pode ser a história de alguém, mesmo que cercada de fantasia.”.
Bom, eu estou concluindo a minha graduação em Serviço Social e sempre quis levar algo do que eu estudo para as nossas contações, mas antes de fazer isso eu tentei primeiro fortalecer um vínculo de confiança com eles e conhecê-los um pouco melhor. Assim seria mais fácil pensar sobre o que poderia ser tratado em um primeiro momento, para que a mensagem passasse de forma leve e determinante, sem criar nenhum choque nas gigantescas mentes desses pequeninos. Pois bem, no período de observação percebi que falar sobre “raça” com eles com certeza seria algo interessante, visto que por algumas vezes eles comentaram de maneira aleatória sobre o caso do goleiro Aranha, que quando ainda jogava pelo time do Santos, foi vítima de racismo por parte da torcida gremista em uma partida de futebol.
Inspirada por uma apresentação da Amanda Barros sobre personagens negros na literatura brasileira, levei o livro do Caio Riter, o Pedro Noite, da editora Biruta. Eu separei uma peruca, algumas faixas coloridas, óculos, papéis com desenhos feitos a mão por mim para que eles fizessem observações e muita disposição e alegria para mais um dia de encontro. Eles chegaram embalados pelo ânimo e o alvoroço, é impressionante como o momento de compartilharmos com eles uma história é realmente apreciado. Sentamos na biblioteca e eu fiz a apresentação do livro, perguntei a eles se havia algum palpite sobre o que seria a história. Eufóricos, eles foram logo falando sobre racismo e bullying e começamos a dialogar sobre isso. Escutei as opiniões e as respostas firmes, como: “todos somos iguais” “ninguém é melhor ou pior por conta da cor”, “racismo é algo muito feio”, “eu detesto o racismo”, como sabemos, a criança não nasce racista ou com qualquer outro preconceito, em alguns casos isso acaba acontecendo por outras influências, mas que não irei abordar aqui. Enfim, ouvi-los é realmente satisfatório e ouvir coisas boas das crianças faz com que a chama de esperança de dias melhores realmente reacenda em nossos corações.
Mas o que especialmente mexeu comigo neste dia foi que em dois momentos diferentes da história, meninos diferentes, choraram. E choraram mesmo. No primeiro momento eu não sabia o que fazer, porém ao perceber que as outras crianças estavam percebendo o que estava acontecendo eu resolvi perguntar se estava tudo bem e se eu deveria continuar com a história, com a resposta afirmativa eu prossegui e esperei uma “deixa” na situação para saber como ele se sentia sobre o que estávamos conversando. Ele logo tomou a voz e disse que se sentia como Pedro, que não era por conta da sua cor, mas de outras características físicas que ele possuía. Comecei uma brincadeira que era basicamente falarmos uns para os outros como víamos o colega ao lado, com brincadeiras, mas sem agressões - afinal, durante toda a leitura falamos sobre respeitar os nossos amigos e aceitarmos as pessoas como elas são - falamos da aparência interna e externa uns dos outros. Confesso que fiquei temerosa, até porque a capacidade da sinceridade infantil, por vezes, não tem limites. Mas eles foram gentis uns com os outros, riam do que falavam, mas falaram com muito respeito e amizade, algumas vezes com esforço para não magoar, contudo, ainda assim agiram de maneira muito simples. No final, já estava na ponta da língua toda a mensagem da nossa manhã. O nosso amiguinho que estava emocionado já estava gargalhando e se divertindo muito. Com pesar, terminamos o primeiro tempo e eles foram para a sala falando sobre o Pedro Noite.
O segundo grupo chegou com mais ânimo do que o anterior e em um número um pouco maior. Fizemos a introdução ao livro, como sempre fazemos, e juntos desbravamos as intempéries de uma vida marcada pelo preconceito e a intolerância. Daí, para a minha surpresa, um dos meninos do segundo grupo, também se emociona com o tema. Resolvi utilizar a mesma abordagem anterior, tentando explorar ao máximo a aceitação e o afeto entre eles. O melhor disso é que sempre somos surpreendidos com a imaginação infantil e o quanto os estímulos podem nos trazer respostas primorosas. Enfim, por conta das particularidades dessas duas contações, não tive tempo de trabalhar com um terceiro grupo, entretanto, essa experiência me motivou para explorar o mesmo tema com as outras crianças na próxima semana, ou talvez algo que se aproxime disso, mas ainda estou preparando.

Outro detalhe desse dia, como citei acima, é que levei alguns utensílios pessoais e coloridos para a contação. Todos eles quiseram usar alguma das coisas, alguns meninos usaram a peruca loira, outros colocaram faixas na cabeça, as meninas brincaram com os óculos, em suma, todos ficaram extremamente confortáveis e em nenhum momento eu escutei algo que fosse, ao menos, semelhante a frases como: “isso eu não uso, é de mulher” ou “isso é coisa de menino”. Eles estavam entre eles, falando sobre como se sentiam e sobre o que aprovavam e desaprovavam, inventando finais para a história do Pedro Noite, sorrindo muito e com lenços na cabeça, em alguns momentos sensibilizados, mas, sobretudo, eles estavam livres para ser e assumirem quem eles eram e o quem eles viam. E isso foi algo muito profundo, muito especial. A leitura é a janela da imaginação para uma nova jornada, mesmo que ela envolva uma trilha que nos leva a nós mesmos.

Escrito por: Deliane Rodrigues
Ilustração: Filipe Alencar

sábado, 16 de maio de 2015

A primeira contação a gente nunca esquece

Fonte da imagem:  https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0e0N3XoqsTnsEl70chKjoKKBT271lP7fcscaUFgzCHbP-GAEs9RL2nOTZFEsSTEdo7ezLIz9u-XCWU4yufQNo3-_z1_Mhds703coQrSr06kMg2qIjXyc3h0kKVzAQ9EFHgn84vDtxldTI/s1600/fotoscapas+419.jpg

Uma história pode ser contada de vários jeitos, causando diversos tipos de interpretação e reações. A leitura dialógica é um dos jeitos que uma história pode ser contada, e cá entre nós, é o jeito mais divertido!

Não faz muito tempo que fiz a minha primeira leitura dialógica com um grupo de crianças numa escola, localizada em Brasília, e não poderia ter sido melhor!
Cheguei cheia de expectativas, de medos, de anseios, se as crianças gostariam de mim ou não. De como seria a professora, de como seria a escola... E tudo foi perfeito!

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece, e é verdade, pois vou guardar para sempre na memória o rostinho das crianças ansiosas querendo descobrir o que iria acontecer, as conversas sobre as diversas possibilidades de como podemos pegar uma estrela e a surpresa quando o fim da história é revelado. 

Obviamente, a escolha do livro ajudou para esse primeiro contato. O livro escolhido, Como pegar uma estrela de Oliver Jeffers, é um livro muito ilustrado, com uma narração muito simples e fácil de ser entendida, que possibilita o exercício da imaginação, tanto para quem ouve, como para quem conta. 

Fonte: http://esconderijos.com.br/wp-content/uploads/2014/04/oliverpegarestreladentro.jpg

 A história possui vários pontos interessantes que podem ser explorados em uma leitura dialógica, como por exemplo, o fato de o personagem querer uma estrela como amiga, como ele pensa em conseguir pegá-la, se é possível pegar uma estrela, e muitas outras coisas que fazem as crianças criarem inúmeras estratégias e soluções para os problemas que vão surgindo ao longo da história.


Além do livro infantil, Como pegar uma estrela, Oliver Jeffers já escreveu outras histórias para crianças. Escritor, ele também é artista e ilustrador em Belfast, Irlanda no Norte Ele é muito
conhecido pelas suas obras infantis, e por ter ganhado diversos prêmios ao longo de sua carreira. 
Outras duas obras bastante conhecida de Oliver Jeffers são Perdidos e achados e O coração e a Garrafa.




Existem muitos livros, e muitas histórias com diversos tipos de enredo e narrativa. 
Um livro não se limita apenas na história que ele conta, vai muito além disso. Um livro faz você imaginar coisas que até então pensava ser inimagináveis, faz você viajar para qualquer lugar, faz você chorar, rir e se colocar no lugar do personagem... E um livro infantil faz você voltar a ser criança.



Escrito por: Paula Calazães. 

Como pergar uma estrela, Achados e Perdidos e O coração e a garrafa.
Escritos e ilustrados por: Oliver Jeffers
Traduzidos por: Rui Lopes
Editora: Salamandra
Ano de publicação: 2010, 2011 e  2010 (respectivamente).



terça-feira, 5 de maio de 2015

Diário de um contador: Contação ou Encenação?

Quem nunca se pegou lendo um livro e imaginando ser aquele personagem? Ou vivendo aquele romance? Ou até mesmo muito ansioso e com medo de virar a próxima página sem saber o que pode acontecer? Na mediação não é diferente. Mesmo ocorrendo toda semana, a cada dia é única e original, porém com o sentimento comum de leitor.

Dessa vez, a mediação era com um dos contos de assombração da Argentina: A sombra negra e o Gaúcho valente. Que começava com um homem que decidiu sair pelo mundo em busca de fortuna, acompanhado de sua mula.

Logo uma criança querendo zoar o colega falou: Ei, fulano é a mula!

Claro que todos os outros riram... Mas eu já estou bem acostumada com as zoações nas contações, e como sempre, entro nela!
“Pera, se fulano é a mula, então cada um vai ter que ser um personagem! Vamos continuar!”
Espera, a tia não vai chamar atenção porque zoamos alguém? Então tá, vamos continuar. Foi essa a reação que percebi neles. 

Conforme foram aparecendo personagens cada um dizia quem era, quando notei a minha contação já estava uma verdadeira peça de teatro. Com direito a Alma penada, lutas, amigo medroso, mulinha do Gaúcho e todos interagindo de uma forma incrível enquanto eu narrava as cenas.

Sem deixar passar as imagens eu dava uma pausa e mostrava, mas eles queriam mesmo era fazer como o desenho que estava ali para parecer mais real.


Saí da mediação com gostinho de dever cumprido. Pois o sentimento de leitor estava ali na expressão de cada um deles. Mediação é isso, transformar o livro numa aventura maravilhosa a ser vivenciada.





Obra: Contos de Assombração

A sombra negra e o gaúcho valente - Argentina

Versão: Nelly Garrido

Ilustradora: Idelba Dapueto

Ano:  1987

Edição:  

Editora:  Ática




Por: Andressa Priscilla.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Desafios e Delícias da Mediação de Leitura

Reflexões dos participantes da Oficina Conte Comigo, ocorrida durante a Semana Universitária 2014 na Universidade de Brasília.

   
     A Oficina Conte Comigo, realizada durante a Semana Universitária da Universidade de Brasília, foi um sucesso. Participaram membros da comunidade universitária e externa que queriam saber um pouco mais sobre o projeto e debater os desafios e as delícias da mediação de leitura.


     Depois da dinâmica quebra-gelo, apresentação do projeto e experiência dos convidados com a leitura dialógica, tivemos um debate, afim de sabermos o que os participantes acharam da leitura dialógica que conheceram e que fazemos com as crianças.

     No debate, surgiram muitas questões. Colocamos aqui as que mais suscitaram discussão. Os pontos aqui refletem o que foi discutido e a variedade de opiniões que surgiram. 
     

O diálogo ao redor da obra de literatura: é possível? É importante?

     Foi dito pelos participantes que é fundamental  interagir com a criança e que, mais que isso, ela deve ser protagonista. Uma participante relatou que faz algo semelhante em sala de aula, com experimentos, e as crianças se sentem cientistas, descobrindo coisas novas.É importante incentivar, pois a curiosidade das crianças é instigada com situações – e palavras – diferentes. 
     A leitura dialógica possibilita essa conversa entre mediador e criança, e os participantes acharam que é possível sim colocar em prática, mesmo não sendo fácil.
     Uma participante faz Pedagogia, e o que ela pode observar na escola onde trabalha é que muitas vezes a leitura é colocada como uma obrigação, o que desmotiva grande parte das crianças.
     Quando esse diálogo existe, damos o poder de a criança falar e exprimir o que sente, experiências que teve. Aprendem a compartilhar o que pensam, exercício que deveria ser feito diariamente com as crianças, para que desde pequenas aprendessem a se expressar com essa ajuda de diálogo tão importante.


Que dificuldades são enfrentadas pelo mediador de leitura? 


     Na dinâmica para a realização da leitura dialógica na oficina, os mediadores das histórias tiveram certo receio de contá-las. Alguns dos motivos citados foram timidez e insegurança.
     Foram também citadas dificuldades em realizar a leitura dialógica, como explicar palavras que desconheciam, realizar o exercício com livro composto somente com imagens, grande quantidade de perguntas feitas pelos que escutavam as histórias, dúvidas em quais perguntas fazer sobre a história contada.
     Mas eles chegaram a conclusões como ser legal devolver o questionamento para as crianças, fazê-las pensar; improvisar, conduzir para a criatividade dos pequenos, e ser sincero sobre o que desconhece, além de explorar bem o livro antes de realizar a contação, de maneira a se preparar para possíveis questionamentos.

O mediador deve se colocar, deve opinar? 

     A dúvida “é necessário concordar com o livro?” surgiu. Algumas respostas foram as seguintes:
1 - A fantasia pode fazer parte da contação: sinta-se livre!
2 - Não dizer somente “não é assim que acontece”. Devolver o questionamento para a criança, perguntar a opinião deles sobre os fatos do livro. 
3 - Ninguém é dono da verdade, é necessário questionar, nem sempre chegar a um consenso.  Inclusive nem sempre concordar com o autor.
4 - Cada um com uma opinião, respeitar a opinião do outro é fundamental, e ensinar isso para as crianças é essencial.
5 - Mediador não deve colocar impor suas crenças para as crianças, por isso muitas vezes é legal deixar em aberto certas dúvidas surgidas.
6 - Não se impor não significa não opinar. O mediador deve ser um modelo de leitor reflexivo e, para tanto, deve compartilhar sim suas impressões e suas interações com a obra e o que a rodeia.

Leitura é entretenimento? 

     Alguém comentou que livro não é entretenimento, é questionamento, é ação de formação, com senso crítico.
     Mas surgiram também opiniões como a leitura ser um entretenimento ativo, há o prazer de ler e se envolver com a história, mas sem ser o mero "passar o tempo", sem ler apenas por ler, porque um livro exige mais. Sentir-se parte da história, se entreter e manter uma postura ativa e crítica são coisas que podem andar juntas. 
    


O que não pode faltar ao ler com as crianças? 


- Bom humor;
- Disposição;
- Imaginação;
- Paciência;
- Alimentar as questões;
- Ter cabeça aberta;
- Escutar a opinião e respeitar o que a criança acha sem impor sua crença;
- Emoção na leitura para despertar interesse.

     Além disso, realizar a leitura com prazer é fundamental. Mediadores compartilham que ler para as crianças o que gostamos, compartilhar um momento importante, estar dedicado em algo espontâneo e sincero é mais especial que fazer da leitura um espetáculo. Então sinceridade, espontaneidade e prazer em ler fazem do nosso projeto o que ele é.
     


A equipe Livros Abertos: Aqui Todos Contam! se sentiu extremamente honrada com a presença de cada um@, e deseja que quem sentiu afinidade com o projeto não deixe de fazer parte, pois esperamos a tod@s com os braços abertos!







Texto de Raylane Marina
Revisão de Eileen Pfeiffer Flores


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Primeiras Contações

Olá,
Este é o meu primeiro mês no projeto e já realizei quatro contações. A turma é relativamente pequena. Tem 24 alunos com idade entre 5 e 6 anos.
Uma das contações não ocorreu como eu havia planejado, mas com isso aprendi um pouco sobre o que é mais adequado e o que não funciona com os alunos. O palco, por exemplo, não é um bom local para realizar as contações e a quantidade de alunos por vez deve ser mínima. Talvez alguns (ou todos) saibam disso, mas eu não sabia e devido a isso tive alguns problemas para que eles prestassem atenção. Outra questão importante é o tamanho da história. Eles gostam de fantasia e aventura, mas não gostam de histórias longas.
Para não ficar somente com a contação, sempre levo alguma atividade relacionada à história. Com o livro Turma da Mônica e as cores, de Maurício de Sousa e Yara Maura Silva, levei tinta guache para que eles misturassem e vissem como as cores secundárias são formadas, também levei folhas para que desenhassem e utilizassem suas cores preferidas. Com o livro Como pegar uma estrela, de Oliver Jeffers, levei estrelas brilhantes e conversamos sobre o que gostariam de ter. Ter mais brinquedos ganhou, mas alguns gostariam de ter um pônei, um cavalo branco, uma nave…
Agora vou começar a ler para eles contos de Hans Christian Andersen. Vamos ver se eles aprovam.



Por Elioenay Melo