quarta-feira, 13 de junho de 2018

Página de um diário inacabado


No dia 1º de agosto do ano passado eu vivia uma das maiores perdas da minha vida. Praticamente no exato momento em que eu me despedia da minha mãe, em um hospital, eu recebia por mensagem via celular um convite da querida amiga Eileen Flores, que nada sabia sobre o que eu estava passando. Ela estava me convidando para substituí-la temporariamente, por três meses, na coordenação do projeto de extensão “Livros Abertos: aqui todos contam!”, do qual eu já era admiradora.

Naquele turbilhão de emoções, como é do meu feitio, encarei o convite como um presente, da Eileen e do destino. Eu não queria achar que era só uma coincidência, mas que seria uma oportunidade para me fortalecer. Dias depois conversamos pessoalmente e eu decidi abraçar a oportunidade, ciente de que não seriam dias fáceis os que eu viveria naquele momento – não pelo projeto, mas pelo meu luto.

Assumi a coordenação, substituindo quem é insubstituível, ocupando uma função sabendo que viriam resistências, comparações, mas também viria acolhimento e aprendizagem.  E foi tudo isso mesmo. Fizemos inúmeras reuniões previstas no cronograma do projeto, pensamos em pautas, recebemos convidados. Eu adiei alguns dos meus planejamentos para o grupo, não consegui visitar escolas ou realizar mediações. Planejamos e realizamos eventos diversos, incluindo a programação da Semana de Extensão e dialogamos, tanto quanto possível, sobre o que estávamos fazendo bem e o que poderíamos melhorar. Conheci inúmeras histórias infanto-juvenis, mas muitas outras das pessoas que estavam ali, toda quinta-feira ao meio-dia.

Chegou o dia, então, de me despedir. Em dezembro preparei uma mediação para a última reunião em 
que eu participaria e compartilho a poesia que escolhi, a seguir:

Sentirei Saudades

Do pátio escuro,
Do cinzento do muro
Eu sentirei saudades...

Da briga das tias,
Da alegria dos colegas,
Sentirei saudades...

Das salas arejadas,
Do quadro verde como a grama,
Sentirei saudades...

Das novas lições
E das provas bimestrais,
Sentirei saudades...
Dos lanches gostosos,
Das serventes amorosas,
Sentirei saudades...

Do Ginaldo engraçado,
Da diretora alegre,
Do apoio pedagógico,
Sentirei saudades...

Da secretária amiga,
Das horas cívicas bonitas,
Sentirei saudades...

Se eu me esqueci de alguém,
Desculpe-me...
Mas de tudo sentirei saudades.

Após a leitura, perguntei: por quem essa poesia parece ter sido escrita?

Vários extensionistas, para minha surpresa, tiveram a impressão de que ela teria sido escrita por uma pessoa adulta ou idosa, lembrando-se de uma escola da qual havia se despedido em algum momento de sua vida.

Por que me surpreendi? Porque essa poesia foi escrita por uma criança, aos dez anos de idade, quando se despedia da escola em que havia estudado por cinco anos (da antiga pré-escola à 4ª série do ensino fundamental).

Conversamos um pouco e revelei ao grupo que essa “criança-autora” ou “criança-poetisa”, havia sido... eu!

E então, como toda mediação literária, veio o mais interessante. Eu compartilhei o quanto esta poesia foi importante para mim, acredito que como forma de lidar com as dificuldades de mudança de escola que eu vivia no momento, mas também como elaboração escrita. Lembro-me o quanto ela foi valorizada na escola, na minha família. Essa primeira produção poética me fez acreditar que eu podia me atrever com as palavras escritas e ela me levou adiante. Enfatizei o que o trabalho dos mediadores do projeto podem estar possibilitando para inúmeras crianças e adolescentes, mesmo sem que percebam este alcance.

Conversamos um pouco mais também sobre os estilos diversos de escrita. Como é difícil conciliar esse gosto ou facilidade por escrever poeticamente, ou em prosa, ou em crônica, quando estamos na academia e somos chamados a responder a partir da literatura científica, técnica. Um eterno dilema, uma luta diária que travo comigo mesma.

Perguntaram se eu ainda escrevo poesias. Fiquei envergonhada! Sim, ainda escrevo, muito timidamente, em relação à quantidade e divulgação. Acredito que transferi minha experiência poética para o interesse em relação à brincadeira infantil, atividade que me apaixona e que não me deixou amarras quanto à timidez. Sou capaz de teorizar, estudar, observar a brincadeira e ainda brincar! 

Nesta reunião eu agradeci a oportunidade de ter estado com o grupo naquele semestre tão difícil. Tive certeza de que a coordenação não foi um trabalho a mais diante do luto, mas foi um dos elementos que me tirou da possibilidade de me ver vencida pela dor que eu sentia.

Em reunião posterior com a Eileen eu compartilhei com ela um pouco de tudo isso e pedi para ficar, de alguma forma. Assim, estou aqui, neste momento, cumprindo a promessa de escrever este texto para o Blog e acompanhando, ainda que de longe, graças à tecnologia, discussões, organizações, movimentos de resistência e beleza.

Semestre que vem me reaproximarei.

Obrigada, Eileen! Obrigada, Livros Abertos!

Vocês me ajudaram a lidar com uma saudade sem fim.

P.S. 1- A Poesia foi escrita quando eu ainda me chamava Gabriela Sousa de Melo
P.S. 2 – Eu ainda tenho o original, escrita com minha letra cursiva e um desenho de coração ao fundo.

Escrito por Gabriela Sousa de Melo Mieto





sexta-feira, 1 de junho de 2018

Sobre retalhos, histórias e afeto

Minha mãe não me deu meu nome, Alice, assim, sem mais nem menos. Criou-me só, e em nosso País, as Maravilhas eram as Histórias que eu encontrava em cada canto de nosso pequeno apartamento. Mamei ouvindo cantigas misteriosas sobre um lugar chamado Roça e um Papão que rondava, mas minha mãe estava ali, bem do meu ladinho, ainda bem. Engatinhei rodeando pilhas de livros e revistas e um dia descobri que tinha força para derrubar aquelas torres cambaleantes, que se esparramavam em um fascinante leque arco-íris.

Ilustração de John Tenniel

Todas as noites, um ritual: a colcha de retalhos, que eu queria comigo, mesmo quando fazia calor. No começo era a voz. Ritmo que acalenta, música das músicas, histórias sem palavras. Ao longo dos anos, a música foi ganhando letra: bruxas, fadas, dragões, navios em viagens perigosas. Espelhos mágicos, pássaros falantes, palácios de açúcar. Macacos espertos, onças egoístas, amores impossíveis. O caminho que dá medo, a ajuda de quem menos esperamos, a coragem de continuar.

Um dia, fiz minha primeira aventura solo pela floresta densa que circundava nosso mundo. Tinha medo, claro, das bruxas e dos ogros que poderiam estar à espreita, mas também tinha a pedra mágica que minha mãe havia me dado, para o caso de eu precisar. Por isso não chorei quando, com uma mão segura pela cuidadora da creche e a outra envolvendo firmemente meu talismã, vi minha mãe se afastando e olhando para trás de vez em quando, com um sorriso encorajador que hoje não sei se era só para mim ou também para ela.

O tempo passou, da creche passei a ir à escola. Os dias passavam depressa no redemoinho de cadernos, areia, lápis de cor, as letras da cartilha, bola de meia e amarelinha. Fiz muitos amigos, mas não ouvi muitas histórias. O recreio era curto, nossas fantasias não cabiam nele, quando nosso mundo estava ficando bom, tocava o sinal e voltávamos para um deserto. Palavras sedentas nos imploravam pela água do sentido, mas só nos era permitido repetir seu nome, e elas secavam até morrer.

Minha mãe chegava para me buscar com o olhar um pouco perdido, me abraçava cansada e íamos para casa fazer a janta e preparar tudo para o dia seguinte. Eu ainda era pequena, mas ajudava em tudo que minha idade permitisse para terminarmos logo as tarefas e podermos, juntas, continuar lendo “nosso livro”. Líamos juntas um conto indígena, um mito grego ou uma lenda africana. Poemas, crônicas, um capítulo de algum romance “ainda muito difícil para você” (mas eu não me importava, achava até bom sentir que não entendia tudo, que leituras e releituras me revelariam novos segredos).

Mas nossas mil e uma noites não estavam salvando minha mãe dos monstros do dia-a-dia. Cada noite, via seu olhar mais velado, mais cansado. De um capítulo, passamos para algumas páginas, de algumas páginas a algumas linhas. Até que uma noite, minha mãe adormeceu no sofá antes de nossa sessão de histórias. Cobri-a com minha velha colcha e abracei-a com força, cantando baixinho uma de nossas cantigas. Contei-lhe uma história que começava num lugar encantado, sobre uma rainha que criava uma filha só, entrelaçando histórias em seus cabelos, dando-lhe forças para enfrentar o mundo. Um leve sorriso se desenhou em seus lábios. Murmurou algo que não entendi bem, sem acordar, mas parecendo mais tranquila. Ajeitei sua colcha, dei-lhe um beijo na testa e fui dormir. 

Para todas as mães e filhas contadoras de histórias.


Escrito por Eileen Pfeiffer

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Rodas dialógicas com jovens surdos: relatos de uma mediadora de leitura.




                Ok, sejamos francas: eu não entrei no Livros Abertos pensando em contar para adultos, minha vontade mesmo era estar junto das crianças. Mas aceitei o desafio e acabei parando no grupo de mediadores da Educação de Jovens e Adultos. Já na primeira visita à escola, outro desafio: mediação com jovens surdos. E por duas novatas que não sabem Libras. Vish, será que vai dar certo?
                Se você leu esse post aqui viu que isso não era exatamente uma novidade para o projeto. Ana Paula e Raphaella já haviam tido uma experiência no semestre passado e nos garantiram: “É ótimo! Eles adoram! Eles vão nos ajudando na comunicação!”. 
                Ainda assim, a insegurança batia forte, enquanto tentava convencer a mim mesma: “Vai ser uma experiência única, vou aprender pra caramba!”. Era o que eu repetia toda vez que alguém me perguntava: “E aí?”.
                Na primeira semana, levamos a Rapha com a gente e lemos Ana, Guto e o Gato Dançarino. Contávamos com uma professora intérprete. Mas saí de lá com um sentimento estranho, “É... foi legal... mas eles não participaram muito”. Ainda estávamos nos conhecendo.
                No segundo encontro, levamos O Pato, a Morte e a Tulipa, que eu e Tauane estávamos namorando há semanas. Aí eu pude perceber a diferença de se mediar um livro que você leu e releu, observou cada detalhe e se permitiu sentir. Foi realmente uma experiência diferente, a nossa conexão com a obra favoreceu a nossa conexão com os estudantes e deles também com a própria história. Podia ver eles engolindo seco (SPOILER) com a aproximação da morte do nosso amigo.
                Apesar de ter saído com a sensação de dever cumprido, por algum motivo não estava totalmente convencida. Não estava empolgada, como gostaria de estar.  Ao me perguntar o que estava me impedindo de me conectar verdadeiramente com essa experiência, logo respondia: “Ah, mas é porque a gente perde muito, tem um obstáculo na nossa comunicação, eu não sei LIBRAS”, “Sempre se perde algo na interpretação”, “Nosso diálogo não é fluido”.
                Pois bem, no encontro seguinte decidimos fazer algo totalmente diferente. Levamos um livro só de imagens (lindíssimo, por sinal, vale a pena conferir as imagens oníricas deste belíssimo livro-álbum):  A Bruxa e o Espantalho. Digitalizamos, preparamos um apresentação de slides e sugerimos: “Vamos construir juntos essa história?”.
E não poderia ter sido melhor! Eles super toparam, participaram, se empolgaram. Fluiu, foi natural. A imagem nos uniu, porque ela é uma linguagem que compartilhamos, ao contrário do Português e e de Libras, que apenas eram compreendidos por um ou outro dos lados. 
Era incrível como eles percebiam cada detalhe, um dos alunos inclusive se levantou várias vezes, para mostrar algo que havia observado. Todos nos divertimos muito, mediadoras, estudantes de EJA e professoras.
Detalhe de A Bruxa e o Espantalho, de Gabriel Pacheco.
Essa foi para mim uma noite muito especial. Foi quando eu confirmei que a leitura dialógica não tem limites. Basta que se esteja verdadeiramente aberta ao diálogo (perdoem-me a repetição, mas não há qualquer sinônimo à altura), buscando livrar-se de julgamentos e permitindo-se estar presente. 
É claro que as dificuldades surgem, assim como os incômodos, principalmente nas primeira experiências, mas se eu posso te dar um conselho, não tente afastar essas dificuldades à força, elas se vão naturalmente à medida que você conhece o seu grupo.
Agora, cá estou com o coração partido porque só voltarei a vê-los daqui um mês.  


Escrito por Júlia Di Flora


FICHAS TÉCNICAS DOS LIVROS CITADOS: 
Ana, Guto e o Gato Dançarino
autor: Stephen Michael King
ilustrador: Stephen Michael King
tradutora: Gilda de Aquino
editora: Brinque-book
ano de edição: 2004

O pato, a Morte e a Tulipa
autor: Wolf Erlbruch
ilustrador: Wolf Erlbruch
tradutor: José Marcos Macedo
editora: Cosacnaify
ano de edição: 2009

A Bruxa e o Espantalho
autor: Gabriel Pacheco
ilustrador: Gabriel Pacheco
editora: Jujuba
ano de edição: 2013

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Liberdade para Voar



“Tom tem o olhar parado no tempo”. É sob a perspectiva do irmão de Tom que somos convidados a compartilhar sua história. Uma história sobre reaprender a conhecer as pessoas que nos cercam. Sobre nos tirar do centro da narrativa de todas as histórias e perceber o outro a partir das suas experiências. O irmão de Tom talvez desconheça o que o torna tão diferente de si, talvez ninguém se incomode em explicar ou talvez não saibam também. Mas Tom vive em seu próprio mundo. Isso faz com que seu irmão se sinta confuso, sem saber o que fazer, com o coração calado”.
E o coração calado do irmão de Tom faz com que o nosso se cale também. Que fique pequenininho, apertado, partido. Porque, muitas vezes, quando temos alguém diferente, especial em nossas vidas, acabamos dando maior atenção a esse alguém e esquecendo que todos são especiais ao seu modo. E acabamos ignorando que todos precisam de atenção, todos precisam compartilhar momentos e histórias. E o irmão de Tom queria compartilhar aventuras, brincadeiras, sentimentos com Tom. Mesmo sem saber como. Ao longo da história desses dois irmãos percebemos a separação que existe entre eles. Uma separação emocional, afetiva. A vida acontece e Tom parece não percebe, acredita seu irmão. Só fica parado observando pássaros voando.
Enquanto toda a família é desenhada com traços mais humanos e com cores fortes, Tom é desenhado de forma peculiar, vazio, translucido, sem cores. Seus olhos são os olhos coloridos dos pássaros que ele tanto ama observar. Enquanto o gato da família tem traços realistas, os pássaros de Tom são traçados tais como origamis, dos mais diversos e coloridos.
O irmão de Tom se pergunta como alcançá-lo, como conversar com ele, entende-lo: “Onde será que Tom guarda todos os seus sonhos?”. Até que ele acompanha o irmão em seu amor pelos pássaros e percebe que ele tem sim uma vida própria, brincadeiras e sentimentos e isso acalenta seu coração. Só então, ele sente o som que vem do seu peito. Como se o mundo agora fizesse sentido e fosse possível sorrir e senti-lo.
É muito difícil quando temos que sair da nossa zona de conforto e nos aventurar nas experiências alheias. E aos nossos olhos, essas experiencias, por vezes, parecem confusas, sem significado, sem importância. Quando conseguimos diminuir os sons dos desconfortos que ecoam em nossas cabeças, conseguimos aproveitar as oportunidades de reaprender a enxergar o outro e, com isso, nos redescobrir também. Redescobrir nossos limites e potenciais, nossos sonhos. E você? Onde você guarda os seus sonhos? Já pensou em redescobri-los hoje?

Ficha técnica
Tom
Escritor: André Neves
Ilustrador: André Neves
Editora: Projeto
Ano de edição: 2012

Postagem escrita por Raphaella Christine Souza Caldas.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Um (querido e especial) diário do contador


            O fantástico da vida é saber que você sempre pode se surpreender. E fui surpreendida muitas vezes nesses 8 meses que estou como mediadora no Projeto de Extensão Livros Abertos, da Universidade de Brasília. Quando comecei a ler e ouvir falar sobre o projeto, fiquei encantada. Leitora voraz, não é de se espantar que a ideia de ler para crianças me inspirasse tanto. E não deveria ser nada de outro mundo, afinal, ler livros de crianças para crianças? Nada de novo no front, correto? Errado.
            A vida tem daqueles momentos em que estar errado é completamente deslumbrante. Minha experiência no Livros Abertos é repleta desses momentos. Isso porque me permite pensar em três questões: o tipo de leitura, a importância das ilustrações nos livros e o público-alvo das publicações.
Minha experiência prévia em leitura me ensinou que ler é simples. Você só precisa acompanhar o que está escrito no livro, dar umas entonaçõezinhas diferenciadas para cada personagem e a fórmula está completa. Mas o projeto me apresentou um outro tipo de leitura, a dialógica. Eu poderia falar aqui sobre esse tipo de leitura, seus fundamentos e estratégias, mas não é o meu foco neste momento, embora acredite que algumas coisas devam ser ditas.
A leitura dialógica é um novo fôlego nesse nosso modelo educacional extremamente falho. Permite que a criança saia dessa posição cristalizada de quem não tem nada a oferecer no processo de ensino-aprendizagem. Possibilita momentos de liberdade, criatividade, aprendizagem e autonomia. E isso tudo é extremamente necessário neste nosso mundo conturbado e quadradinho.
Sobre as ilustrações... Ahhh, as ilustrações (insira aqui um olhar apaixonado, que é exatamente como me sinto hoje com relação as ilustrações) têm todo um atrativo à parte. Desde criança eu sempre achei que elas fossem inúteis, puramente uma distração. Quanto menos imagem, melhor eu achava que o livro era... Afinal, bom mesmo é livro de adulto. Com o Livros Abertos eu descobri que as ilustrações podem contar muito mais do que as palavras escritas nas páginas de um livro. Podem dar novos significados a essas palavras, aos eventos, aos personagens. Há todo um universo a ser descoberto nas imagens (o Vira-Lata, de Stephen King, é um claro exemplo sobre a importância das ilustrações para uma história).

(Vira-lata, Stephen Michael King)

Por fim (embora seja, na verdade, o começo de novas possibilidades), acho importante falar sobre a ideia clássica de que literatura infanto-juvenil se trata apenas de livros de crianças. Aprendi com o Livros Abertos (e continuo aprendendo) que os limites de um livro são infinitos. Há uns 2 meses a mediadora Ana Paula me fez um convite inusitado e acabei aceitando. Começamos, então, a fazer mediações de leitura com turmas do Ensino de Jovens e Adultos. Um público adulto e idoso em processo de alfabetização.
Começamos um tanto quanto receosas. E os adultos e idosos também, afinal, leitura de “livros de crianças” para adultos não parecia ser útil. Passei por momentos iniciais de dúvidas achando que talvez os livros escolhidos para mediação fossem infantis demais para aquele público. E a vida me trouxe uma nova surpresa. As pessoas realmente estavam participando, estavam trazendo suas histórias de vida para a roda de leitura. Estavam nos mostrando que aqueles que se dispõem a ensinar também têm muito a aprender.
O conteúdo riquíssimo que cada contação produzia, a receptividade do público quando começaram a entender a proposta, o engajamento... Tudo nos mostrava como a literatura infanto-juvenil é indicada para todas as idades. E então pensamos: "Até onde vai nossa coragem em desbravar a mediação de leitura com outros públicos?". E assim chegamos numa turma de surdos. E foi uma das experiências mais incríveis que eu já tive oportunidade de vivenciar (e que pode ser vista no instagram do projeto, @livros.abertos). Fizemos a mediação com a tradução da professora de libras e percebemos que a leitura não tem limites e que a gente sempre pode aprender com as experiências dos outros.
As contribuições da leitura dialógica PARA PESSOAS DE TODAS AS IDADES estão lá: claras, gritantes. Basta apenas se permitir conhecer novas possibilidades. Proporcionar espaço nos quais as pessoas possam trocar conhecimentos e experiências... Permitir que seja possível não apenas ler uma história, mas ampliá-la, vivenciá-la. E vocês? Já redescobriram um livro hoje?


 (Os livros são conversações, ilustração de José Rosero, 2013)

Escrito por: Raphaella Christine

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Cultivando nosso jardim

Um lugar confortável, um cheiro de nostalgia...

Nossas relações com nossos avós nem sempre são esse mar de rosas... brigas, olhares atravessados... Hoje venho compartilhar uma doce contação que tive com as crianças este mês.

O livro chama-se Vovô Verde, escrito e ilustrado por Lane Smith. O livro narra de maneira muito bonita a vida do bisavó de nosso pequeno narrador, na verdade, é o jardim que narra esta história através das árvores podadas. Assim, descobrimos que este vovô nasceu há muito tempo "antes dos computadores, dos celulares e até da televisão", pegou catapora aos 5, morou numa fazenda... deu seu primeiro beijo no ensino fundamental.

Além de muito afetivo, este livro de Lane é lindamente ilustrado, chama os leitores a investigar as páginas e cada detalhe.

Lane Smith nos convida a revisitar as histórias de nossas próprias famílias, o que as crianças sabem sobre seus bisavôs e bisavós? E o que conhecem sobre seus avós? Recheada de afeto, conversamos sobre a escolha de nossos nomes, como nossos pais se conheceram e contos e causos que só as gerações que vieram antes de nós sabem contar.

Esta é uma obra muito interessante para resgatar o passado de nossas famílias, reavivar os afetos e laços e conversar sobre o processo de envelhecimento... "Ele [o vovô] sempre se lembrava de tudo. Agora está muito velhinho e às vezes se esquece das coisas, como seu chapéu preferido. Mas as coisas mais importantes, o jardim lembra por ele".

Diante dessa bela provocação eu perguntei o que as crianças colocariam em seu jardim de memórias... E olha que belos jardins pudemos contemplar!

Witória não foi a única a declarar amor a sua família!

 O jardim de Gabi teria que ser beeeeem grande para caber todas as árvores que podaria para as pessoas que ama!

O Jardim de Malu seria grande para caber todas suas amigas!


Para seu jardim, Giovana cultiva memórias, frutos e flores <3




Bruno disse que nunca vai esquecer aquela goleada de Barça, que ele viu na Espanha!
3x0! "Não é, brinquedo não!"
No jardim de Gael, há um cantinho especial para seu super-herói favorito.

No de Emilly, sua igreja. 



Maria Eduarda deixa em seu jardim um presente especial, de uma pessoa muito especial. 

O jardim de Pedro ainda estava em construção, sabe como é, reformando e podando uma réplica da casa de sua avó, um lugar de memórias, doces e brincadeiras.

Antes de encerrar essa matéria queria colocar aqui uma homenagem, uma flor que tenho no meu jardim. Enquanto escrevia o relato recebi a mensagem da professora Nailda dizendo que ela estava em processo de aposentadoria. Ela desde sempre foi parceira de nosso projeto, e há mais de um ano e meio vínhamos trabalhado lado-a-lado. Pelas aventuras, doce memórias e livros que compartilhamos, cultivo essa flor em meu jardim.





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Homenagem às gerações passadas

Nós sentimos um misto de tristeza e alegria quando um mediador se forma e parte em busca de novas aventuras... Hoje, com lágrimas nos olhos mas com o coração tranquilo, homenageamos os ex-mediadores e todas aquelas pessoas especiais que fizeram parte de nossa história!

Desde 2011, histórias foram tecidas e se somaram ao Livros Abertos, cada trama, cada nó, cada erro e acerto veio somando ao longo dos anos e criando uma equipe que não pára de crescer.



Aos nossos antigos mediadores, nosso agradecimento amoroso... pelas maravilhosas contações, inspiradoras experiências. Ao longo de um semestre - e em muitos casos muuuitos semestres - tivemos a oportunidade de conhecê-los e compartilhar sua percepção única sobre o mundo e sobre as relações escolares.




Somos gratos as amizades que ficaram...




Somos gratos pelos livros que foram indicados por vocês e hoje moram em nossas estantes e em nossas memórias.

Somos gratos pelos segredos que compartilhamos nos bastidores de nossas contações... aqueles que ficaram guardados a sete chaves... mas agradecemos também àqueles que eles foram compartilhado entre risos e lágrimas.


Mas por que passar tanta saudade? Fomos atrás de alguns dos mediadores que já saíram do projeto para matar as saudades! Será que eles se lembram de nós?


Amor e agradecimento foi o que recebemos de Raquel Freire
"O Livros Abertos foi incrivelmente especial! O difícil é que eu queria dizer isso de um jeito que pudesse de fato mostrar toda a gratidão que tenho pelo projeto, e quando digo projeto quero dizer tudo dele! Os grandes amigos que fiz, a Eileen maravilhosa, as crianças, as contações, os professores, as oficinas, as experiências, os livros...é um projeto que amo e que fez toda a diferença na minha graduação (afinal fiquei lá desde o terceiro semestre e me formei em 6 anos hahahah) e na vida  De minhas lembranças, as que tive no livros abertos estão na minha memória e no coração com um carinho imenso! Meus olhos até enchem de lágrimas (felizes) ao recordar delas! Bem é isso, sem muito floreios mas com muito amor."

Pedimos para Raquel compartilhar uma experiência de contação que foi marcante e olha só o que lembramos...
" uma contação que me veio agora e foi inesquecível foi quando as crianças estavam pedindo histórias de terror e eu não estava mais achando livros e decidi escrever uma para elas...não foi uma grande história, mas compartilhar com elas esse momento, a surpresa e alegria delas, também a possibilidade de criar foi algo incrível. Essa foi especial e mais concreta, mas toda contação trazia isso, um espaço para compartilhar uma história que por mais que já fosse conhecida se tornava única naquele momento".


A possibilidade de criar com liberdade foi lembrada também por Joao Bosco, ao falar sobre uma contação que fez história...
''Uma experiência marcante na contação foi quando eu trouxe um livro chamado “Aventuras na Serra do Mar” que era um livro sobre 4 garotos que fazem uma trilha de aventura pela serra encarando desafios da floresta. Eu mostrei para os alunos as aventuras que eu já tinha passado por fazer parte do Clube de Desbravadores, no qual o livro era inspirado. Falávamos de acampamento, de escalada, eu levei uma barraca de acampamento e a gente fazia as contações dentro dela, tudo para trazer os estudantes mais perto do que as personagens no livro passaram. Foi certamente uma das contações mais movimentadas que tivemos."

O projeto de extensão Livros Abertos também marcou muito a vida acadêmica de muitos mediadores, construindo novos sentidos e novas perspectivas, este foi o caso de Joao Bosco, vamos conferir como foi para ele entrar no projeto?
"O Projeto Livros Abertos surgiu para mim no fim do ano de 2014. Na época, eu era aluno do UnB Idiomas e fazia meu segundo semestre de francês. Não estava sendo muito produtivo nas aulas e estava insatisfeito com o curso e minha falta de progresso. Andressa, minha parceira no crime, - ainda mediadora do projeto -  me convidou para fazer parte do projeto que a amiga dela era participante e sugeriu de eu largar asa aulas de francês. Confiando nela e somando meu desanimo com o curso de línguas larguei tudo e fui na reunião do projeto.

Depois de formalmente inscrito, a primeira sensação que vem a memória é a de estar deslocado. Claramente a minha falta de experiencia fazia com que eu fosse nas reuniões mas ficasse calado por maior parte do tempo. Ambientação é sempre um desafio para o “novato”.

Eu me lembro de ir na escola e ser designado nos últimos meses de aula do ano a turma do segundo ano. Ela era pequena então eu ficava sozinho nela. Foi um desafio do qual eu me julgava extremamente incompetente para lidar, e por muitas vezes achei que eu estava fazendo tudo errado e que a proposta do projeto era impossível para eu desenvolver. 


O ano findou e vieram as férias. No ano seguinte, Andressa me renovou o convite e seria uma covardia deixar o projeto assim tão no início. Sabia que deveria primeiro ter um experiência mais sólida para decidir se ficava ou não".

Ai, Joao! E aí, como foi no ano seguinte?
"Ao começar o ano de 2015, o tempo de pratica, as reuniões com os mediadores, e o tempo passado na presença da nossa professora coordenadora, o interesse, o empenho, o conhecimento e a paixão pelas atividades do projeto cresceram. É excelente para qualquer ser humano encontrar um lugar onde ele é respeitado por aquilo que faz, e suas considerações são ouvidas e rebatidas com respeito e amizade. E foi exatamente nesse meio que eu me encontrava.

Constantemente desafiado a pensar as posições que tinha, uma atitude cooperativa para com os meus amigos que fiz no projeto onde era possível falar com absoluta franqueza e saber que haveria sempre o respeito e uma piada pronta para qualquer ocasião. Porque se há uma coisa que os membros do projeto tinham em comum era a alegria e a disposição para uma boa festa.

As contações na escola ficaram mais leves e mais fluídas, pois agora eu tinha certeza do que eu fazia, e não mais ficava paranoico se estava dando tudo certo como manda o script. Trabalho com pessoas, ainda mais crianças, raramente se consegue manter no planejado. Então eu traçava um objetivo final e deixava o entusiasmo das crianças e a fluidez da leitura me deixar lá."


Joao nos lembrou também de outros trabalhos que fazemos no projeto e que foram marcantes para ele:
"O propósito do projeto era muito bonito e deu tanto certo que começamos a receber convites para oficinas em outras escolas. E o que fizemos? Festa! Porque nada era mais divertido, e como eu me divertia, do que ir em outros lugares e levar, demonstrar o que a gente fazia lá dentro da universidade. Afinal não é esse o propósito da extensão universitária? De se conectar com a comunidade e fazer algo em prol dela? 

A mim ficou a responsabilidade de fazer as apresentações do projeto. Das oficinas, da semana universitária, a Eileen confiava que eu traduziria em palavras e imagens, tudo o que o projeto representava. E eu aproveitei mesmo essa liberdade para cantar, para dançar, para falar e demonstrar que o fundamento do nosso projeto está na alegria em incentivar a leitura, como um prazer que se conquista come esforço e persistência, e não somente um prazer por si só, fácil de ser alcançado. 

O blog - OLHA A GENTE AQUI <3 -, é uma ferramenta utilizada pelo projeto também para externalizar para os leitores nossas experiencias e colocar em palavras aquilo que sentíamos ou experimentávamos. Já escrevemos de quase tudo, quando os alunos dizem para a gente: “Nossa tio, você tem voz de travesti”, ou “Tia, meu pai tá na cadeia” e o que era mais ouvido “Eu sou MC Lepo Lepo”. Das coisas boas e ruins que já ouvimos tudo encarando com muita seriedade, mas sempre alegres, porque era nossa oportunidade de trazer a leitura mais próximo das crianças e mostrar que um livro pode conter respostas para as perguntas mais loucas que podemos formular."

A saída do projeto... assim como o final deste texto nos deixa um gostinho de quero-mais!
Convocamos todos os ex-mediadores para um abraço virtual e uma roda de conversa, para nos recordamos de nossas aventuras juntas!

Topam o convite?
Com carinho, Equipe Livros Abertos - AQUI TODOS CONTAM!








quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Leitura dialógica e temas difíceis

Hoje (06/09/2017), estivemos na Universidade Católica de Brasília, para uma oficina muito especial, no Seminário de Psicologia e sofrimento contemporâneo.


Como conversar com as crianças sobre temas difíceis e sensíveis como morte, luto, adoecimento, violência sexual, preconceito, identidade sexual e de gênero, suicídio?

Pensando em sensibilizar os participantes inscritos a repensar a literatura como um espaço de reflexão e a leitura dialógica como método para conversar sobre temas difíceis, nossa oficina contou com leitura de imagens...



e rodas de contação!






Foi uma manhã rica em afetos, provocações e discussões. Os olhares múltiplos e vivências únicas de cada participante teceram novas percepções e insights, nesta trama de aprendizado e co-construção.

Agradecemos a coordenação do Curso de Psicologia da Universidade Católica de Brasília que nos convidou o projeto Livros Abertos para esta parceria.  

Além disso, agradecemos, especialmente, aos participantes da oficina, que nos enriqueceram com suas histórias e sua entrega!


Aqui tod@s contam!


Ficou curioso?
Confira algumas matérias de nosso blog sobre mediação de leitura com temas difíceis.
1) O acervo indica: Edição Especial Temas Difíceis
http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2016/12/o-acervo-indica-edicao-especial-temas.html
2) Dica de Leitura: Sete minutos depois da meia noite
http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2017/04/dica-de-leitura-sete-minutos-depois-da.html
3) Bolsa Amarela de Lygia Bojunga
http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2015/11/a-bolsa-amarela-de-lygia-bojunga.html

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O mágico de Oz de L. Frank Baum

O último ano foi muito curioso. Me peguei lendo alguns dos clássicos da literatura infantil. Crônicas de Nárnia, Hobbit, A fantástica fábrica de chocolate, O mágico de Oz... Me surpreendi. Positivamente.

Peço licença para compartilhar minhas impressões. Preparem os sapatos de prata para não perder seu caminho.  Hoje é o dia de O mágico de Oz.

http://3.bp.blogspot.com/-Af_7fKcpwHk/TqSX4V_xphI/AAAAAAAANh4/BAvRhoBWJZc/s400/WizardOfOz_214Pyxurz.jpg

Escrito pelo L. Frank Baum em 1900, este é um livro que marcou gerações e marcou profundamente memórias. O mágico de Oz é o primeiro de uma série de 14 livros,  uma obra icônica. Mais do que um clássico, ou um conto de fadas, esta história é um símbolo consolidado da cultura pop. Desde seu lançamento, foi adaptado diversas vezes para o cinema. Além disso, encontram-se com facilidade diversas referências ao universo e aos personagens de Oz em diversas outras obras.

http://payload363.cargocollective.com/1/6/203309/9568984/oz_1000-copy_11_1000.png
É difícil encontrar alguém que não conhece a história de Dorothy, ou do ciclone que levou sua casa, ela e Totó para uma terra misteriosa. "Não estamos mais em Kansas!". Muitos já sabem que, para voltar para casa, ela procura por um poderoso mágico que mora em uma cidade misteriosa. Segue assim por um caminho de tijolos amarelos na companhia de um leão que deseja ter coragem, um homem de lata que deseja ter um coração e um espantalho que quer ter um cérebro, ao invés de palha seca.

Muitos já conhecem essa história e podem estar se perguntando se vale a pena ler o livro e qual a graça que você poderia encontrar na leitura do deste livro.  E parafraseando Lisbela - e uma pá de outras pessoas por aí - a graça não está em saber o que acontece... mas como acontece e quando acontece.

O que mais me encanta na escrita de Baum é jeito de criar imagens. Muitas vezes, o estado afetivo de um personagem se confunde ou se propaga para o que está ao seu redor. Assim, o humor de tia Em é acinzentado assim como suas roupas, sua casa, sua pele e seus olhos. "[...] ela também foi modificada pelo sol e pelo vento, que apagaram a centelha que existiam em seus olhos [...] Desbotaram o rubor das suas faces e dos seus lábios, que também ficaram cinzas. Era magra e seca, e não sorria mais". Em Oz, o acinzentado da vida dura e infértil que Dorothy conhecia no Kansas se colore. A terra de Oz brilha em cores vivas. o caminho de tijolos amarelos leva à cidade de Esmeralda, onde as cores das flores são intensas e hipnóticas, os frutos grandes e suculentos.

http://4.bp.blogspot.com/-Wizard_of_oz.jpg
A narrativa é composta por paradoxos e contrastes que geram uma tensão entre as realidades subjetivas de cada personagem e a realidade objetiva que é compar-tilhada por eles. Por que um leão que se arrisca para salvar os outros, ruge alto, se coloca na linha de frente e se voluntaria para lutar, mas se diz covarde e deseja ter coragem? Por que um homem de lata que se preocupa, e chora tanto pelas injustiças e maus atos, diz que não sente nada e deseja ter um coração? Ou por que o mais criativo e engenhoso dos personagens se diz burro e deseja um cérebro?  Por que Dorothy quer voltar tanto para sua casa cinza e dura? O autor é perspicaz e nos mostra que, às vezes, o que mais desejamos está embaixo de nosso nariz - ou nos nossos pés.

Os desafios que Dorothy e seus amigos enfrentam vêm sob medida para testar sua persistência, sua coragem, sua empatia e sua inteligência. O que nos faz pensar que, às vezes, são os desafios da vida que nos permitem nos confrontarmos com nossas maiores qualidades.

É interessante ver como a relação entre os personagens vai se desenvolvendo e se intensificando - alguns podem se chocar com a facilidade de alguns dos companheiros de viagem deixar para trás alguém que se atrapalha para remar ou que dorme no jardim de papoulas (capítulo O campo das papoulas da morte). Mas se despedir de alguém vai se tornando mais difícil conforme vamos conhecendo melhor os personagens.  Ao longo de suas aventuras, eles vão descobrindo que há uma diferença entre fazer uma jornada com outras pessoas e fazer uma jornada juntos.

Nossa convite de hoje é:  leiam este conto moderno e compartilhem conosco o que vocês acharam de mais bonito nessa obra ;D

Ficha técnica
O mágico de Oz
Escritor: L. Frank Baum
Ilustrador: W. W. Denslow
Tradutor: Sergio Flaksman
Editora: Zahar
Ano de edição: 2013

terça-feira, 25 de julho de 2017

Confessionário

Vamos falar sobre nossos maiores defeitos enquanto mediadores? Este texto é para você, especialmente para você, aquele que não deixou de ser um simples e mero humano apesar de ter se tornado mediador.

Por mais vergonhoso que seja admitir, nós mediadores cometemos erros – vergonhosos, escabrosos e cabeludos. Daquele tipo de erro que nos deixa até envergonhados de escrever no diário e coramos para nós mesmos na frente do espelho. Hoje, trago uma coletânea dos deslizes mais comuns entre os mediadores.

Antes de mais nada, queria ressaltar que desses pequenos – às vezes grandes – deslizes, os mediadores mais experientes não estão vacinados.
Então...

OPS!
Nessa categoria, há os deslizes mais comuns na vida de um mediador – que não queremos que nossa coordenadora saiba – mas Eileen, ops!

1) Ops-Esqueci que tinha mediação hoje. Às vezes, o despertador não toca, a rotina muda inesperadamente e ops!

2) Ops-Escolhi o livro de última hora e deu ruim. Já aconteceu comigo e provavelmente já aconteceu com você... Um dia escolhemos o livro de última hora – tipo 5 minutos antes da contação. Ou mais vergonhoso, até escolhemos o livro antes, mas não o lemos  com antecedência e chegamos na contação com um enorme de um kinder-ovo.

Não sabemos que intervenções fazer nem o que perguntar... Eita, e quando é livro rimado? Falta prosódia, ritmo e musicalidade. Vejo que esse tipo de erro causa tanta vergonha que é extinto depois de uma ou duas vezes.


3) Ops-Eu segui ao pé da letra as dicas de alguém e fiz perguntas em todas as páginas e uma criança gritou para mim: PÁRA DE PERGUNTAR, TIA, EU QUERO OUVIR A HISTÓRIA! É... temperança é uma virtude trabalhosa, mas desejada aos mediadores.

4) Ops-Eu fiz uma contação no automático... Esta é escandalosa! Estou até com vergonha de escrever. Em dias cansativos, engatamos no automático e narramos simplesmente a história. O maior do pecados é quando deixamos escapar um “qual a moral da história?

5) E o clássico...  Ops-até hoje não aprendi o nome das crianças... nem da professora. SEM COMENTÁRIOS!

NÃO REGISTRAMOS!


O maior deslize que cometemos é que simplesmente não compartilhamos e divulgamos a Leitura Dialógica do jeito que ela merece. Não fazemos bom uso de nossas ferramentas, como este blog. As melhores experiências muitas vezes não chegam até aqui por que não fazemos registro delas. Essa é hora de nossos leitores darem um grito e brigarem conosco.
Vocês e a LD merecem o melhor de nós.

CIÚMES e POSSESSIVIDADE



O ciúmes patológico é frequente em três situações:

1) Em um dia ensolarado, você fez uma contação perfeita: o livro perfeito, as intervenções perfeitas com as crianças perfeitas, tudo se encaixou. A experiência foi tão única, tão soberba que você quer manter ela só para você. E você quer atear fogo na pessoa que ousar fazer mediação desse livro, principalmente por que ela pode fazer uma contação melhor do que você...

2) Um dia você encontra, na estante de um sebo/livraria aquele livro, aquele livro especial que foi feito para você, fala da sua história. Você compartilha sobre ele... mas essas coisas da alma se incendeiam feito faísca em palha. E quando você vê, 35 mil pessoas também acham o livro o máximo. Ele de repente não é mais exclusivo, nem tão especial.



3) Sentimos ciúmes de nossa turminha. Nossa turminha é a mais inteligente, esperta, alegre, divertida, espontânea... E ai do nosso colega que defenda que é a dele. Vixi, e quando pedimos para um colega nos substituir e na semana seguinte as crianças dizem que ele é muito mais legal do que você... Ai, meu coração!

MAS...

Olha, a editora  pediu para eu colocar um mas e terminar com um tom mais otimista.

Mas.. não vou mentir, se você pecou assim, você provavelmente perdeu seu lugar no céu dos mediadores. O lado bom é que... há tempo para redimir, salvar sua alma e quem sabe frequentar o lugar onde estão os maiores contadores de histórias.

A receita é simples. Faça mais mediações! Pode parecer paradoxal, mas a ordem médica é dobre os seus erros e multiplique em 100 seus acertos. Não é nada fácil ser um mediador. 

Quando estamos em roda com as crianças, elas, suas histórias e suas perguntas é o que há de mais importante, por isso não tenha dúvida, a leitura dialógica exige 100% de nossa atenção e afeto. Não tenhamos medo de errar e estar cada vez mais próximo e presente das crianças. Sabendo ouvi-las, sabendo provocá-las e sabendo mediar sua relação com a literatura da forma mais amorosa possível.


Com certeza, você já passou por isso compartilhe com a gente – ainda que de modo anônimo - qual foi seu maior erro durante uma contação. Qual foi seu maior deslize?