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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Rodas dialógicas com jovens surdos: relatos de uma mediadora de leitura.




                Ok, sejamos francas: eu não entrei no Livros Abertos pensando em contar para adultos, minha vontade mesmo era estar junto das crianças. Mas aceitei o desafio e acabei parando no grupo de mediadores da Educação de Jovens e Adultos. Já na primeira visita à escola, outro desafio: mediação com jovens surdos. E por duas novatas que não sabem Libras. Vish, será que vai dar certo?
                Se você leu esse post aqui viu que isso não era exatamente uma novidade para o projeto. Ana Paula e Raphaella já haviam tido uma experiência no semestre passado e nos garantiram: “É ótimo! Eles adoram! Eles vão nos ajudando na comunicação!”. 
                Ainda assim, a insegurança batia forte, enquanto tentava convencer a mim mesma: “Vai ser uma experiência única, vou aprender pra caramba!”. Era o que eu repetia toda vez que alguém me perguntava: “E aí?”.
                Na primeira semana, levamos a Rapha com a gente e lemos Ana, Guto e o Gato Dançarino. Contávamos com uma professora intérprete. Mas saí de lá com um sentimento estranho, “É... foi legal... mas eles não participaram muito”. Ainda estávamos nos conhecendo.
                No segundo encontro, levamos O Pato, a Morte e a Tulipa, que eu e Tauane estávamos namorando há semanas. Aí eu pude perceber a diferença de se mediar um livro que você leu e releu, observou cada detalhe e se permitiu sentir. Foi realmente uma experiência diferente, a nossa conexão com a obra favoreceu a nossa conexão com os estudantes e deles também com a própria história. Podia ver eles engolindo seco (SPOILER) com a aproximação da morte do nosso amigo.
                Apesar de ter saído com a sensação de dever cumprido, por algum motivo não estava totalmente convencida. Não estava empolgada, como gostaria de estar.  Ao me perguntar o que estava me impedindo de me conectar verdadeiramente com essa experiência, logo respondia: “Ah, mas é porque a gente perde muito, tem um obstáculo na nossa comunicação, eu não sei LIBRAS”, “Sempre se perde algo na interpretação”, “Nosso diálogo não é fluido”.
                Pois bem, no encontro seguinte decidimos fazer algo totalmente diferente. Levamos um livro só de imagens (lindíssimo, por sinal, vale a pena conferir as imagens oníricas deste belíssimo livro-álbum):  A Bruxa e o Espantalho. Digitalizamos, preparamos um apresentação de slides e sugerimos: “Vamos construir juntos essa história?”.
E não poderia ter sido melhor! Eles super toparam, participaram, se empolgaram. Fluiu, foi natural. A imagem nos uniu, porque ela é uma linguagem que compartilhamos, ao contrário do Português e e de Libras, que apenas eram compreendidos por um ou outro dos lados. 
Era incrível como eles percebiam cada detalhe, um dos alunos inclusive se levantou várias vezes, para mostrar algo que havia observado. Todos nos divertimos muito, mediadoras, estudantes de EJA e professoras.
Detalhe de A Bruxa e o Espantalho, de Gabriel Pacheco.
Essa foi para mim uma noite muito especial. Foi quando eu confirmei que a leitura dialógica não tem limites. Basta que se esteja verdadeiramente aberta ao diálogo (perdoem-me a repetição, mas não há qualquer sinônimo à altura), buscando livrar-se de julgamentos e permitindo-se estar presente. 
É claro que as dificuldades surgem, assim como os incômodos, principalmente nas primeira experiências, mas se eu posso te dar um conselho, não tente afastar essas dificuldades à força, elas se vão naturalmente à medida que você conhece o seu grupo.
Agora, cá estou com o coração partido porque só voltarei a vê-los daqui um mês.  


Escrito por Júlia Di Flora


FICHAS TÉCNICAS DOS LIVROS CITADOS: 
Ana, Guto e o Gato Dançarino
autor: Stephen Michael King
ilustrador: Stephen Michael King
tradutora: Gilda de Aquino
editora: Brinque-book
ano de edição: 2004

O pato, a Morte e a Tulipa
autor: Wolf Erlbruch
ilustrador: Wolf Erlbruch
tradutor: José Marcos Macedo
editora: Cosacnaify
ano de edição: 2009

A Bruxa e o Espantalho
autor: Gabriel Pacheco
ilustrador: Gabriel Pacheco
editora: Jujuba
ano de edição: 2013

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Um (querido e especial) diário do contador


            O fantástico da vida é saber que você sempre pode se surpreender. E fui surpreendida muitas vezes nesses 8 meses que estou como mediadora no Projeto de Extensão Livros Abertos, da Universidade de Brasília. Quando comecei a ler e ouvir falar sobre o projeto, fiquei encantada. Leitora voraz, não é de se espantar que a ideia de ler para crianças me inspirasse tanto. E não deveria ser nada de outro mundo, afinal, ler livros de crianças para crianças? Nada de novo no front, correto? Errado.
            A vida tem daqueles momentos em que estar errado é completamente deslumbrante. Minha experiência no Livros Abertos é repleta desses momentos. Isso porque me permite pensar em três questões: o tipo de leitura, a importância das ilustrações nos livros e o público-alvo das publicações.
Minha experiência prévia em leitura me ensinou que ler é simples. Você só precisa acompanhar o que está escrito no livro, dar umas entonaçõezinhas diferenciadas para cada personagem e a fórmula está completa. Mas o projeto me apresentou um outro tipo de leitura, a dialógica. Eu poderia falar aqui sobre esse tipo de leitura, seus fundamentos e estratégias, mas não é o meu foco neste momento, embora acredite que algumas coisas devam ser ditas.
A leitura dialógica é um novo fôlego nesse nosso modelo educacional extremamente falho. Permite que a criança saia dessa posição cristalizada de quem não tem nada a oferecer no processo de ensino-aprendizagem. Possibilita momentos de liberdade, criatividade, aprendizagem e autonomia. E isso tudo é extremamente necessário neste nosso mundo conturbado e quadradinho.
Sobre as ilustrações... Ahhh, as ilustrações (insira aqui um olhar apaixonado, que é exatamente como me sinto hoje com relação as ilustrações) têm todo um atrativo à parte. Desde criança eu sempre achei que elas fossem inúteis, puramente uma distração. Quanto menos imagem, melhor eu achava que o livro era... Afinal, bom mesmo é livro de adulto. Com o Livros Abertos eu descobri que as ilustrações podem contar muito mais do que as palavras escritas nas páginas de um livro. Podem dar novos significados a essas palavras, aos eventos, aos personagens. Há todo um universo a ser descoberto nas imagens (o Vira-Lata, de Stephen King, é um claro exemplo sobre a importância das ilustrações para uma história).

(Vira-lata, Stephen Michael King)

Por fim (embora seja, na verdade, o começo de novas possibilidades), acho importante falar sobre a ideia clássica de que literatura infanto-juvenil se trata apenas de livros de crianças. Aprendi com o Livros Abertos (e continuo aprendendo) que os limites de um livro são infinitos. Há uns 2 meses a mediadora Ana Paula me fez um convite inusitado e acabei aceitando. Começamos, então, a fazer mediações de leitura com turmas do Ensino de Jovens e Adultos. Um público adulto e idoso em processo de alfabetização.
Começamos um tanto quanto receosas. E os adultos e idosos também, afinal, leitura de “livros de crianças” para adultos não parecia ser útil. Passei por momentos iniciais de dúvidas achando que talvez os livros escolhidos para mediação fossem infantis demais para aquele público. E a vida me trouxe uma nova surpresa. As pessoas realmente estavam participando, estavam trazendo suas histórias de vida para a roda de leitura. Estavam nos mostrando que aqueles que se dispõem a ensinar também têm muito a aprender.
O conteúdo riquíssimo que cada contação produzia, a receptividade do público quando começaram a entender a proposta, o engajamento... Tudo nos mostrava como a literatura infanto-juvenil é indicada para todas as idades. E então pensamos: "Até onde vai nossa coragem em desbravar a mediação de leitura com outros públicos?". E assim chegamos numa turma de surdos. E foi uma das experiências mais incríveis que eu já tive oportunidade de vivenciar (e que pode ser vista no instagram do projeto, @livros.abertos). Fizemos a mediação com a tradução da professora de libras e percebemos que a leitura não tem limites e que a gente sempre pode aprender com as experiências dos outros.
As contribuições da leitura dialógica PARA PESSOAS DE TODAS AS IDADES estão lá: claras, gritantes. Basta apenas se permitir conhecer novas possibilidades. Proporcionar espaço nos quais as pessoas possam trocar conhecimentos e experiências... Permitir que seja possível não apenas ler uma história, mas ampliá-la, vivenciá-la. E vocês? Já redescobriram um livro hoje?


 (Os livros são conversações, ilustração de José Rosero, 2013)

Escrito por: Raphaella Christine

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Homenagem às gerações passadas

Nós sentimos um misto de tristeza e alegria quando um mediador se forma e parte em busca de novas aventuras... Hoje, com lágrimas nos olhos mas com o coração tranquilo, homenageamos os ex-mediadores e todas aquelas pessoas especiais que fizeram parte de nossa história!

Desde 2011, histórias foram tecidas e se somaram ao Livros Abertos, cada trama, cada nó, cada erro e acerto veio somando ao longo dos anos e criando uma equipe que não pára de crescer.



Aos nossos antigos mediadores, nosso agradecimento amoroso... pelas maravilhosas contações, inspiradoras experiências. Ao longo de um semestre - e em muitos casos muuuitos semestres - tivemos a oportunidade de conhecê-los e compartilhar sua percepção única sobre o mundo e sobre as relações escolares.




Somos gratos as amizades que ficaram...




Somos gratos pelos livros que foram indicados por vocês e hoje moram em nossas estantes e em nossas memórias.

Somos gratos pelos segredos que compartilhamos nos bastidores de nossas contações... aqueles que ficaram guardados a sete chaves... mas agradecemos também àqueles que eles foram compartilhado entre risos e lágrimas.


Mas por que passar tanta saudade? Fomos atrás de alguns dos mediadores que já saíram do projeto para matar as saudades! Será que eles se lembram de nós?


Amor e agradecimento foi o que recebemos de Raquel Freire
"O Livros Abertos foi incrivelmente especial! O difícil é que eu queria dizer isso de um jeito que pudesse de fato mostrar toda a gratidão que tenho pelo projeto, e quando digo projeto quero dizer tudo dele! Os grandes amigos que fiz, a Eileen maravilhosa, as crianças, as contações, os professores, as oficinas, as experiências, os livros...é um projeto que amo e que fez toda a diferença na minha graduação (afinal fiquei lá desde o terceiro semestre e me formei em 6 anos hahahah) e na vida  De minhas lembranças, as que tive no livros abertos estão na minha memória e no coração com um carinho imenso! Meus olhos até enchem de lágrimas (felizes) ao recordar delas! Bem é isso, sem muito floreios mas com muito amor."

Pedimos para Raquel compartilhar uma experiência de contação que foi marcante e olha só o que lembramos...
" uma contação que me veio agora e foi inesquecível foi quando as crianças estavam pedindo histórias de terror e eu não estava mais achando livros e decidi escrever uma para elas...não foi uma grande história, mas compartilhar com elas esse momento, a surpresa e alegria delas, também a possibilidade de criar foi algo incrível. Essa foi especial e mais concreta, mas toda contação trazia isso, um espaço para compartilhar uma história que por mais que já fosse conhecida se tornava única naquele momento".


A possibilidade de criar com liberdade foi lembrada também por Joao Bosco, ao falar sobre uma contação que fez história...
''Uma experiência marcante na contação foi quando eu trouxe um livro chamado “Aventuras na Serra do Mar” que era um livro sobre 4 garotos que fazem uma trilha de aventura pela serra encarando desafios da floresta. Eu mostrei para os alunos as aventuras que eu já tinha passado por fazer parte do Clube de Desbravadores, no qual o livro era inspirado. Falávamos de acampamento, de escalada, eu levei uma barraca de acampamento e a gente fazia as contações dentro dela, tudo para trazer os estudantes mais perto do que as personagens no livro passaram. Foi certamente uma das contações mais movimentadas que tivemos."

O projeto de extensão Livros Abertos também marcou muito a vida acadêmica de muitos mediadores, construindo novos sentidos e novas perspectivas, este foi o caso de Joao Bosco, vamos conferir como foi para ele entrar no projeto?
"O Projeto Livros Abertos surgiu para mim no fim do ano de 2014. Na época, eu era aluno do UnB Idiomas e fazia meu segundo semestre de francês. Não estava sendo muito produtivo nas aulas e estava insatisfeito com o curso e minha falta de progresso. Andressa, minha parceira no crime, - ainda mediadora do projeto -  me convidou para fazer parte do projeto que a amiga dela era participante e sugeriu de eu largar asa aulas de francês. Confiando nela e somando meu desanimo com o curso de línguas larguei tudo e fui na reunião do projeto.

Depois de formalmente inscrito, a primeira sensação que vem a memória é a de estar deslocado. Claramente a minha falta de experiencia fazia com que eu fosse nas reuniões mas ficasse calado por maior parte do tempo. Ambientação é sempre um desafio para o “novato”.

Eu me lembro de ir na escola e ser designado nos últimos meses de aula do ano a turma do segundo ano. Ela era pequena então eu ficava sozinho nela. Foi um desafio do qual eu me julgava extremamente incompetente para lidar, e por muitas vezes achei que eu estava fazendo tudo errado e que a proposta do projeto era impossível para eu desenvolver. 


O ano findou e vieram as férias. No ano seguinte, Andressa me renovou o convite e seria uma covardia deixar o projeto assim tão no início. Sabia que deveria primeiro ter um experiência mais sólida para decidir se ficava ou não".

Ai, Joao! E aí, como foi no ano seguinte?
"Ao começar o ano de 2015, o tempo de pratica, as reuniões com os mediadores, e o tempo passado na presença da nossa professora coordenadora, o interesse, o empenho, o conhecimento e a paixão pelas atividades do projeto cresceram. É excelente para qualquer ser humano encontrar um lugar onde ele é respeitado por aquilo que faz, e suas considerações são ouvidas e rebatidas com respeito e amizade. E foi exatamente nesse meio que eu me encontrava.

Constantemente desafiado a pensar as posições que tinha, uma atitude cooperativa para com os meus amigos que fiz no projeto onde era possível falar com absoluta franqueza e saber que haveria sempre o respeito e uma piada pronta para qualquer ocasião. Porque se há uma coisa que os membros do projeto tinham em comum era a alegria e a disposição para uma boa festa.

As contações na escola ficaram mais leves e mais fluídas, pois agora eu tinha certeza do que eu fazia, e não mais ficava paranoico se estava dando tudo certo como manda o script. Trabalho com pessoas, ainda mais crianças, raramente se consegue manter no planejado. Então eu traçava um objetivo final e deixava o entusiasmo das crianças e a fluidez da leitura me deixar lá."


Joao nos lembrou também de outros trabalhos que fazemos no projeto e que foram marcantes para ele:
"O propósito do projeto era muito bonito e deu tanto certo que começamos a receber convites para oficinas em outras escolas. E o que fizemos? Festa! Porque nada era mais divertido, e como eu me divertia, do que ir em outros lugares e levar, demonstrar o que a gente fazia lá dentro da universidade. Afinal não é esse o propósito da extensão universitária? De se conectar com a comunidade e fazer algo em prol dela? 

A mim ficou a responsabilidade de fazer as apresentações do projeto. Das oficinas, da semana universitária, a Eileen confiava que eu traduziria em palavras e imagens, tudo o que o projeto representava. E eu aproveitei mesmo essa liberdade para cantar, para dançar, para falar e demonstrar que o fundamento do nosso projeto está na alegria em incentivar a leitura, como um prazer que se conquista come esforço e persistência, e não somente um prazer por si só, fácil de ser alcançado. 

O blog - OLHA A GENTE AQUI <3 -, é uma ferramenta utilizada pelo projeto também para externalizar para os leitores nossas experiencias e colocar em palavras aquilo que sentíamos ou experimentávamos. Já escrevemos de quase tudo, quando os alunos dizem para a gente: “Nossa tio, você tem voz de travesti”, ou “Tia, meu pai tá na cadeia” e o que era mais ouvido “Eu sou MC Lepo Lepo”. Das coisas boas e ruins que já ouvimos tudo encarando com muita seriedade, mas sempre alegres, porque era nossa oportunidade de trazer a leitura mais próximo das crianças e mostrar que um livro pode conter respostas para as perguntas mais loucas que podemos formular."

A saída do projeto... assim como o final deste texto nos deixa um gostinho de quero-mais!
Convocamos todos os ex-mediadores para um abraço virtual e uma roda de conversa, para nos recordamos de nossas aventuras juntas!

Topam o convite?
Com carinho, Equipe Livros Abertos - AQUI TODOS CONTAM!








terça-feira, 25 de julho de 2017

Confessionário

Vamos falar sobre nossos maiores defeitos enquanto mediadores? Este texto é para você, especialmente para você, aquele que não deixou de ser um simples e mero humano apesar de ter se tornado mediador.

Por mais vergonhoso que seja admitir, nós mediadores cometemos erros – vergonhosos, escabrosos e cabeludos. Daquele tipo de erro que nos deixa até envergonhados de escrever no diário e coramos para nós mesmos na frente do espelho. Hoje, trago uma coletânea dos deslizes mais comuns entre os mediadores.

Antes de mais nada, queria ressaltar que desses pequenos – às vezes grandes – deslizes, os mediadores mais experientes não estão vacinados.
Então...

OPS!
Nessa categoria, há os deslizes mais comuns na vida de um mediador – que não queremos que nossa coordenadora saiba – mas Eileen, ops!

1) Ops-Esqueci que tinha mediação hoje. Às vezes, o despertador não toca, a rotina muda inesperadamente e ops!

2) Ops-Escolhi o livro de última hora e deu ruim. Já aconteceu comigo e provavelmente já aconteceu com você... Um dia escolhemos o livro de última hora – tipo 5 minutos antes da contação. Ou mais vergonhoso, até escolhemos o livro antes, mas não o lemos  com antecedência e chegamos na contação com um enorme de um kinder-ovo.

Não sabemos que intervenções fazer nem o que perguntar... Eita, e quando é livro rimado? Falta prosódia, ritmo e musicalidade. Vejo que esse tipo de erro causa tanta vergonha que é extinto depois de uma ou duas vezes.


3) Ops-Eu segui ao pé da letra as dicas de alguém e fiz perguntas em todas as páginas e uma criança gritou para mim: PÁRA DE PERGUNTAR, TIA, EU QUERO OUVIR A HISTÓRIA! É... temperança é uma virtude trabalhosa, mas desejada aos mediadores.

4) Ops-Eu fiz uma contação no automático... Esta é escandalosa! Estou até com vergonha de escrever. Em dias cansativos, engatamos no automático e narramos simplesmente a história. O maior do pecados é quando deixamos escapar um “qual a moral da história?

5) E o clássico...  Ops-até hoje não aprendi o nome das crianças... nem da professora. SEM COMENTÁRIOS!

NÃO REGISTRAMOS!


O maior deslize que cometemos é que simplesmente não compartilhamos e divulgamos a Leitura Dialógica do jeito que ela merece. Não fazemos bom uso de nossas ferramentas, como este blog. As melhores experiências muitas vezes não chegam até aqui por que não fazemos registro delas. Essa é hora de nossos leitores darem um grito e brigarem conosco.
Vocês e a LD merecem o melhor de nós.

CIÚMES e POSSESSIVIDADE



O ciúmes patológico é frequente em três situações:

1) Em um dia ensolarado, você fez uma contação perfeita: o livro perfeito, as intervenções perfeitas com as crianças perfeitas, tudo se encaixou. A experiência foi tão única, tão soberba que você quer manter ela só para você. E você quer atear fogo na pessoa que ousar fazer mediação desse livro, principalmente por que ela pode fazer uma contação melhor do que você...

2) Um dia você encontra, na estante de um sebo/livraria aquele livro, aquele livro especial que foi feito para você, fala da sua história. Você compartilha sobre ele... mas essas coisas da alma se incendeiam feito faísca em palha. E quando você vê, 35 mil pessoas também acham o livro o máximo. Ele de repente não é mais exclusivo, nem tão especial.



3) Sentimos ciúmes de nossa turminha. Nossa turminha é a mais inteligente, esperta, alegre, divertida, espontânea... E ai do nosso colega que defenda que é a dele. Vixi, e quando pedimos para um colega nos substituir e na semana seguinte as crianças dizem que ele é muito mais legal do que você... Ai, meu coração!

MAS...

Olha, a editora  pediu para eu colocar um mas e terminar com um tom mais otimista.

Mas.. não vou mentir, se você pecou assim, você provavelmente perdeu seu lugar no céu dos mediadores. O lado bom é que... há tempo para redimir, salvar sua alma e quem sabe frequentar o lugar onde estão os maiores contadores de histórias.

A receita é simples. Faça mais mediações! Pode parecer paradoxal, mas a ordem médica é dobre os seus erros e multiplique em 100 seus acertos. Não é nada fácil ser um mediador. 

Quando estamos em roda com as crianças, elas, suas histórias e suas perguntas é o que há de mais importante, por isso não tenha dúvida, a leitura dialógica exige 100% de nossa atenção e afeto. Não tenhamos medo de errar e estar cada vez mais próximo e presente das crianças. Sabendo ouvi-las, sabendo provocá-las e sabendo mediar sua relação com a literatura da forma mais amorosa possível.


Com certeza, você já passou por isso compartilhe com a gente – ainda que de modo anônimo - qual foi seu maior erro durante uma contação. Qual foi seu maior deslize?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Retorno ao projeto e novos desafios

Contação de histórias com crianças pode se tornar uma atividade lúdica que transmite aprendizado ao mediador. Isto porque, quem pensa que o público infantil não é exigente, se engana! As crianças esperam do mediador uma surpresa a cada encontro. Esperam que o livro seguinte seja tão bom ou superior aos lidos. Elas se agradam quando o mediador traz novidades, quando têm a oportunidade de descobrir, sentir e refletir.
Após dois semestres sem realizar contações, resolvi retornar ao Projeto Livros Abertos. E, claro, estava enferrujada. A turma na qual faço mediações é do primeiro período. Eu e minhas duas colegas fizemos a visita à escola para conhecer as crianças, fazer um quebra-gelo, conhecer a professora e verificar a idade e quantidade de alunos. Combinamos de dividir em grupos pequenos de quatro crianças para que pudéssemos dar atenção a elas. Assim, em cada encontro, cada mediadora ficava com oito crianças e sorteavamos, para termos a chance de contar a todas as crianças, ter contato com todas.
Como a faixa etária predominante era de cinco anos, procurei no acervo do projeto um livro que fizesse jus à idade e principalmente, para introduzir o universo da leitura dialógica na vida delas, já que não haviam tido contato algum na escola, até então. 
Agora não me recordo do título do livro, mas planejei as intervenções e testei com meus primos da mesma idade. Meus primos adoraram, porém na escola foi um fiasco. As crianças não se interessaram, imagino que não tenha sido tão atrativo o livro, tampouco a contação. O local que escolhi também não foi uma boa opção para tal momento: o pátio da escola. É um bom local sim, mas não quando se quer introduzir uma coisa nova na vida das crianças. E eu tive que competir com um jogo que faz sucesso entre elas, o totó. Adivinhem o que elas preferiram? Elas brincavam, gritavam, rolavam pelo chão... E eu ali, totalmente perdida sem saber como reagir. Simplesmente sentei no chão e comecei a leitura sozinha, em voz alta, até que vez ou outra, por pura curiosidade, se aproximavam para ouvir e participar. 
Não há como descrever minha frustração ao terminar a mediação. Achava que havia perdido o jeito para aquilo, e me senti desafiada a trabalhar duro para encanta-las com a leitura compartilhada. Exigiu autoavaliações e preparo.
Em nossa reunião semanal com os mediadores e a coordenadora, relatei o ocorrido. Alguns me deram dicas que ajudaram bastante, como em cada vez pegar apenas três crianças (diminuir a quantidade), procurar um livro com mais imagens (confesso ter dificuldade e estou trabalhando nisso, depois relato outra experiência), e tentar inovar. 
Então vi o livro "Quando isto vira aquilo" no Acervo e peguei. Basicamente, o livro é só de imagens, muito bem coloridas e chamativas. Em cada folha há um animal, e parte do animal se transforma noutro animal na página seguinte. Ao todo, são uns vinte animais. E o melhor de tudo é que esses animais são bastante conhecidos pelas crianças. Baixei o áudio referente a cada bicho no celular. Levei as crianças ao pátio de entrada e comecei o livro. 
Minha abordagem já foi diferente. Comecei me apresentando a elas, transmitindo intimidade e conhecendo-as mais profundamente. Fiz um mistério sobre o livro e comecei a contação. A cada animal as crianças queriam falar o que sabiam sobre aquilo, algumas manifestavam medo, outras diziam que adoravam, e nisso, contavam suas experiências particulares ou até mesmo inventavam algo só para ter o prazer de participar da conversa que estava tão agradável. Eu pedia que imitassem o som do animal e depois elas ouviam o som verdadeiro que encontrei no YouTube. 
Foi fantástico! Nesse dia havia muitos pais na escola sentados próximo à coordenação. Eles ficavam atônitos prestando atenção e riam, achando maravilhosa a forma como as crianças interagiam. 
Ao fim da contação queriam folhear o livro e decidir qual animal haviam gostado mais. Pedi que em grupo (para trabalhar a união, avaliação diferenciada, e harmonizar individualidade, criatividade, autonomia e relações em grupo) fizessem um desenho sintetizando o que mais gostaram. Então cada grupo desenhou animais, onde pegavam uma parte de cada animal e juntavam. Acho que se ativeram ao livro que transformava um animal no outro. Por isso digo que não devemos menosprezar a capacidade delas. Alunos de primeiro período pensaram desta forma!
Nesse dia a contação durou bastante tempo porque elas definitivamente não queriam retornar à sala. Crianças de outras turmas passavam e viam, queriam participar também. 

Eu me senti tão feliz e especial que fiquei contagiada durante vários dias. E foi pelo ótimo resultado que refleti o quanto vale à pena se desafiar e propor inovações. O quanto é importante que o mediador/ professor tenha em mente reinventar seus métodos e adequá-los à necessidade dos alunos. Acredito que todos saímos satisfeitos!
Escrito por: Monique Evelyn Pimentel Zanela

Ficha técnica
Título: Quanto isto vira aquilo
Autor: Gustavo Lins
Editora: Rocco
Ano de edição: 2008

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sobre se sentir mais viva e no lugar certo

Quando é fim de semestre, estresse, nervosismo, muitas coisas pra fazer, em adição à sua vida fora do contexto universitário – obviamente cheia de situações que podem fazer você perder um pouco a cabeça –, o que possivelmente passa pela sua mente é: quero paz!

Mas daí chega o dia da sua contação. Você acha que não terá paciência o suficiente, nem sensibilidade para ouvir e entender as crianças que, somente naquele dia, têm sua intervenção literária. 

Porém, o que acontece é exatamente o contrário: você se sente mais viva e no lugar certo. Pode não ser bem a sua situação, mas foi a minha. Chegar à escola e observar todas aquelas carinhas prontas pra ouvir e discutir o assunto da contação do dia é extremamente reconfortante.



Deixá-las expressar tudo o que tiverem vontade, ouvir suas opiniões e histórias de vida, suas reclamações, seus prazeres, suas ligações entre a história contada e a vida real, são coisas que fazem com que, pelo menos naquela hora, haja um esquecimento das minhas próprias questões, dos meus próprios estresses e insatisfações. Faz  haver um mergulho no momento e a valorização de cada palavrinha dita, cada desejo de se comunicar e expressar tudo o que tiver vontade.

No final das contas, o mergulho no momento é tão importante quanto as intervenções literárias preparadas, o script imaginado, a "moral" da história. Deixar-se levar e criar um ambiente propício à troca de experiências fazem da contação algo significativo não só na vida das crianças,  mas na dos contadores também. 

Raylane


terça-feira, 3 de novembro de 2015

A Grande Questão, de Wolf Erlbruch (Diário do Contador).

Semana passada tive a experiência de levar A grande questão de Wolf Erlbruch para a contação. O livro, trazido ao país pela editora Cosacnaify, proporciona uma reflexão sobre as grandes questões da vida.
Afinal, por que viemos ao mundo? Por que existimos?


Entre as pequenas, médias e grandes questões em nossa vida, ai está uma difícil de responder, não só pela complexidade do tema, mas porque uma resposta não parece o suficiente. Wolf brinca com essa ideia, com ele exploramos o mundo para conhecer o sentido da vida pelo olhar de diversos personagens. Encontramos a resposta dos familiares parentes do protagonista, dos animais domésticos... Ninguém quer perder a oportunidade de dar o seu porquê para o leitor curioso: o padeiro, a pedra, o número três... Até mesmo a morte vem fazer sua contribuição para a grande questão.
É instigante ver como, em ilustrações tão sintéticas, Wolf consegue trazer tantos elementos paraa reflexão. As crianças captaram mensagens sutis por entre as colagens e desenhos do autor. Em muitos momentos da contação, tive a impressão que elas conseguiam ler o código escrito, pois apenas com as imagens conseguiam captar o texto e a proposta do livro.
No início da contação, estávamos no pensamento concreto. De acordo com as crianças, estávamos onde estávamos para ouvir histórias, e existimos "porque sim", oras.
Mas, aos poucos, a cada página e conversa, as crianças construíam juntas outros porquês. Para elas há mais na vida do que ficar no mesmo lugar como uma pedra ou obedecer as regras como um robô.
Pobre do 3, que justifica nossa existência no mundo para que um dia aprendamos a contar até 3! Havia crianças que já sabiam contar até 40! Para além de novas explicações e de olhar o mundo e a vida sob diversas perspectivas, o livro nos convida a repensar:  O que fazer quando nossas ideias e nossos valores mudam ou quando atingimos nossas metas atuais?
Convido aos leitores a conhecerem este livro e a obra do autor, e quem sabe descobrir mais uma resposta para ...
http://ecx.images-amazon.com/images/I/41z99fmwwDL.jpg


Quer contar este livro de forma dialógica? Confira muitas dicas e sugestões para a mediação desta obra na Revista Livros Abertos!

Ficha técnica do livro
Nome: A Grande Questão
Autor: Autor e ilustrador : Wolf Erlbruch
Tradução: Roberta SaraivaSamuel Titan Jr.
Editora: Cosacnaify
Ano: 2012  
Confira o slideshow do livro disponibilizado pela editora no link a seguir: http://editora.cosacnaify.com.br/legacy/slideshow/show_questao.htm




sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O incrível mundo da leitura

Olá pra você que acredita que, com um livro, podemos sonhar alto, ir para um mundo incrível onde monstros existem, animais falam, e coisas imaginárias se tornam reais. Que sabe da importância da leitura e dos diversos benefícios que ela traz, não só pra vida acadêmica, mas pra vida, principalmente de uma criança.
Bom.. vou falar um pouquinho da experiência que tive com essa nova família que me acolheu, o "Livros Abertos: Aqui Todos Contam!". Pra começar, nas minhas primeiras contações eu fiquei bem receosa em relação aos pequenos, não sabia se iriam me receber bem ou se iriam gostar das minhas histórias. Mas não custava nada tentar, né? Além do mais, crianças são crianças, pequenos seres iluminados curiosos para descobrir o mundo. Besteira da minha parte pensar que não iria dar certo, fui calorosamente acolhida e sempre sou recebida por muitos beijos e abraços deliciosos!! Quanto amor.. fico até boba.
Ah!! Esqueci de contar que, coincidentemente, eu arranjei um emprego de monitora em um cursinho no mesmo período, no qual eu também faço mediações dialógicas. E o mais incrível é que todos ficam super empolgados e até incentivados, com sede de mais e mais histórias, não só onde eu trabalho mas na escola onde eu faço a contação também. Eu fico encantada de como realmente um bom livro, com uma intervenção saudável, consegue captar a atenção de uma criança. Elas ficam imergidas em uma outra dimensão e acabam te intrigando com a espontaneidade delas. É  uma atividade lúdica, que consiste em ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias tecidas com materiais simbólicos. São vivencias que se distinguem dos prazeres estereotipados, das ações dadas ou prontas, tendo em vista que expressam a singularidade dos indivíduos que as experimentam.
O mais legal é que, com as histórias que vou contando, as crianças vão me relatando alguns acontecimentos da vida delas, comparando com os personagens principais dos livros ou  compartilhando sentimentos que elas tiveram com a narrativa. E esses são alguns dos motivos que me incentivam a querer fazer parte, cada vez mais, dessa família.
Finalizo então contando um pouco da minha experiência e dos frutos que uma simples contação de histórias pode gerar. Espero que tenham gostado e até a próxima aventura!


Com carinho, Jessica Tsai

domingo, 13 de setembro de 2015

"Trash", de Andy Mulligan: uma experiência de mediação inesquecível


 Em uma das minhas mediações com crianças do 5º ano do Ensino Fundamental - 10 e 11 anos - utilizei o romance infanto-juvenil Trash, escrito por Andy Mulligan, indicado em uma das reuniões do Projeto Livros Abertos.
 Quando apresentei o livro para as crianças, elas não gostaram, pois, segundo elas, “o bom mesmo é história de terror”. Contei o primeiro capítulo, mas as crianças se mostraram apáticas frente à narrativa. Fui pra casa chateada, pois o livro era fantástico. Comecei então a pensar que o problema era eu, talvez não estivesse sabendo conduzir a narrativa. Em meio a esse conflito, decidi que leria novamente o livro, e que desta vez, eles iriam adorar a história.
Traçada a meta, fui atrás de mais informações sobre o livro, e acabei encontrando o filme baseado no livro: Trash: A Esperança vem do Lixo. Ao ler o livro e assistir o filme, tive a plena convicção que as crianças iriam adorar a história. Então, defini que não leria o livro impresso na mediação, mas escutaríamos o áudio da história, narrado e gravado por mim.
Na contação seguinte, levei o trailer do filme e o áudio do prmeiro capítulo lido com minha voz. As crianças logo se assustaram:
- Cadê o livro, tia?
Expliquei que a contação seria um pouco diferente, escutaríamos o áudio da história, e após cada capítulo conversaríamos. Antes de iniciar a mediação, fiz a maior propaganda da obra e mostrei o trailer do filme. Ficaram maravilhados e animados para ouvir a história. Sentamos em círculo bem próximos uns dos outros, e escutamos o áudio. Para a minha surpresa, ficaram todos bem atentos ao desenrolar da história e, ao final de cada capítulo, a participação foi geral.
Por mais estranho que possa parecer, o áudio funcionou esplendorosamente. Eles sabiam que era eu que estava contando, mas num suporte diferente, no caso especifico, o celular.  A cada capítulo, se mostravam mais animados e curiosos. Conhecemos uma realidade cruel, mas também a esperança de dias melhores. Infelizmente, não foi possível contar todo o livro, por causa das férias, mas em nosso último encontro de julho, com o consentimento da professora, levei o filme. E posso afirmar que a meta estipulada foi alcançada com êxito: as crianças adoraram.
O livro Trash despertou o pensamento crítico sobre os governantes corruptos, as diferenças sociais, o abuso de poder etc. As discussões oriundas do livro foram todas bem pertinentes, críticas e emancipadoras.  Crianças que antes apenas manifestavam seu nojo perante quem é obrigado a morar no lixão, que tinham preconceito com os catadores, começaram a perceber a indiferença de grande parte da sociedade mais afluente em relação a pessoas em situação de pobreza e miséria e a compreender questões sociais de forma crítica.
Sobretudo, o que eu senti ao terminar de contar Trash para as crianças foi um sentimento de esperança. Esperança naquelas crianças, que através do livro conheceram e se sensibilizaram perante uma realidade muitas vezes mascarada, ignorada, invisibilizada. Eles se deram conta que essa realidade existe e pode ser mudada por eles. Nessa perspectiva, acredito que esse livro foi uma sementinha na formação de bons cidadãos.

“Eu me pergunto: o que foi que aprendi? O que foi que aprendi no lixão de Behala, e com isso me transformou? Aprendi mais do que seria possível aprender em qualquer faculdade. Aprendi que o mundo gira em torno do dinheiro" . Mulligan (2013, p. 137)




Livro TRASH
Autor: Andy Mulligan
Tradução: Antônio Xerxenesky
Idioma: Português
Editora: Cosac Naify

Ano de edição: 2013

Taíres Sena

sábado, 12 de setembro de 2015

Ler e contar


 Desde bem pequena tive contato com livros. Eles não eram os mais adequados para minha idade, mas eram os disponíveis. Minha mãe professora, nossa casa sempre acabava como uma mini biblioteca. Os livros que lia, ou partes deles, eram os que usávamos na escola, alguns de séries até a frente, outros não. Quando visitava minha prima na cidade, ela compartilhava os gibis, A Turma Da Mônica, o que me deixava muito feliz, mesmo que não conseguisse terminar toda a história.

O tempo foi passando e a minha maneira de ler foi tomando diferentes formas. Revistas de beleza, jornais, romances, e até prefácios e apresentações de livros, quanto a esses, hoje já entendo melhor porque gostava de lê-los...


Um clássico de que gosto muito é o Pequeno Príncipe de Antonie de Saint-Exupéry, ele é mesmo escrito com aquarelas do autor. Sei que posso reler várias vezes e ainda assim tirar novas lições.



Hoje, a realidade  das crianças com que convivo é outra, mais bonita, colorida, etc.  E eu amo ver o rostinho deles enquanto escutam. Eles acertam, perguntam, contam junto a história contada e outras criadas. Quero poder contar histórias por muito tempo e ajudar a fazer parte dessas novas histórias.




Ficha técnica

Título: O Pequeno Príncipe

Autor: Antoinie de Saint-Exupéry

Editora: L&PM POCKET

Ano: 2015

Tradução: Ivone C. Benedetti

Com muito carinho: Rosileide Santos



quinta-feira, 11 de junho de 2015

A História de Alguém

Recentemente, aqui no blog, o nosso amigo João Bosco trouxe uma reflexão que quero usar como base para a experiência que vou compartilhar com vocês. Experiência que será, sem sombra de dúvidas, o divisor de águas para o momento em que eu percebi não ser apenas parte do projeto, mas sim a expressão dele na vida dos meninos e meninas que todas as terças-feiras passam, em média, trinta minutos dialogando e vivendo as histórias que contamos juntos. Bom, em seu texto publicado no dia 26 de maio, no último parágrafo, João diz a seguinte frase: nós contamos histórias que são conectadas com vidas, vidas de pessoas que a gente pode conhecer ou não. Que são sempre reais porque a gente não sabe se a história do livro pode ser a história de alguém, mesmo que cercada de fantasia.”.
Bom, eu estou concluindo a minha graduação em Serviço Social e sempre quis levar algo do que eu estudo para as nossas contações, mas antes de fazer isso eu tentei primeiro fortalecer um vínculo de confiança com eles e conhecê-los um pouco melhor. Assim seria mais fácil pensar sobre o que poderia ser tratado em um primeiro momento, para que a mensagem passasse de forma leve e determinante, sem criar nenhum choque nas gigantescas mentes desses pequeninos. Pois bem, no período de observação percebi que falar sobre “raça” com eles com certeza seria algo interessante, visto que por algumas vezes eles comentaram de maneira aleatória sobre o caso do goleiro Aranha, que quando ainda jogava pelo time do Santos, foi vítima de racismo por parte da torcida gremista em uma partida de futebol.
Inspirada por uma apresentação da Amanda Barros sobre personagens negros na literatura brasileira, levei o livro do Caio Riter, o Pedro Noite, da editora Biruta. Eu separei uma peruca, algumas faixas coloridas, óculos, papéis com desenhos feitos a mão por mim para que eles fizessem observações e muita disposição e alegria para mais um dia de encontro. Eles chegaram embalados pelo ânimo e o alvoroço, é impressionante como o momento de compartilharmos com eles uma história é realmente apreciado. Sentamos na biblioteca e eu fiz a apresentação do livro, perguntei a eles se havia algum palpite sobre o que seria a história. Eufóricos, eles foram logo falando sobre racismo e bullying e começamos a dialogar sobre isso. Escutei as opiniões e as respostas firmes, como: “todos somos iguais” “ninguém é melhor ou pior por conta da cor”, “racismo é algo muito feio”, “eu detesto o racismo”, como sabemos, a criança não nasce racista ou com qualquer outro preconceito, em alguns casos isso acaba acontecendo por outras influências, mas que não irei abordar aqui. Enfim, ouvi-los é realmente satisfatório e ouvir coisas boas das crianças faz com que a chama de esperança de dias melhores realmente reacenda em nossos corações.
Mas o que especialmente mexeu comigo neste dia foi que em dois momentos diferentes da história, meninos diferentes, choraram. E choraram mesmo. No primeiro momento eu não sabia o que fazer, porém ao perceber que as outras crianças estavam percebendo o que estava acontecendo eu resolvi perguntar se estava tudo bem e se eu deveria continuar com a história, com a resposta afirmativa eu prossegui e esperei uma “deixa” na situação para saber como ele se sentia sobre o que estávamos conversando. Ele logo tomou a voz e disse que se sentia como Pedro, que não era por conta da sua cor, mas de outras características físicas que ele possuía. Comecei uma brincadeira que era basicamente falarmos uns para os outros como víamos o colega ao lado, com brincadeiras, mas sem agressões - afinal, durante toda a leitura falamos sobre respeitar os nossos amigos e aceitarmos as pessoas como elas são - falamos da aparência interna e externa uns dos outros. Confesso que fiquei temerosa, até porque a capacidade da sinceridade infantil, por vezes, não tem limites. Mas eles foram gentis uns com os outros, riam do que falavam, mas falaram com muito respeito e amizade, algumas vezes com esforço para não magoar, contudo, ainda assim agiram de maneira muito simples. No final, já estava na ponta da língua toda a mensagem da nossa manhã. O nosso amiguinho que estava emocionado já estava gargalhando e se divertindo muito. Com pesar, terminamos o primeiro tempo e eles foram para a sala falando sobre o Pedro Noite.
O segundo grupo chegou com mais ânimo do que o anterior e em um número um pouco maior. Fizemos a introdução ao livro, como sempre fazemos, e juntos desbravamos as intempéries de uma vida marcada pelo preconceito e a intolerância. Daí, para a minha surpresa, um dos meninos do segundo grupo, também se emociona com o tema. Resolvi utilizar a mesma abordagem anterior, tentando explorar ao máximo a aceitação e o afeto entre eles. O melhor disso é que sempre somos surpreendidos com a imaginação infantil e o quanto os estímulos podem nos trazer respostas primorosas. Enfim, por conta das particularidades dessas duas contações, não tive tempo de trabalhar com um terceiro grupo, entretanto, essa experiência me motivou para explorar o mesmo tema com as outras crianças na próxima semana, ou talvez algo que se aproxime disso, mas ainda estou preparando.

Outro detalhe desse dia, como citei acima, é que levei alguns utensílios pessoais e coloridos para a contação. Todos eles quiseram usar alguma das coisas, alguns meninos usaram a peruca loira, outros colocaram faixas na cabeça, as meninas brincaram com os óculos, em suma, todos ficaram extremamente confortáveis e em nenhum momento eu escutei algo que fosse, ao menos, semelhante a frases como: “isso eu não uso, é de mulher” ou “isso é coisa de menino”. Eles estavam entre eles, falando sobre como se sentiam e sobre o que aprovavam e desaprovavam, inventando finais para a história do Pedro Noite, sorrindo muito e com lenços na cabeça, em alguns momentos sensibilizados, mas, sobretudo, eles estavam livres para ser e assumirem quem eles eram e o quem eles viam. E isso foi algo muito profundo, muito especial. A leitura é a janela da imaginação para uma nova jornada, mesmo que ela envolva uma trilha que nos leva a nós mesmos.

Escrito por: Deliane Rodrigues
Ilustração: Filipe Alencar