segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Eu e a minha menina maluquinha

            Meu contato com os livros vem desde pequenininha. Meu pai é professor e tanto ele quanto a minha mãe sempre valorizaram muito a leitura. Antes de eu aprender a ler, todas as noites, um dos dois vinha até a minha cama com um livro e me contava uma história antes de eu dormir. Meus pais contam que eu implorava para que eles me ensinassem a ler logo. Quando eu finalmente aprendi, isso se tornou até um tipo de problema.  Eu reclamava que não conseguia deixar de ler mais nada e quando estava no carro, ficava lendo TODOS os anúncios que passavam. Era incontrolável.

            O primeiro livro que eu mesma li (sozinha, mas com a ajuda dos meus pais) foi “O menino maluquinho”, clássico do Ziraldo. Lembro-me de me reunir na cama com meus pais, deitada no meio deles, e com dificuldade eu lia algumas poucas páginas, juntando as sílabas devagar. Na minha lembrança o livro era muito grosso e eu demorei muito para terminar a leitura. Mais do que as palavras, o que marcou a minha memória foram as ilustrações divertidas do menino que tinha as pernas tão grandes que eram capazes de abraçar o mundo.
www.ziraldo.com/menino
            Minha jornada começou neste livro e desde então eu já li os mais variados estilos. Já ri alto sozinha, já molhei páginas com lágrimas, já virei noite para saber o que iria acontecer, já fechei os olhos por não querer saber o que iria acontecer. Já xinguei, já amei, já viajei para todos os lugares que a minha imaginação conseguiu alcançar.
            Então um dia desses eu estava no acervo de livros do projeto e comecei a passar pelas estantes olhando alguns títulos. Vários me faziam sorrir e traziam lembranças daquela infância que me faz tanta falta. Até que... Lá estava ele: O menino maluquinho! Eu não pensei duas vezes, abri o livro e comecei a ler, saboreando e apreciando cada palavra e cada figura que vinham recheadas com o sabor da saudade. Em pouquíssimo tempo eu estava no final daquele livro “enorme” que uma vez eu havia demorado uma eternidade para ler. Dessa vez, a leitura foi bem mais rápida do que eu gostaria, e por mais que eu lesse devagar, não consegui prolongar aquele momento. Voltei a ser criança, mesmo agora lendo o livro com outros olhos, e no final chorei.
www.ziraldo.com/menino
            Ali estava eu estampada no livro: o menino maluquinho e feliz que teve que crescer. Não conseguimos escapar do tempo. Aproveitamos a nossa infância ao máximo e por isso mesmo é tão difícil crescer. Vi-me no livro e aquilo me emocionou encantadoramente.
            Tenho certeza que o menino maluquinho ainda está ali, dentro do cara de terno que aparece na última página. Eu tenho essa certeza porque sei que a minha menina maluquinha ainda está dentro de mim. Ela se acende em cada leitura que faço com as crianças e tempo nenhum poderá tira-la daqui.
www.ziraldo.com/menino

Amanda Luma 


2 comentários:

Samara Alencar disse...

Que bela narrativa Amanda! Fico encantada ao ler sobre as infâncias das pessoas. É impressionante como nesse momento estamos tão atentos aos mínimos detalhes; e como eu ouvi alguém dizer um tempo atrás, a vida é feita de detalhes. As crianças têm o privilégio de estarem no tempo mais inteiramente, o que as possibilita apreciar esses detalhes que dão sentido a vida.

Bianca Moura disse...

Fofa! Gostei muito de ler algo tão simples, mas que parece tão importante pra Amanda criança e que, de certa forma, ajudou a Amanda adulta a se tornar quem é.