segunda-feira, 20 de maio de 2013

Incrementando a leitura dialógica com um celular.



Istvan Banyai nasceu em Budapeste no ano de 1949. Emigrou para os Estados Unidos em 1985 onde, dez anos depois, produziu seu primeiro livro infantil: Zoom. Zoom é um livro de imagens em que a cada nova página o zoom é reduzido, ou seja, as imagens tornam-se mais amplas no decorrer do livro, ou tornam-se mais focadas, caso se leia de trás para frente. Enfim, meu objetivo nesse post é demonstrar uma maneira simples de levar algo do nosso cotidiano à leitura dialógica com a finalidade de torná-la mais incrementada e atrativa. Será possível utilizar um celular como instrumento de leitura? Bom, é o que fiz na última terça-feira dia 14/5. Fui à escola com o livro Zoom em mãos, já havia feito a leitura desse livro às crianças do 2º período, agora conto para o 1º ano do ensino fundamental. Achei que seria mais uma leitura de Banyai, como sempre, bem divertida, porém, fui surpreendido ao perceber que as crianças não estavam conseguindo entender o que é zoom. Explicava, explicava e nunca tinha a certeza do entendimento por parte delas; daí veio a angustia de terminar a leitura do livro e elas acharem que as imagens estavam ali aleatoriamente, sem qualquer sequência lógica. Ora, lembrei do celular em meu bolso, pronto agora vai! Não é que foi mesmo! Liguei a câmera do aparelho e coloquei o foco nas imagens, pedi para que todas as crianças olhassem apenas para a tela do celular e esperassem pelo que haveria de acontecer. A cena foi fascinante, pois na escola é proibido o uso de aparelhos eletrônicos, elas acharam que se a diretora ou alguma professora nos visse usando o aparelho estaríamos "ferrados". Fizemos um esconderijo para que ninguém mais pudesse ver aquele celular. Quando todos olharam para a tela, apertei o botão do zoom e aí elas puderam sair do plano explicativo para ver na prática como funciona o tal do Zoom. Daí passei a contar a história com o celular em mãos, as crianças se sentiram atraídas a ver as imagens por meio do celular. A cada nova página,  tínhamos duas perspectivas diferentes: o zoom do livro abordado pelo autor como forma de passar uma visão diferente das coisas e o zoom da câmera que era reduzido ou não, conforme elas pediam. A câmera não foi um instrumento apenas de diversão, podemos utilizar de objetos presentes em nosso cotidiano como forma de compreensão das histórias, por isso a necessidade de atividades que estimulem a criatividade dos contadores. Aqui fica a dica de uma maneira simples e eficiente de contar Zoom: utilize o celular.
Lucas Barros

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O primeiro contato


Estar em um projeto de extensão é deparar-se amplamente com a prática e com os encontros e conflitos que podem ser o momento com o outro. E acredito que o estar com o outro só se dá em uma construção mútua onde os limites de todas as partes são respeitados. Percebo que essa construção não é simples e envolve erros e acertos, no qual é necessário tanto olhar-se como olhar o outro.
Na minha primeira contação dialógica pude ver um pouco disso. A primeira vez que estive com as crianças foi uma tentativa de conhecê-las melhor, a fim de que pudesse perceber suas preferências e modos de funcionamento para atendê-los dentro dos meus limites.
Um encontro, de fato, não é suficiente para que esse conhecimento global da situação aconteça. Até mesmo porque se trata de um crescimento conjunto, assim, novos limites são impostos tanto para o contador quanto para a criança. Desse modo, acredito que estar nesse crescimento é empreender-se e comprometer-se com uma sensibilidade e abertura à construção do outro, aos rabiscos que ele também pode dar no processo.
E nesse encontro temos que estar abertos também às frustrações de uma intervenção que pode não ter efeitos imediatos ou não ter a aceitação plena por todas as crianças que podem querer mudar o que será feito. Acredito que estar atento a esses limites sutis ou pelo menos questionar-se quanto a eles já seja um passo aberto para o desenvolvimento de relações mais equilibradas e que favoreçam o crescimento de todos os lados.
Como integrante nova do projeto pretendo fazer o possível para que essa seja a minha postura dentro da extensão, porque também quero que seja essa a minha postura enquanto profissional fora da graduação.


Nathália Oliveira

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sem paredes, sem muros, sem grades




   Num momento de reflexão pós palestra do professor José Pacheco (para quem não sabe, ele é um dos criadores da Escola da Ponte de Portugal), me ponho a pensar...

   Estou na biblioteca de uma escola, na hora do intervalo, pronta para iniciar mais uma contação dialógica para um grupo de crianças. 

   E me ponho a refletir... A questão é que sempre temos alguma imagem em nossas mentes. Algo que já foi construído e que muitas vezes encontra-se dicotomizado. Eu já possuo uma ideia do que seria um grupo "bom" e do que seria um grupo "ruim" para a contação. Como na frase de Wittgenstein "os limites da minha linguagem, denotam os limites do meu mundo", eu não fico contente em ter tais limites dicotomizantes. Não fico contente também em pensar transformar as crianças para que possam compor um grupo "eficiente". Tal linguagem impõe limites de uma maneira que me incomoda.

   É como ler um livro que não nos acrescenta, que não nos surpreende com o enredo. Portanto, o que me conforta dentro desse incômodo é ter a consciência de tais limites. Apenas assim, serei capaz de desconstruí-los. 

  Estou em uma escola que apesar de ter caráter homogeneizante, apesar de estar cheia de limites, formados tanto pelos muros quanto pelo próprio modo de funcionamento, cheia de defeitos, é um local que circulam pessoas. Pessoas como eu, que podem não percebê-la da mesma forma que eu, mas que continuam a ser pessoas! E que possuem um universo de possibilidades em sua existência. Pensar nesse vasto universo fez com que as paredes criadas por mim aos poucos se desmanchassem e aos poucos o que era incômodo tornou-se apenas uma das muitas possibilidades, tornou-se apenas um nome.     

Ver a todos como seres de linguagens ilimitadas me possibilitou abrir mais uma porta para o reencontro com o encantamento. Me possibilitou ver a cada um como um livro novo, cheio de histórias, encantos e possibilidades!

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sugestão de mediação - "Só um minutinho"


Boa noite aos amantes de uma boa leitura!

Hoje vim trazer uma sugestão de mediação que é este livro de Ivan Zigg chamado "Só um minutinho" que foi escolhido por mim porque o personagem principal é um porquinho, e semana passada eu fui questionada pelas crianças sobre a possibilidade de levar um livro de porquinho, lobo ou golfinho. O livro é muito interessante para trabalhar a questão do tempo com as crianças e eu, para dar uma incrementada na leitura, levei um relógio daqueles com despertador para que toda vez que o porquinho quisesse mais um tempo, eles falassem com o relógio na mão: "Só um minutinho" e foi o máximo, eles adoraram!

Faço mediação em uma turma de 2º período, e eles que tem 4/5 anos se divertiram com o livro. Nele é possível questioná-las a respeito do que elas consideram muito tempo e pouco tempo, sobre o que eles acham do quarto do porquinho: bagunçado? organizado? será que ele consegue arrumar em um minutinho? e o quarto de vocês, é assim também?, e se em casa eles também pedem mais tempo pra fazer algo, e várias outras situações que o porquinho vai passando durante a leitura. Em determinada parte do livro, o porquinho vai dar mingau pro neném e acaba deixando ele todo sujo, uma das crianças disse que o porquinho não sabia cuidar de neném, mas que ela sabia e então as outras crianças falaram que também sabiam cuidar de bebês, e eles falam como tem que fazer. Me divirto com eles.

Muitos questionamentos podem ser feitos com as crianças a partir dessa leitura e as ilustrações são ótimas! Elas gostaram bastante do livro, souberam identificar vários detalhes nas ilustrações e compreenderam as imagens como um todo também.

Gostei bastante de trabalhar com esse livro e recomendo!
Até a próxima e boas mediações! :]

quarta-feira, 1 de maio de 2013




Hoje é dia do trabalho, um dia dedicado àqueles que acordam as oito da manha e voltam pra casa as seis da noite . O trabalho dignifica o homem, independente do que faça, um grande executivo e o porteiro do prédio, cada um exerce uma função  importante e que se feita com dedicação o resultado além de útil é gratificante.

É  justamente o que esse contador quer passar. Nós não acordamos cedo para pegar engarrafamento, não temos que aguentar chefes cobrando prazos de projetos atrasados e não temos nosso retrato de empregado do mês. Em geral é bem fácil ser um contador, não trabalhamos todos os dias, apenas um dia mais conveniente para nosso horário que dedicamos ao trabalho na escola, fazemos uma reunião por semana e seguimos a proposta pedagógica do projeto e pronto. 

Mas lembra da palavra chave desse post, gratificação. Pois é, nós não somos pagos para fazer o que fazemos e nosso trabalho nem é tão essencial quanto o de uma secretaria ou professora na escola que frequentamos, mas o que fazemos tem gratificação, mesmo que diferente do senso comum. A gratificação desse trabalho reside, em primeiro lugar, em ser algo voluntário, ninguém foi obrigado a vir. Mesmo assim, estamos lá e mesmo não recebendo um salário no fim do mês o retorno social que temos de ver  aquelas crianças desenvolvendo a leitura e a expressão nos deixa muito felizes e motivados.

Por isso, nesse dia do trabalho, nós queremos parabenizar a todos que exercem uma função útil e gratificante. Gratificante para si próprio ou gratificante para a sociedade. Parabéns trabalhadores, parabéns contadores do Livros Abertos. =D

Joao Bosco Feitosa 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Como a poesia me fez entender as aulas por Andressa Priscilla

Era meu segundo semestre na universidade e tive que fazer aulas de filosofia. Confesso que viajar no mundo filosófico nunca foi muito o meu forte. Sempre fui mais prática!
            Passei o semestre inteiro indo ás aulas e não via sentido em nada do que a professora falava, mas era algo relacionado a “Eu, tu e isso”. A professora falava, falava, falava e eu não entendia o porquê eu tinha que saber de “Eu, tu e isso”. Mas ia sempre e anotava tudo, apesar de nunca fazer sentido para mim.
            Na penúltima aula do semestre ela chegou em frente ao anfiteatro e disse: Vou recitar um poema para vocês! E eu pensei: Lá vem ela com as viagens malucas de “Eu, tu e isso”. Mas não, dessa vez ela recitou algo que verdadeiramente fez todo sentido para mim e ali eu consegui entender um semestre inteiro, tudo aquilo que ela falava, falava e falava.
 Foi aí que conheci o poema “Orfeu Negro”:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

(José Regio)

Logo em seguida todos aplaudiram de pé. Saí de lá com a conclusão de que “Eu, tu e isso”, é a relação com o mundo, em termos de experiência externa e interna. É conhecimento, o pensar, imaginar, onde o mundo é vivenciado, que é utilizado e experimentado. Cabe a nós aceitar ou não essas experiências, ou aceitar tudo que é nos imposto. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Retrospectiva 2012: o ano dos quadrinhos!


Ano passado fiz mediações de leitura com uma turminha do segundo ano do primeiro período do ensino fundamental. Nessa época comecei a me envolver mais com as novelas gráficas e decidi compartilhar este interesse com as crianças. O termo “novela gráfica” vale tanto para as histórias fechadas, com narrativas análogas ao romance e a prosa quanto para edições “encadernadas em formato de livros de histórias seriadas em revista” [1]·.
Escolhi três quadrinhos que ilustram esta linguagem artística tão admirada por pessoas de todas as idades: O chinês americano, de Gene Luen Yang; Batman - crônicas volume 1, de Bob Kane e O surfista prateado volume 1, de Stan Lee & John Buscema.
Cheguei a ter alguns receios... Novelas gráficas juvenis para crianças entre 7 e 8 anos...será possível? Mas a pergunta é ainda maior: É possível apreender tudo de uma só vez em uma história? É necessário?
Pensando na nossa própria experiência, quando saímos do ensino médio e vamos para a universidade um novo mundo literário se revela. Dos livros didáticos a compêndios de literatura, filosofia, história entre outros. E não compreendemos tudo, assim, de uma só vez. É preciso releitura, pesquisa, discussão, reflexão, e, sobretudo, tempo. Como diz Ricardo Azevedo “a leitura, como muitas coisas boas da vida, exige esforço e (...) o chamado prazer da leitura é uma construção que pressupõe treino, capacitação e acumulação” [2].
Não devemos fazer pouco da capacidade de nossos pequenos em (re) inventar significados e interpretações. E se há dúvidas podemos aprender com eles a reler e encontrar novidade na releitura. A repetição para as crianças nunca se dá na mesma forma. Elas conservam a antiga sabedoria “não se entra em um rio duas vezes”. Há sempre algo novo a descobrir.
Ao ler os quadrinhos com eles todos os meus receios se foram e nós nos divertimos muito!
Escolhi começar com O chinês americano enquanto os outros dois quadrinhos seriam os “satélites” das nossas leituras. É que o primeiro é uma única narrativa longa, e os outros, de super-heróis, são formados por várias histórias. Acho que acabei escolhendo esse caminho porque costumo ser assim no dia a dia, leio várias coisas ao mesmo tempo, algumas até o final, outras ficam pela metade. De qualquer maneira, o que importa é que deu certo! Eu costumava  levar os três quadrinhos e perguntar: vamos continuar com O chinês americano ou vamos dar uma pausa e ler alguma história dos nossos super-heróis? Começávamos o processo democrático de levantar o dedinho e escolher conforme a maioria.
O chinês americano (American born chinese)  foi escrito e ilustrado por Gene Luen Yang (Califórnia, 1973). É a primeira graphic novel a ganhar o prêmio Michael L. Printz Award de excelência em literatura para jovens adultos da American Library Association de literatura juvenil. Também foi finalista do National Book Award e indicado ao Eisner de melhor álbum original.
A narrativa é composta por três histórias paralelas: a de Jin Wang, garoto americano, filho de imigrantes chineses, a de Danny, estudante americano que recebe a visita de um primo chinês Chin-Kee, e de outra inspirada na antiga lenda do Rei Macaco que rejeitado pelos deuses decide subjugá-los utilizando as disciplinas mágicas do Kung Fu, para depois renegar a sua própria natureza. As três histórias juntas tratam de identidade, diferença, conflito e preconceito étnico de uma maneira leve, sem dogmas moralizantes. Já os quadrinhos de super-heróis decepcionaram um pouco. A garotada acostumada com os filmes de ação e vídeo-game achou meio sem graça as histórias antigas e inocentes de Batman e do Surfista Prateado. Iam afoitos para os quadros de ação e me perguntavam “cadê o sangue?” (!).
A DC Comics lançou em um único livro as primeiras histórias do Batman em ordem cronológica de maio a dezembro de 1939, e de janeiro a abril de 1940.
A primeira história que escolhemos foi “Blake, o ladrão de jóias Francês” (capa: Fred Guardineer; roteiro: Bill Finger; arte: Bob Kane; p.12), que começa dando o tom da personalidade de nosso herói “Ele é Bruce Wayne, um entediado jovem milionário...”.
Batman, por meio de um informante do departamento de polícia, tem acesso ao mundo do crime. Ele flagra o roubo de jóias e é surpreendido por policiais. Estes acabam tomando Batman por chefe da gangue. Porém, isto fora premeditado por Batman que queria despistar os criminosos e assim prender Blake, o francês.
Entre uma leitura e outra de O chinês americano nós também lemos as histórias de Robin, Coringa e Mulher-Gato.
Alguns grupos escolheram O Surfista Prateado (Silver surfer), de Stan Lee & John Buscema, edição da Biblioteca Histórica Marvel, volume 1. Anunciado como o “novo épico literário Marvel”, essas primeiras histórias contam a origem do “Sentinela das estrelas”. As crianças ficaram empolgadas com esse HQ, muitas só conheciam o herói pelo cinema.
Sobre adaptações, produção industrial e “aventuras ingênuas” indico este artigo do crítico de quadrinhos Ciro Inácio Marcondes http://www.raiolaser.net/2011/04/o-poderoso-thor-ou-stan-lee-enquanto.html. O Ciro é um colaborador anônimo do nosso projeto (agora nem tanto) sempre dando dicas e emprestando quadrinhos do seu acervo.
Nesta crítica ele tem como foco outro herói de Stan Lee, também levado as telas de cinema, “O poderoso Thor”. É interessante como ele chama atenção às ideologias políticas por trás das histórias de super-heróis. Apenas uma ressalva: com um empurrãozinho as crianças chegam a problematizações mil!
Up, up and away!

Suelem Jobim



[2] AZEVEDO, Ricardo. Formação de leitores e razões para a literatura, p.1.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Dica de Mediação - "Os dez amigos" (Ziraldo)



Em uma das minhas mediações com crianças do 1º período (4 anos), utilizei o livro escrito por Ziraldo que se chama: Os dez amigos. A historinha consiste em uma conversa entre os dez dedos das mãos, em que cada dedo se apresenta aos outros (mínimo, mindinho, indicador, fura-bolos, anular, médio...) e brincam juntos.  
Como o livro foi utilizado com crianças em idade de alfabetização, podemos explorar tanto aspectos da história em si quanto em relação a letras, cores, números... Seguem algumas dicas:
  1.  Perguntar se as crianças já tiveram contato com alguma outra obra do autor, como por exemplo "O menino maluquinho", que é bastante conhecido;
  2. Pedir para que as crianças contem os dedinhos;
  3. Explorar as cores de cada página;
  4. Podemos perguntar quais as possíveis explicações para os "apelidos" de cada um dos dedos. Essa parte foi a que mais explorei na minha experiência.
    Ex:
    "- Por que o dedo médio também é chamado de "pai-de-todos"? "
    "- Porque ele é o maior de todos." - (Uma das respostas das crianças).
    Em relação aos dedos chamados "mata-piolhos" e "fura-bolos", também foi possível questionar sobre as experiências das crianças.
    Ex:
    "- Quem já teve piolho?"- Algumas crianças respondiam que já haviam tido e assim eu perguntava:
    "- Como a mamãe matou o piolho?" - E as crianças faziam o gesto com as mãos utilizando o polegar. A partir da experiência relatada, era possível atribuir significado aos apelidos dados aos dedinhos;
  5. Pedir as crianças que mostrassem nas suas mãozinhas os dedos que estavam sendo apresentados em cada página;
  6. Questionar as crianças sobre as emoções e sentimentos esboçados pelos personagens a partir da expressão do rosto de cada um.
    Ex.
     "- O vocês acham que o polegar está sentindo?"
      "- Raiva tia!"
      "- Por que?"
      "- Ele tá com a cara brava!" "- Está com cara de monstro!"
    A partir desse tópico é possível explorar em que situações as crianças também expressaram esses sentimentos, promovendo o diálogo e a interação entre as crianças.
    Ex.
    "- Alguém já se sentiu muito bravo e fez uma cara assim? Como foi?"
  7.  É possível, do mesmo modo, investigar os significados de algumas palavras que podem a princípio não ser tão conhecidas pelas crianças, como "vilão", "anular", "guerreiro", por exemplo. 
  8. Indagar a respeito das experiências das crianças, se já brincaram de teatrinho, massinha de modelar (citados na história)...
  9. Além das dicas acima é divertido desenhar as carinhas nos dedos da própria mão e fazer a leitura utilizando os próprios dedos como personagens!
    Caso essas dicas tenham sido úteis e se tiverem outras, compartilhem com a gente e boa leitura!!!

    :) Isabella Brandão

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Bem-vindos!


Ontem foi dia de apresentarmos o projeto oficialmente neste primeiro semestre de 2013 na Universidade de Brasília, e dar boas-vindas as novas integrantes que a partir de agora serão mediadoras de leitura dialógica na Escola Classe 415 Norte, nossa parceira desde 2011 nessa trajetória de prazer e aprendizagem.
Agradecemos a presença de todos e desejamos um ótimo semestre de histórias e sonhos. Divirtam-se com as crianças e depois nos contem como foi. 


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Hora de Ler - Isadora Salviano

Depois de ler a última postagem do Gabriel e, seguindo a mesma dinâmica, me lembrei de uma vez quando uma professora se arriscou a ler pra gente um texto na sala de aula, até então eu nunca tinha ouvido uma história contada por alguém. Era uma crônica, depois disso achei o livro, li ele e todo o resto da coleção, são 10 volumes com seleções de crônicas, contos e poesias de vários autores brasileiros famosos como Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Cecília Meirelles, entre outros...  Muito interessante, são narrativas a maioria curtas e interessantes, pois retratam o cotidiano e para quem ainda não tem o hábito da leitura creio que seja boa opção. Quanto a crônica, achei muito divertida vale a pena postar:

 
 
HORA DE DORMIR
Fernando Sabino

 
- Por que não posso ficar vendo televisão?
- Porque você tem de dormir.
- Por quê?
- Porque está na hora, ora essa.
- Hora essa?
- Além do mais, isso não é programa para menino.
- Por quê?
- Porque é assunto de gente grande, que você não entende.
- Estou entendendo tudo.
- Mas não serve para você. É impróprio.
- Vai ter mulher pelada?
- Que bobagem é essa? Ande, vá dormir que você tem colégio amanhã cedo.
- Todo dia eu tenho.
- Está bem, todo dia você tem. Agora desligue isso e vá dormir.
- Espera um pouquinho.
- Não espero não.
- Você vai ficar aí vendo e eu não vou.
- Fico vendo não, pode desligar. Tenho horror de televisão. Vamos obedeça a seu pai.
- Os outros meninos todos dormem tarde, só eu que durmo cedo.
- Não tenho nada que ver com os outros meninos; tenho que ver com o meu filho. Já para a cama.
- Também eu vou para a cama e não durmo, pronto. Fico acordado a noite toda.
- Não comece com coisa não, que eu perco a paciência.
- Pode perder.
- Deixe de ser malcriado.
- Você mesmo que me criou.
- O quê? Isso é maneira de falar com seu pai?
- Falo como quiser, pronto.
- Não fique respondendo não: cale essa boca.
- Não calo. A boca é minha.
- Olha que eu ponho de castigo.
- Pode pôr.
- Venha cá! Se der mais um pio, vai levar umas palmadas.
- ...
- Quem é que anda lhe ensinando esses modos? Você está ficando é muito insolente.
- Ficando o quê?
- Atrevido, malcriado. Eu com sua idade já sabia obedecer. Quando é que eu teria coragem de responder a meu pai como você faz. Ele me descia o braço, não tinha conversa. Eu porque sou muito mole, você fica abusando.... Quando ele falava está na hora de dormir, estava na hora de dormir.
- Naquele tempo não tinha televisão.
- Mas tinha outras coisas.
- Que outras coisas?
- Ora, deixe de conversa. Vamos desligar esse negócio. Pronto, acabou-se. Agora é tratar de dormir.
- Chato.
- Como? Repete, para você ver o que acontece.
- Chato.
- Tome para você aprender. E amanhã fica de castigo, está ouvindo? Para aprender a ter respeito a seu pai.
- ...
- E não adianta ficar aí chorando feito bobo. Venha cá.
- Amanhã eu não vou ao colégio.
- Vai sim senhor. E não adianta ficar fazendo essa carinha, não pense que me comove. Anda, venha cá.
- Você me bateu ...
- Bati porque você mereceu. Já acabou, pare de chorar. Foi de leve, não doeu nem nada. Peça perdão a seu pai e vá dormir.
- ...
- Por que você é assim, meu filho? Só para me aborrecer. Sou tão bom para você, você não reconhece. Faço tudo que você me pede, os maiores sacrifícios. Todo dia trago para você uma coisa da rua. Trabalho o dia todo por sua causa mesmo, e quando chego em casa para descansar um pouco, você vem com essas coisas. Então é assim que se faz?
- ...
- Então você não tem pena de seu pai? Vamos! Tome a benção e vá dormir.
- Papai.
- Que é?
- Me desculpe.
- Está desculpado. Deus o abençoe. Agora vai.
- Por que não posso ficar vendo televisão?