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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Acervo Indica: Edição Especial Dia da Consciência Negra 2

Continuando a postagem anterior sobre o dia da consciência negra, mais indicações interessantes sobre o tema. O que vocês acharam das indicações da semana passada? Estão empolgados para os novos livros? =) Chega para vocês mais uma postagem cheia de carinho!

Joãozinho e Maria - Cristina Agostinho e Ronaldo Simões Coelho e Walter Lara

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Vocês já conhecem a história de João e Maria? As crianças que são abandonadas numa floresta e que acabam seguindo migalhas de pão, achando uma casa cheia de doces e conhecendo uma bruxa que não é muito legal. Mas, a história do Joãozinho e Maria, que se passa na Serra da Mantiqueira, no Brasil, tem algumas diferenças regionais que são muito legais, começando pelo fato de serem duas lindas crianças negras. Visibilidade no conto dos irmãos Grimm é sempre uma boa representatividade.

Ficha:
Joãozinho e Maria
Autores: Cristina Agostinho e Ronaldo Simões Coelho
Ilustrador: Walter Lara
Editora Mazza

Quilombo Orun Aiê - André Diniz



Um livro emocionante. Quando eu comecei a ler, não pensei que ficaria tão marcada pela história. Em forma de quadrinhos, conhecemos Capivara, um garoto que sonha em chegar ao quilombo Orun Aiê, para reencontrar seu pai e deixar para trás e no passado todos os dias de escravidão. É um daqueles livros que a gente guarda no coração. Ele é mais voltado para as crianças mais velhas, mas nada que uma boa adaptada não permita que os mais novinhos entendam.

Ficha:
Quilombo Orun Aiê
Autor: André Diniz
Editora Galera Record


A semente que veio da África - Heloisa Pires Lima, Georges Gneka, Mários Lemos e Véronique Tadjo

http://www.salamandra.com.br/lumis/portal/file/fileDownload.jsp?fileId=8A7A83CB30D6852A0131720F1E252BA2

Baóba ou Embondeiro é o tema deste livro.

“E por que uma árvore como tema? Porque não se trata de uma árvore qualquer. Ela é uma e, ao mesmo tempo, muitas, pois existe em toda a África, recebendo nomes diferentes de país para país.”
Colher histórias e contos sobre o Baobá e brincar com jogos inventados com suas sementes é a proposta de A semente que veio da África, estreitando o abraço entre nossos dois continentes.

Ficha:
A semente que veio da África
Autora: Heloisa Pires Lima, Georges Gneka, Mário Lemos
Ilustradora: Veronique Radjo
Editora Salamandra


As cores da escravidão - Ieda de Oliveira e Rogério Borges

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“Uma história sobre inocência roubada, sonhos invadidos, infância escravizada. Mas também sobre esperança, amizade e amor.”

Sensível é a melhor palavra para descrever este livro. Conhecemos Tonho, um garoto inocente que cria, a sua maneira, um refúgio contra a escravidão que vive. O momento em que ele começa a se dar conta da sua realidade é um dos momentos mais dolorosos - não só do livro. Mas, por mais que pareça o fim, Tonho encontra formas de sobreviver e viver, acolhido por pessoas e lugares.
Um livro para os maiores, As cores da escravidão é um desses livros para se ler e pensar.

Ficha:
As cores da escravidão
Autora : Ieda de Oliveira
Ilustrador: Rogério Borges
Editora Champagnat

A última indicação veio de uma de nossas mediadoras, não temos ele no acervo, mas vale a pena conhecer! Vamos ver o que Rogéria nos disse sobre ele?

A cor da vida - Semíramis Paterno
http://www.semipaterno.art.br/wp-content/uploads/2014/09/a_cor_da_vida_2.jpg
Esse é um daqueles livros maravilhosos que a imaginação pode fluir e você criar a sua história. Sabe por quê? Ele é compostos apenas de ilustrações, é um picture book! O livro mostra uma mãe negra de cabelos negros com sua filha e outra mãe branca loira, com seu filho (espie a imagem que colocamos aqui em cima). As crianças se cruzam durante um passeio com suas mães e resolvem brincar juntas sem que suas mães percebam. Aí a confusão está feita! As mães se desentendem e o final monstra que o desespero foi em vão.

Uma história linda de amizade. Negra ou branco? Morena ou loiro? Não importa, é a cor da vida! Leia e crie a sua história. Vale a pena!

Ficha técnica:
A cor da vida
Autora: Semíramis Paterno
Editora Executiva

Também vale a pena dar uma olhada no livro Um menino chamado Negrinho que a gente já falou aqui no blog. Assim como o livro fantástico O mundo no black power de Tayó. Para ler, clique aqui. >> https://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2016/10/o-acervo-indica.html
>> http://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2016/05/o-mundo-no-black-power-de-tayo-um-livro.html

E hoje encerramos nosso acervo indica temático sobre o Dia da Conscientização Negra. Foi muito especial para nós escrever essas postagens, tanto como mulher negra quanto pelo interesse do assunto.  E que não só neste mês hoje nós possamos refletir para quem e visando o que fazemos nossas seleções de livros e leituras e quem devemos atingir, já que, como multiplicadores de idéias, devemos estar atentos às possibilidades que temos nas mãos, e, nesse caso, no acervo pensando nas crianças que dialogamos através da contação.

Beijos mediadores,

Nagy e Vitoria.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Acervo Indica: Edição Especial Dia da Consciência Negra

Olá leitores!
Mais um acervo indica temático sobre um assunto muito especial e que nos sentimos muito honradas em falar!  Dia 20 de novembro é o dia da consciência negra, mas vocês sabem porquê? Essa data foi escolhida porque nela morreu um dos líderes do quilombo dos palmares, Zumbi. Ele é, assim como sua esposa Dandara, um dos maiores representantes da resistência negra, seja ela política, cultural ou física. O dia da consciência negra é muito questionado atualmente, por pessoas que defendem um dia da consciência humana, mas elas se esquecem da representatividade que a data tem para os negros, pois são eles que ainda são estigmatizados e embranquecidos todo o tempo.
Pensando então nessa representatividade, resistência e no empoderamento que a leitura proporciona, o acervo indica separou uma seleção de livros nessa temática:

Nyangara Chena - A cobra curandeira - Rogerio Andrade Barbosa e Salmo Dansa
(477)

http://www.pontofrio-imagens.com.br/Control/ArquivoExibir.aspx?IdArquivo=6699140
Conta a história de um grupo de guerreiros que busca uma cobra que possui saliva mágica e dotada de poderes sobrenaturais que é a última esperança do chefe de uma tribo que fica no Zimbabue. As ilustrações são fortes, intensas e belíssimas e é um livro curto, mas muito marcante. Será que os guerreiros são corajosos o suficiente para encontrarem Nyangara Chena e salvar o líder?

Com esse livro podemos trabalhar a mitologia africana de forma leve com crianças de todas as idades.

Ficha
Nyangara Chena - A cobra curandeira
Autor: Rogerio Andrade Barbosa
Ilustrador: Salmo Dansa
Editora Scipione

Lendas da África Moderna - Heloisa Pires Lima, Rosa Maria Tavares Andrade e Denise Nascimento (389)

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhImK0UM5QubmxD6z8ne1sGaSVVzyFg5rK1bk8EmH71tHKQ68IU26USw6pfsJhKILhFF88gHy7RvX9suWne_4FYkmc15yvNjUbosnsVC4OLDDjVUh-vYIWI_O7HvGkECdf3Hm6kkLkUTqE/s1600/lendas.jpg

As lendas existem. Se existem, nasceram de alguma forma. Como nasce uma lenda?
E como nasce uma lenda num continente onde a maior forma de propagação de conhecimento é a forma oral? basta alguém contar para alguém algo fora do comum, extraordinário para logo cair na boca e ouvido de outras pessoas. Griôs (procurar significado).
Lendas da África Moderna oferece alguns relatos de lendas recolhidas em forma de imaginação brasileira sobre o universo africano. Pode-se trabalhar conhecimentos sobre o continente africano, a oralidade tão marcante neste povo com ilustrações lindas e repleta de pessoas negras, contribuindo com a visibilidade para as crianças negras.

Ficha:
Lendas da África Moderna -  Heloisa Pires Lima, Rosa Maria Tavares Andrade e Denise Nascimento
Autoras: Heloisa Pires Limas e Rosa Maria Tavares Andrade
Ilustradora: Denise Nascimento
Editora Elementar


Berimbau mandou te chamar - Bia Hetzel e Mariana Massarani

http://www.livrariacultura.com.br/p/berimbau-mandou-te-chamar-2449106

Berimbau e a capoeira são formas de expressão da cultura africana muito populares no Brasil, mas onde a capoeira nasceu? Uns dizem que foi na África, outros no Brasil. Essa é uma resposta que ainda não encontramos, mas uma coisa é certa: já são símbolos do Brasil.

A capoeira é uma forma de luta que acabou sendo disfarçada de dança pros senhores  não perceberem sua real função. Versos de cantiga de capoeira, com poesia popular guiam este livro lindo cheio de informações para as crianças. Quem sabe não desperta em alguma delas a vontade de jogar capoeira?

Ficha
Berimbau mandou te chamar
Autora: Bia Hetzel
Ilustradora: Mariana Massarani
Editora

Nina África - Contos de uma África menina para ninar gente de todas as idades - Lenice Gomes, Arlene Holanda, Clayson Gomes (83)

https://www.editoraelementar.com.br/livro/detalhe/69/Nina-Africa

“Houve um tempo em que o céu e a terra eram muito próximos um do outro. Houve um tempo em que se ouvia a voz do rei da terra e do rei do céu. Houve um tempo em que, fizesse chuva ou sol, jamais faltava verde nos roçados. Nesse tempo que nem cabe em nosso calendário, todos os seres inanimados tinha personalidade e viviam entre os humanos.”
Explicando como surgiram as estrelas, o vento e a Brisa, Nina África apresenta também os orixas, o tambor como instrumento símbolo do continente africano através de 5 histórias leves, com ilustrações lindas sobre como começou o mundo e o que permitiu que a África fosse o berço dele.

Ficha:
Nina África - Contos de uma África menina para ninar gente de todas as idades
Autora: Lenice Gomes, Arlene Holanda, Clayson Gomes
Ilustrador: Maurício Veneza
Editora Elementar

Lucas e o direito de coçar - Sheilla Alves
http://statics.livrariacultura.net.br/products/capas_lg/859/3119859.jpg

Lucas tem uma coceira que o faz questionar as coisas, quase todas as coisas. Mas a coceira mais insistente de Lucas é sobre Deus. Será que Deus já foi criança? e como será que foi sua infância? Ele tem a ajuda de algumas pessoas para coçar e coçar essa coceirinha que o segue noite e dia.
Mais um livro sobre representatividade, uma vez que Lucas é negro. Também é possível trabalhar religião e espiritualidade, uma vez que o próprio livro traz a temática para o diálogo.
Um livro para crianças com questionamento de adulto!

Ficha:
Lucas e o direito de coçar
Autora: Sheilla Alves
Editora Callis

O Quilombo do Encantado - Marcos Mairton e Jabson Rodrigues

http://pt.calameo.com/books/00120643536889ac8174a

“Há alguns anos os portugueses ouviam falar do quilombo de Antônio. Referiam-se a ele como “O quilombo do Encantado”, porque muitas vezes encontravam pistas que pareciam levar à sua localização, mas, de repente, sumiam, como por encanto. Várias expedições já haviam sido feitas à sua procura, mas nunca o haviam encontrado”.

Histórias sobre quilombos são sempre emocionantes. Nesse acervo indica, vamos de ‘O Quilombo do Encantado’ e no próximo, Quilombo Orun Ayiê. A importância dos quilombos para os negros escravizados como porto de segurança e cuidado faz com que estes lugares ganhem nomes sempre marcantes.

Ficha:
O Quilombo do Encantado
Autor: Marcos Mairton
Ilustradora: Jabson Rodrigues
Editora Nova Alexandria

Além desses livros, podemos relembrar o livro Grande Assim que já foi citado aqui no blog. Para conferir, clique aqui. (https://livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com.br/2016/10/o-acervo-indica-2-edicao.html)

Vocês acham que acabaram as indicações? Não!

Essa postagem tem continuação porque são tantas indicações que a gente quer ir dando aos pouquinhos para vocês saborearem aos poucos e com carinho
Então, até a próxima semana com mais indicações!
Beijos Mediadores,
Nagy & Vitoria.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O Mundo no Black Power de Tayó - Um livro sobre raízes, cultura e afeto

Na última reunião com nossos mediadores, fomos apresentados ao livro O Mundo no Black Power de Tayó. Escrito por Kiusam de Oliveira, ilustrado por Taisa Borges e vencedor do Prêmio ProAC de Cultura Negra em 2012, o livro é um convite para refletir sobre as raízes culturais, nossa identidade e nossa relação afetiva com nossa própria história.



Tayó é uma menina de 6 anos e em seus cabelos crespos e cheios ela ostenta toda a sua cultura e sua identidade, ela é encantadora e radiante, merecedora de seu nome (Tayó significa alegria). Logo nas primeiras páginas do livro, vemos a mais profunda expressão poética da autora para falar da beleza da protagonista, fazendo que os leitores logo se enterneçam ao conhecer uma menina tão bonita, espontânea e poderosa.  Trata-se de uma história profunda de afeto e empoderamento.

 
Muitas atividades e brincadeiras podem ser feitas com as crianças a partir do livro para aprofundar as reflexões:
1) Pedir para que tentem ser reconhecer, apenas tocando o cabelo uma das outras.
2) Eles podem se observar e criar versos para exaltar a beleza uns dos outros. Exemplo: Marta tem olhos marrons como terra fértil.
3) Pedir para que as crianças pesquisem mais sobre a história do Brasil e do povo brasileiro.
4) Pedir para que as crianças investiguem sua própria história familiar.
5) Contar sua própria história sob a perspectiva de seus cabelos.
6) Quando Tayó se percebe como uma princesa e sua mãe como uma rainha, podemos pedir para que as crianças se desenhem como realezas e propor que reflitam suas diversas características (como lealdade, gentileza, coragem) que as tornam tão nobres e únicas. 
7) Propor que as crianças criem enfeites de cabelo e presenteiem umas as outras. 

A última foi proposta as mediadoras que estavam na reunião, foi um momento de intimidade, troca, entrega e carinho.


Livros Abertos sugere:
O episódio de Livros Animados, programa do Canal Futura, em que há a contação e reflexões sobre esta obra, você pode encontrar no link: https://youtu.be/w2c4KVTowSg.

Confira nossas dicas de mediação na nossa revista:
http://www.revistalivrosabertos.org/#!O-Mundo-no-Black-Power-de-Tayó-Kiusam-de-Oliveira-e-Taisa-Borges/cu6k/572cee670cf2094051e6ecc3


Ficha Técnica:
Título: O Mundo no Black Power de Tayó
Autor: Kiusam de Oliveira
Ilustração: Taisa Borges
Editora: Editora Peirópolis
Edição: 1
Ano: 2013

sábado, 10 de outubro de 2015

Livros infantis e empoderamento: reflexões sobre a escolha das obras.

Com a diversidade como pauta de discussões em escolas, é natural que professores recorram à literatura infantil para iniciar ou complementar debates acerca do assunto. Todavia, selecionar a obra e analisá-la antes da leitura compartilhada é muito importante. Não digo que crianças necessitam de um mediador para ditar o que ela deve ler ou não, mas, para o mediador que vai compartilhar uma obra com as crianças, é fundamental ler o livro antes e pensar sobre ele, seja individualmente, seja em rodas de discussões.
Existem livros infantis que são usados por adultos para tentar passar uma mensagem  e acabam passando outras, que até contradizem a suposta "quebra de paradigmas" que o adulto quer discutir com as crianças. Quantos mediadores já não procuraram obras partindo de temas específicos que queriam trabalhar, viram que eram acessíveis, mas, ao ler a obra, que decepção... Que atire a primeira pedra quem nunca fez isso...Claro que a própria instrumentalização da obra infantil e sua escolha pelo "tema"  é bastante questionável, mas isso fica para uma próxima postagem.Por enquanto, quero discutir o que já acontece: certas obras são recomendadas como instrumentos para quebrar preconceitos e dar voz a grupos discriminados, mas a escolha nem sempre é criteriosa.
Minha intenção nessa resenha é apenas dar a minha opinião sobre duas obras famosas sempre citadas para abordar a diversidade, mas de que eu não gosto tanto, porque acho que têm muitas falhas para cumprir esse objetivo. Para quem utiliza os livros em parte com esse tipo se propósito, é importante que possa questionar se a obra é a melhor escolha e se ela ajuda de fato a flexibilizar os pontos de vista das crianças e a quebrar preconceitos.

Menina bonita do laço de fita

Um clássico de Ana Maria Machado. Quase sempre que procuro livros sobre etnia, essa obra está na lista. 


Resumindo o livro: O protagonista é um coelho branco que observa uma menina negra e passa o livro inteiro perguntando pra ela como ela faz pra ser preta, ovacionando o quanto ela é bonita por este fato.

Se vamos debater sobre protagonismo e usar este livro específico para criar empoderamento, para mim, o negro vir em segundo plano já é um problema. O protagonista não é a menina, que aliás, nem tem nome. Ela, na história, é a menina de pele escura, não tem voz, ela só fala quando o coelho branco "dá permissão" por meio de suas perguntas.

O papel da menina negra é apenas ser o objeto de admiração do coelho, sendo até sensualizada em uma imagem:



Na história não acontece nada, é apenas diálogo pronto de "menina, o que faz pra ser pretinha?" e a menina fala qualquer coisa ligada à cor preta. Aliás, vale um "close" no ""blackface" do coelho...



Quando a menina diz que talvez sua pele seja preta porque comia muita jabuticaba, o narrador conta que o coelho não ficou preto, mas o seu cocô, sim. Uma conexão totalmente desnecessária e que obviamente não faz nada para recomendar o livro em termos de empoderamento e autoestima...




A obra reproduz uma abordagem forçada e preconceituosa de etnia,  insinuando que ser negro é ser exótico e, para ser legal, tem que ter um branco afirmando que é (me poupem de dizer que, por ser um coelho, está tudo ok). Esse aspecto se concretiza com o uso do termo "mulata" para designar a mãe da menina pretinha (se isso não era considerado inadequadonos anos 70, quando o livro foi escrito, isso justifica usá-lo hoje como escolha para empoderar crianças negras?) Aliás, a mãe não fala em primeira pessoa, mas é narrada: para ser preto tem que ter preto na família. O coelho então casa com uma coelha preta pra ter filhos de "todas as cores". Conclusão: ser negro é algo exótico, o papel da negra é ser objeto de sensualidade e uma incubadora. A hiper-sexualização da mulher negra e a exotização do negro para torna-lo "positivo" são problemas que o movimento afro tenta combater. Como uma obra que naturaliza esses preconceitos pode ser usada para debater o racismo? Eu, particularmente, por todas essas razões e outras mais, detesto esse livro. Não sei se as pessoas que o indicam em blogs afros já o leram, sinceramente.

Lado bom: é um dos pouquíssimos livros, na época em que foi publicado e, infelizmente, até hoje,  em que uma das personagens principais é uma menina negra, e apesar de exaltar a sua beleza através da voz de um (coelho) branco, sua beleza é o destaque. Já que representatividade é fundamental, e ela se encontra bastante escassa nesse contexto, a obra tem sua importância, sobretudo uma importância histórica. Precisamos pensar em opções contemporâneas mais afinadas com um compromisso com a representatividade genuína das crianças negras na literatura.


Até as princesas soltam pum

Ao contrário do livro acima, esta obra,de Ilan Brenman, eu não detesto, mas também acho que aqueles que recomendam a obra para empoderar meninas deram, no mínimo, pouca atenção ao conteúdo do livro, pois a história acaba reforçando estereótipos, embora pareça inicialmente subvertê-los. Conhecendo um pouco sobre o autor e sua visão de literatura infantil, suponho que, talvez, ele não se identifique com compromisso algum de empoderar meninas nem de levar a uma reflexão feminista, mas apenas de entreter, brincar e fazer rir, sem pretensão de crítica a valores vigentes. No entanto, o fato de o autor não concordar que a literatura infantil deva servir a propósitos externos nem ser julgada por critérios como esses não impede que o livro seja amplamente vendido como interessante para quebrar paradigmas. Prova disso é a recomendação da obra em listas do tipo "livros que toda menina deve ler". O livro constuma ser citado como especialmente bom para quebrar idéias fixas sobre como meninas devem se comportar... (nesse caso,aliás, me pergunto por que essas listas não recomendam presentear o livro a meninos também!!). Considerando tudo isso, farei minhas considerações acerca do potencial desta obra para realmente ajudar a quebrar paradigmas. 

Resumo: uma menina chega em casa aflita perguntando ao pai se era possível uma princesa soltar pum. E ele, em sua sabedoria, mostra a ela um livro secreto das princesas que ele guardava mostrando que sim, mas tudo com extrema cautela.

O problema que o livro aborda, com muito humor mas pouca subversão, é o lugar da escatologia no "universo feminino". Desde crianças, meninas são ensinadas que verdadeiras damas precisam esconder ao máximo o fato de terem necessidades fisiológicas, e, quanto mais livres disso, mais perfeitas. A princesa é o símbolo de perfeição, logo, como ela iria soltar pum? Por meio do humor, essa questão é discutida a partir de diversos ângulos. No entanto, eu esperava que, de forma leve, o livro contribuísse para dar um basta nessa ideia de que ladies não fazem cocô e devem ter vergonha disso e guardar segredo. Mas não. Quando chegamos ao "livro secreto das princesas" vemos que elas soltavam pum sim, mas eram tão "sortudas" que os momentos em que cometeram esse pecado não foram registrados ou descobertos por seus príncipes, com entusiasmos da menina protagonista de "essa foi por pouco!!!" ao ouvir seu sábio pai confessando as heresias das ladies impostoras. E no fim, ainda reforçam com "Princesas soltam pum, sim, mas mantenham o segredo".

Nem precisaria citar que o fato de ser um homem a guiar o conhecimento da menina acerca do "universo feminino" me irritou. Mas o que mais me irritou, na verdade, foi a decepção. Me animei, por ser comédia, mas chorei, por ver que a história reforça novamente que a mulher, sempre muito mais que o homem, precisa se envergonhar de suas funções corporais. Todas as princesas soltam pum, mas ó: segredo!


Autoria: Amanda Barros


BRENMAN, ILAN. Até as princesas soltam pum. Editora Brinque Book, 2008.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A Filha da Vendedora de Crisântemos (Dica de leitura - Acervo PNBE)


Esta é a cor bonina, de que Beatriz tanto gosta. É também a cor de suas sandálias e da capa do livro.

Autora: Stella Maria Rezende
Ilustrações: Andréia Resende.
Editora: Paulus
Ano: 2008
PNBE 2011

 Beatriz, uma adolescente alegre e cheia de vida, depara-se de repente com o desprezo e o afastamento de amigos da pequena cidade mineira onde vive:
- Beatriz, vê se me esquece, viu?
- Hem...?
- Tira o meu nome do seu caderno de recordação.
- Lélio, você...
- Acha que eu preciso dizer mais coisa?
- Não é possível...
- Me poupa, Beatriz. 
(...)
Desde o amado Lélio, até a amiga Joana, que nunca mais disse "Béa, nossa amizade vale ouro", todo mundo olha para o outro lado quando vê a Beatriz. E, nessa hora, nem suas sandálias boninas* parecem ajudar. A menina alegre, que anuncia à mãe que vai sair para "vesperar"** o passeio festivo do dia seguinte, se vê de repente à véspera... da tristeza. 

Porque a tristeza sempre vem.

Aos poucos, fica claro o que parece estar incomodando a todos:
Sua mãe, que vive de vender crisântemos para um moço que vem de Belo Horizonte.
Sua mãe, que prefere ser feliz.
Isso as pessoas não vão admitir. Onde já se viu? Essazinha aí vive de brisa... Essa, aquela... Ninguém mais chama a mãe pelo nome: Dona Geralda. 
A mãe que não faz questão de marido.
A mãe que namora o moço que vem buscar os crisântemos e que, ainda por cima, é lindo de morrer.
Aí não dá.
 "Onde já se viu uma mulher assim tão aliviada de vicissitude, ara mas tá. Ela pensa que pode plantar o que quiser, o quanto quiser e namorar um homem e ser feliz e para completar o homem é lindo?"

Sinais que Beatriz não notava antes, no meio da alegria e das cores das flores, revelam-se. A música preferida cuja letra a mãe, desolada, não consegue lembrar. A água que derrama perante o olhar vazio. O telhado nunca mais consertado.

E o não dito que rodeia tudo...
Por que o pai de Beatriz foi embora tão de repente, anos atrás? Por que ninguém explica nada?

Mas mesmo na tristeza e na véspera do desespero, Beatriz não vai desistir. Se até a Assombração da Lamparina, na velha casa abandonada, ela enfrentou, não é esse não-dizer  que  vai intimidá-la nem impedí-la de descobrir o que está acontecendo e enfrentar de frente o preconceito.

Uma bela história, repleta de brincadeiras com a palavra e a poesia, que faz pensar sobre  intolerância, coragem e transformação.

Recomendamos!


* Cor de uma flor muito comum em minas, um tom de rosa-violeta muito especial.
** Mistura de véspera e esperar, palavra inventada por Beatriz depois de ouvir a tia sempre repetir que "O melhor da festa é a véspera".